domingo, outubro 23

Dias Felizes

Maria Eduarda sentia permanentemente que vivia uma vida que não era a sua. Arrendara um apartamento em Campo de Ourique porque não tivera dinheiro para comprar um às Janelas Verdes. Tinha um namorado da linha de Sintra porque achava que ainda não chegara o tempo de sair com os filhos dos sócios do pai. Vestia apenas preto e branco porque ainda não descobrira a cor perfeita para o seu rosto esquálido. Tinha dedos longos e um constante enfado pelo mundo.  Enfadava-a o lugar comum da suposta felicidade das pessoas. Talvez por isso gostasse tanto de apanhar, às sextas-feiras,  o comboