sexta-feira, outubro 14

Instante

Há dias em que as pessoas que cruzam a rua não têm rosto. Surgem por detrás do fumo de tabaco dos cigarros que não fumo, em passo lento. O autocarro chega à paragem de sempre e elas descem. A rua, ao fundo, desenha-se vazia. Há uma rapariga de rosto tão transparente como os outros que pára na montra, olhando para o seu reflexo. O vestido de tecido ordinário revela o corpo atarracado. Os olhos grandes, sem maquilhagem ficam colados ao vidro da montra. Há um homem de fato excessivamente largo que passa por detrás. O pedinte senta-se no alpendre enquanto afaga o cão de pêlo curto e ralo. Há uma criança de mão dada a uma mulher de cabeça glabra coberta por um lenço. A criança ganha um rosto enquanto come as bolachas que se esboroam na calçada. A mulher de lenço baixa os olhos enquanto afasta com a biqueira do sapato as migalhas de chocolate. Isso faz-te mal aos dentes. A criança sacode as migalhas de chocolate do canto da boca. Do outro lado da rua o homem de fato largo atende o telemóvel enquanto os seus olhos se tornam pequenos e verdes. A rapariga do vestido ordinário ajeita o cabelo pintado de louro. Há dias em que as cores correm num tempo diferente das vidas. Há dias em que a estória é apenas o papel atrás dos meus olhos.



Bolachas de chocolate com morangos secos






100g de chocolate em barra
150g de manteiga
60g de cacau em pó
200g de açúcar
2 ovos
1 colher chá de baunilha
225g de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
1/2 colher de chá de sal fino
200g de morangos secos



Derreta o chocolate com a manteiga em banho maria e deixe arrefecer. Entretanto misture o cacau com o açúcar e adicione, batendo bem os ovos, um a um. Adicione de seguida a baunilha e a mistura de chocolate e manteiga. Depois junte  farinha, onde previamente misturou o fermento e o sal. Adicione os morangos finamente picados. Faça um rolo com a massa, embrulhe em película aderente e leve ao frigorífico durante pelo menos uma hora. Corte o rolo em fatias de cerca 0,5cm e leve ao forno previamente aquecido a 200º durante 10-15 minutos.

segunda-feira, outubro 10

Dos cheiros

Todas as sextas depois do ensaio, segue-lhe o rasto a lúcia-lima. Atravessa o auditório vazio, onde o cheiro repousa, leve, sobre o veludo vermelho das cadeiras, até ao átrio de mármore branco. Pára por um momento, respirando-o. Havia uma sebe de lúcia-lima junto ao portão. Da janela da sala, enquanto repetia os exercícios com os dedos doridos, via a mãe apanhando as folhas para o chá. O metrónomo marcava-lhe o tempo. A mãe punha a mão em pala para olhar o tempo que viria amanhã. O tempo no metrónomo. O cheiro da lúcia-lima atravessa a estrada de blocos de granito. Pára no átrio do teatro, vendo as pessoas sem rosto descendo a rua. E o cheiro cresce até à porta do café. A mãe deixava-lhe, em cima do piano, a chávena com a infusão ainda fumegante e uma fatia de bolo de chocolate. Ele estalava os dedos doridos e olhava o portão semi-aberto. A dona do café, sem perfume, deixa-lhe a chávena de chá na mesa de sempre. Há um vulto na porta da cozinha e ele pressente-lhe o cheiro. Pede uma fatia de bolo enquanto aquece as mãos na chávena quente. Cerra os olhos ao ouvir-lhe os passos. O cheiro debruça-se sobre ele. Respira-a enquanto o portão semi-aberto bate com o vento. Ela sussurra-lhe alguma coisa, mas ele não abre os olhos. Prefere amar-lhe o cheiro com o qual lhe desenha a linha do corpo e a cor dos olhos. O cheiro afasta-se. Ele saboreia um pedaço de bolo de chocolate enquanto lhe molda o sabor da pele na boca. O portão bate de novo enquanto a sebe de lúcia-lima se agita com o vento. O metrónomo retoma a toada do tempo e o vulto feito de cheiro desaparece na porta da cozinha.


Bolo de chocolate



Ingredientes:

6 ovos
75g de açúcar
75g de manteiga
80g de farinha
200 g de chocolate em barra

Para a cobertura
100 g de chocolate em barra
60ml de natas


Derreta em banho maria o chocolate com a manteiga. Bata as gemas com o açúcar  e junte à mistura de chocolate. Bata as claras em castelo e adicione juntamente com a farinha, à mistura anterior, envolvendo cuidadosamente. Leve  a forno pré aquecido a 180º durante cerca de 20 minutos

Derreta o chocolate com as natas e deite sobre o bolo de chocolate.

sexta-feira, outubro 7

Perséfone

A mulher de cabelo encaracolado liga o rádio. Para apagar da sua frente a fila interminável de carros. Para deixar de ouvir as vozes dos filhos no banco de trás. Para fingir que ouve as noticias que já conhece. Pousa o cotovelo na janela aberta carro. Uma voz do banco de trás. Mãe. Ignora . A fila de carros preto e cinzentos funde-se no ponto de fuga da estrada. Mãe. Há quem buzine. Ela aumenta o som do rádio. Há uma carrinha pintada de verde vidro com cortinados nas janelas, três carros à frente. Quase-sorri.  Pensava que já ninguém tinha carrinhas dessas. Senta-se no alpendre da casa dos avós. Há uma latada por cima do poço e duas cadeiras de baloiço onde os avós esperam o tempo. As vozes dos primos sobrepõem-se às buzinas. Há planos e vontade. Um verão à deriva. Mãe. O tom de voz monocórdico. Sim? O carro avança uns metros. E aquele cansaço. Havia uma romanzeira. Não comas as bagas dizia-lhe a prima que usara tranças até depois dos vinte. Que ficas presa metade da tua vida ao inverno. Todos nós preferimos o inverno onde somos iguais aos outros. Há risos que se fundem com o choro fininho do banco de trás. Buzinam de novo e ela lembra-se da roupa para passar, das contas, das notícias que a aborrecem. Mãe. A impaciência cresce. Buzina também. A carrinha verde avança. Os carros atrás não. Ficam parados no mesmo sitio. Mãe. Mas o que foi? A voz que choraminga. Não comas as romãs. O cheiro morno do Verão e o cabelo alisado à força pelo ferro de engomar. E o cesto da roupa. As contas. Buzina, e pragueja. Mãe. Perdeu a carrinha verde de vista. Não comas as bagas.


Panna cotta com molho de romã



Ingredientes ( para 4)
200ml natas
250ml de leite
4 folhas de gelatina
75g de açúcar
1 vagem de baunilha

Molho de romã
2 romãs maduras
½ chávena de açúcar
½  chávena de água
½ colher de chá de raspa de lima

Hidrate as folhas de gelatina em água fria. Leve as natas com o leite, o açúcar e as sementes de baunilha (abra a vagem longitudinalmente e raspe as sementes com a ponta de uma faca) ao lume até levantar fervura. Retire do lume e deixe por 20 minutos em infusão. Adicione as folhas de gelatina e deite em ramequins. Leve ao frigorífico até solidificarem.
Leve o açúcar, a água e a raspa de lima ao lume até fazer ponto de pérola. Deixe arrefecer compactamente e junte o sumo das duas romãs. Leve a lume muito brando até ficar com consistência de um xarope leve. Sirva por cima dos panna cotta desenformados.

segunda-feira, outubro 3

O senhor Gregório

Todas as quintas, o senhor Gregório jantava lá em casa. Cecília, sabia que era dia de torta de laranja, a preferida do pai. Mas a mãe, às quintas, derretia metade de uma barra de sucedâneo de chocolate, que sabia a alfarroba, para dentro da molheira lascada na borda. O que fazia as delícias do senhor Gregório, que sorria deleitado para a mãe, enquanto o Gregoriozinho, seu afilhado lhe ensopava a fatia de torta com o suposto molho de chocolate. O senhor Gregório pegava na colher deixando os botões de punho de ouro espreitarem por debaixo das mangas do casaco que nunca tirava. Um belo par de botões comprados com o lucro da funerária. O pai deixara-lhe uma drogaria, mas o envelhecimento da vila e a sagacidade para o negócio tinham-no levado a mudar de ramo. O senhor Gregório era um homem sério, de sorriso discreto e olhos de um azul aguado sobrenatural. O seu carácter era tão irrepreensível quanto os fatos de risca de giz que vestia todos os dias. Mesmo às quintas-feiras à noite. Quando a campainha tocava, o pai que estava sempre sentado no sofá do canto fingindo que procurava emprego no jornal, erguia os olhos e dizia com a mesma indolência com que se movia por entre as divisões da casa. Júlia, vai ver quem é. Júlia, a mãe, sabia quem era. E por isso tirava rapidamente o avental e ajeitava o cabelo curto no espelho da entrada. Chama o Gregoriozinho porque o padrinho chegou, ordenava com ar ansioso. Cecília chamava então o irmão, que descia ruidosamente as escadas rebolando os olhos azuis aguados. E  perguntava-se mais uma vez, enquanto o senhor Gregório sorvia a torta em silêncio, porque razão o irmão teria uns olhos iguais aos do padrinho.



Duo de laranja e chocolate



Para a base de laranja:
6 ovos
200g de açúcar
200ml sumo laranja
raspa de duas laranjas
1 colher de sopa de maisena

Misture os ovos com o açucar, junte a raspa  de laranja e a maisena diluída no sumo de laranja. Deite numa forma de aro, redonda, untada com manteiga e forrada com papel vegetal. Leve a forno pré-aquecido a 160º, durante 35 minutos. Deixe arrefecer completamente sem desenformar.


Para o creme de chocolate
200g de chocolate ( 70% cacau ou mais)
100g manteiga
100g açúcar
4 ovos
5 folhas de gelatina

Derreta o chocolate com a manteiga em banho Maria. Junte a esta mistura as folhas de gelatina previamente demolhadas em água fria e mexa até dissolver totalmente. Bata as gemas com o açúcar até obter um creme bem espumoso e junte ao preparado anterior. Bata as claras em castelo bem firme e envolva-as cuidadosamente no creme de ovos e chocolate. 
Deite o creme por cima da base de laranja e leve ao frigorífico durante umas seis horas. Desenforme cuidadosamente, retirando o aro da forma.





sexta-feira, setembro 30

Just breathe



Baixas os olhos sempre que te cruzas com o sem abrigo que dorme ao lado da porta do teu prédio. Finges que olhas os teus sapatos que imitam os de marca que não tens dinheiro para comprar. Mas não olhas, apesar de saberes que antes de atravessares a rua ele te vai dizer bom dia. Bom dia, menina. Parece velho porque a vida dele se escoa debaixo daquele telheiro ao dobro da velocidade da tua. Pensas que lhe podes dar a caixa de madeira com pêras que os primos, que desejarias afastados, te trouxeram da terra. E imaginas-te, enquanto olhas para a biqueira de fancaria dos teus sapatos, nesse gesto de generosidade tão artificial quanto a imagem que vestes ao espelho todos os dias. Bom dia, diz-te ele ao fim dos dois minutos de semáforo. O verde para os peões não cai e ele fica ali, dobrando as caixas de cartão. Tens uma amiga que distribui cafés e mantas pelo Natal a pessoas como ele.  Lembras-te de novo da caixa de peras. O dono do café da frente faz-lhe um sinal. Costuma dar-lhe o pequeno-almoço. O sinal verde cai e ele atravessa a rua atrás de ti. Colado à tua sombra. Que a esta hora da amanhã as sombras são mais longas e deformadas. Levantas o olhar para o ver entrar no café. Podias dar-lhe as pêras. Mas hoje tens um jantar com amigos que são apenas mais uma réplica daquilo que pensas ser. Talvez faças uns crepes, dizes para ti, antes de entrar para a estação de metro.

“And life’s like an  hourglass, glued to the table” *

* Anna Nalick





Crepes de pêra e vinho do porto





4 crepes bem finos 
4 pêras Williams ou Morettini
4 colheres de sopa de açúcar
2 colheres sopa de manteiga sem sal
50 ml de vinho do porto


Corte as peras em gomos finos e reserve (poderá adicionar umas gotas de limão para não escurecerem) Leve o açúcar e a manteiga ao lume numa frigideira até caramelizar ligeiramente. Retire do lume e junte o vinho do porto. Leve ao lume de novo até o caramelo ficar dourado escuro. Junte as peras e deixe cozinhar durante 1-2 minutos, consoante a espessura dos gomos. Recheie os crepes com este molho e dobre-os em leque.






quarta-feira, setembro 28

Natividade


Hoje está um belo dia para morrer, disse enquanto ajeitava cuidadosamente as pregas da saia. Ele sentado ao lado dela deu-lhe uma palmadinha na mão sorrindo. É capaz, é capaz. A mulher de quarenta anos repreende-a. Que conversa é essa, não diga isso, enquanto lhe deita o açúcar na chávena. Só uma colher. Do outro lado do muro passa lentamente uma camioneta carregada de uvas. Cheira a mosto, diz o homem velho. Digo, insiste a mulher velha enquanto tapa a chávena antes da segunda colher de açúcar. Hoje visitaram-me os meus filhos e já me telefonaram os netos. Todos menos o que está na Alemanha. Morria feliz. A mulher de quarenta anos parte-lhe uma fatia de bolo. A luz de Setembro dobra-se devagar na curva da estrada. O homem tira pacientemente as amêndoas da cobertura com a ponta do garfo. Não diga isso, que conversa, está um dia tão bonito. A mulher velha afasta delicadamente o prato do bolo, sorrindo. Estou em paz, por isso hoje seria um belo dia para morrer. O velho engole uma garfada de bolo. Cheira mesmo a mosto.





Bolo de licor de amêndoa amarga





Ingredientes:

200g de açúcar
150g de manteiga sem sal
5 ovos inteiros
125g de amêndoa moída
200 g de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
200g de alperces secos + 1 colher de sopa de farinha
60 ml de licor de amêndoa amarga
75g de amêndoa laminada

Para a cobertura
4 colheres de sopa de açúcar em pó
2 colheres de sopa de licor de amêndoa amarga

Toste ligeiramente as amêndoas laminadas numa frigideira e reserve. Bata o açúcar com a manteiga até ficar uma mistura bem cremosa e junte os ovos inteiros. Junte a amêndoa moída, o licor de amêndoa amarga e a canela e misture bem. Junte a farinha peneirada juntamente com o fermento e por fim os alperces previamente picados e envolvidos na colher de sopa de farinha. Envolva tudo cuidadosamente. Deite numa forma redonda, untada com manteiga e polvilhada com farinha e no fim polvilhe a massa com as amêndoas laminadas. Leva a forno previamente aquecido a 180º durante cerca de 40 minutos.
Faça a cobertura misturando o açúcar em pó com amêndoa amarga e verta por cima do bolo, depois de desenformado.

sexta-feira, setembro 23

Santo Amaro


Ficava sempre até ao fecho da biblioteca. Entrava devagar para que não ouvissem os seus passos sobre as velhas tábuas corridas. Sentava-se ao fundo, sempre na mesma mesa tentando diluir-se no cheiro a pó e na luz que entrava das janelas do primeiro andar. E lia, lia até que fosse o último a sair e serem horas de descer a rua até ao quarto que alugara perto da Rua da Junqueira. Não telefonas aos teus pais? Ele esquivava o olhar e respondia à senhoria, que andara na escola primária com mãe, não, hoje tenho de estudar.  Ela, atirando o pano da louça por cima do ombro, dizia. A tua mãe mandou-te mais estes pães-de-ló. Tenho de estudar, repetia, fugindo da náusea que o cheiro adocicado dos ovos lhe causava. Ficava sempre até ao fecho da biblioteca, na esperança de não voltar. Aos pomares de maceiras raquíticas do pai. Ao cheiro dos pães de ló cozidos de madrugada para vender aos turistas de São Martinho. Aos sábados, quando a biblioteca fechava mais cedo, esperava os fins de tarde no miradouro, com a capela por trás de si, apertando os livros contra o peito. E ficava ali de olhos escorrendo pela ponte que fugia para sul, onde começavam as terras das laranjas. Não ligas aos teus pais? Não. Talvez amanhã. Hoje tenho de estudar.



Pães de ló cremosos  





Ingredientes ( para aproximadamente 12)

10 gemas + 2 ovos inteiros
12 colheres de sopa de açúcar
5 colheres de sopa de farinha
1 colher de chá de fermento em pó


Pré aqueça o forno a 225º. Bata as gemas e os ovos inteiros com açúcar durante 10 minutos até obter um creme muito leve e espumoso. Junte a farinha peneirada e misturada com o fermento e envolva cuidadosamente.
Unte com manteiga e forre 12 ramequins, com papel vegetal. Deite o preparado em cada um dos ramequins e leve ao forno durante 4 minutos ( ou mal a parte de cima dos bolos fique dourada). Deixe arrefecer se desenforme-os.



segunda-feira, setembro 19

Bica cheia

O café onde parávamos ainda lá está, com as mesmas cadeiras verdes sobre a calçada preta e branca. Lembro-me que foste tu quem me explicou que havia calcário preto, partido à mão por homens da serra. Há dias em que ainda lá vou e ensaio cartas como esta. Cartas que não envio, porque já ninguém o faz. Sento-me e tiro o moleskine que fica sempre em branco, porque fica sempre tudo escrito no pensamento. Estás a escrever, dizias-me enquanto pedias o chocolatinho para acompanhar o café. E eu, de olhos perdidos em pequenos nadas, como os sapatos brilhantes do varredor de ruas ou os brincos da vendedora de flores, ria-me. O café onde parávamos ainda lá está. Encontrei a Mariana na caixa do supermercado. Perguntou-me se eu ia ao congresso na antiga FIL, que acho que se chama agora outra coisa. Comprámos lá uma tenda a meias, lembras-te? Para levar para um sudoeste que ainda era só Alentejo e sem festivais. Eu disse-lhe que não. Que me tinha desligado da área, que já não ia a congressos nem seminários. Perguntou por ti. Disse que tinhas ido para fora. Para tentares conquistar o mundo que pensávamos ter a nossos pés, tão perto como as luzes que víamos da roda gigante de Entrecampos. Que, tal  como o nosso futuro,que nos parecia tão óbvio e fácil, já não lá está.  Mas o café onde parávamos, esse ainda aqui está e hoje depois de pedir a minha bica cheia, abri o moleskine e escrevi estas linhas. Talvez te envie isto por email. Ou por uma mensagem no facebook, onde ponho likes nas tuas fotos tiradas do outro lado do oceano. Ou talvez me esqueça delas aqui, no café que também ficou parado deste lado.



Mousse de café e chocolate


Ingredientes
100g de chocolate negro (70% cacau)
4 ovos
150g de açúcar
1 colher de sopa de café instantâneo
1 colher de sopa de manteiga
1 colher de sopa de licor de café


Derreta o chocolate com a manteiga em banho Maria. Bata as gemas com o açúcar e o café até obter um creme leve e fofo. Junte o chocolate derretido ao preparado e leve de novo a banho Maria até dissolver os grânulos de café e obter um creme brilhante. Bata as claras em castelo  e envolva-as cuidadosamente no creme de chocolate e café (arrefecido)e junte o licor de café. Leve ao frio por umas horas e sirva com chantilly.

