Todas as quintas, o senhor Gregório jantava lá em casa. Cecília, sabia que era dia de torta de laranja, a preferida do pai. Mas a mãe, às quintas, derretia metade de uma barra de sucedâneo de chocolate, que sabia a alfarroba, para dentro da molheira lascada na borda. O que fazia as delícias do senhor Gregório, que sorria deleitado para a mãe, enquanto o Gregoriozinho, seu afilhado lhe ensopava a fatia de torta com o suposto molho de chocolate. O senhor Gregório pegava na colher deixando os botões de punho de ouro espreitarem por debaixo das mangas do casaco que nunca tirava. Um belo par de botões comprados com o lucro da funerária. O pai deixara-lhe uma drogaria, mas o envelhecimento da vila e a sagacidade para o negócio tinham-no levado a mudar de ramo. O senhor Gregório era um homem sério, de sorriso discreto e olhos de um azul aguado sobrenatural. O seu carácter era tão irrepreensível quanto os fatos de risca de giz que vestia todos os dias. Mesmo às quintas-feiras à noite. Quando a campainha tocava, o pai que estava sempre sentado no sofá do canto fingindo que procurava emprego no jornal, erguia os olhos e dizia com a mesma indolência com que se movia por entre as divisões da casa. Júlia, vai ver quem é. Júlia, a mãe, sabia quem era. E por isso tirava rapidamente o avental e ajeitava o cabelo curto no espelho da entrada. Chama o Gregoriozinho porque o padrinho chegou, ordenava com ar ansioso. Cecília chamava então o irmão, que descia ruidosamente as escadas rebolando os olhos azuis aguados. E perguntava-se mais uma vez, enquanto o senhor Gregório sorvia a torta em silêncio, porque razão o irmão teria uns olhos iguais aos do padrinho.
Deite o creme por cima da base de laranja e leve ao frigorífico durante umas seis horas. Desenforme cuidadosamente, retirando o aro da forma.