quarta-feira, setembro 14

Vinte e dois quilates

Apesar de ter as orelhas furadas, nunca usava brincos. Fora avó quem as furara com uma agulha, deixando duas argolinhas de linha branca. Assim a menina já pode usar as contas de ouro no baptismo, dissera enquanto queimava a ponta da agulha no bico do fogão. Nunca usava brincos, ainda que a avó lhe fosse dando aos pares de ouro, todos os aniversários. Ouro e virtude são os tesouros de uma mulher, dizia-lhe. Guardava-os na gaveta da mesa-de-cabeceira dentro de uma caixa de lata juntamente com as fotografias da avó pintadas de cor. Que tinha uma lata como aquela sempre cheia de bolachas de aveia. Uma receita que a vizinha emigrada na América lhe dera e para a qual todos os anos em Agosto lhe trazia caixas de flocos com rótulos escritos em estrangeiro. Nunca usava brincos e acreditava mesmo que os furos já tivessem fechado. O último par, herdara-o com a morte da avó. Um par de arrecadas de Viana. Ouro e virtude. Pagou o café e olhou para o letreiro verde do outro lado da rua. Antes de sair, a empregada do café trouxe-lhe à porta o saco de papel. Esqueceu-se disto na cadeira. Do outro lado a vitrina com a faixa verde. Suspirou e espertou na esquina que a rua ficasse vazia. Quando lhe entregou as notas de cem, tantas quanto precisava para a renda, o homem da loja da vitrina verde perguntou-lhe, olhando para as orelhas furadas vazias. Também não lhe fazem falta, pois não?


Bolachas de aveia




Ingredientes:

200g de manteiga sem sal
225g de farinha sem fermento
125 de açúcar mascavado
100g de flocos de aveia
1 colher de chá de baunilha
1 colher de café de sal fino

Bata a manteiga com o açúcar até obter um creme fofo e esbranquiçado. Junte os flocos de aveia, a farinha, o sal e a baunilha. Faça um rolo com a massa e envolva-o em película aderente e leve ao frigorífico durante pelo menos 1hora. Pré-aqueça o forno a 200ºc. Corte bolachas com cerca de 0,5 cm de espessura e leve ao forno até ficarem douradas.


segunda-feira, setembro 12

Chiquitita

A menina Natércia reconhecia todos os pacientes do doutor, ao telefone, pela voz, fazendo  questão de os tratar a todos pelo nome próprio e apelido.  A menina Natércia era uma funcionária de voz colocada e eficiente.  Tirava o som à televisão quando passavam os programas da tarde. Para quê ouvir tanta desgraça? Perguntava à magra assistência de reformados sentados em cadeiras encostadas à parede, enquanto emudecia as ligações em directo com mulheres vítimas de agressão e homens desempregados.  Ligava depois a pequena aparelhagem que tinha numa mesinha atrás do balcão onde punha a tocar os melhores êxitos dos Abba, os grandes ídolos da menina Natércia. Já lhe tinham dito, não se lembrava bem quem, que era muito parecida com a Agneta. Talvez fosse por isso que a menina Natércia ainda pintasse os olhos pequeninos e encavalitados no nariz, com sombra azul e a farta cabeleira de louro platinado. Punha o volume baixinho para não incomodar os velhotes de olhos postos na televisão muda, à espera de serem chamados.  A menina Natércia não fumava, não bebia, nem ia a discotecas. Não fosse o gosto que tinha por chocolates, poder-se-ia afirmar como  uma mulher sem vícios. Mas tinha de ter sempre perto de si um saquinho de chocolates ditos artesanais, comprados ao domingo no centro comercial, para ir comendo entre consultas e telefonemas, principalmente uns dias antes de lhe vir o período. De preferência de chocolate branco para não se notarem tanto as nódoas na impecável bata branca debruada a amarelo que vestia para trabalhar.Evitava também que tivessem qualquer espécie de álcool por causa do hálito. Mordiscava-os devagarinho enquanto olhava para a televisão muda, cheia de gente feia e emocionada. E depois de o engolir, suspirava e dizia aumentando  o volume dos Abba. Há vidas tão tristes e vazias que nem vale a pena serem ouvidas.




Trufas de chocolate branco e ginjinha:


200g de chocolate branco em barra
30 ml de natas frescas
2 colheres de sopa de ginjinha 
Chocolate preto para decorar

Derreta o chocolate em banho maria juntamente com as natas. Quando tiver um a mistura homogénea junte a ginjinha. Leve ao frigorífico umas horas e tenda bolinhas com a massa. Decore com chocolate preto derretido.


Adaptado de Barefoot Contessa ( Ina Garten)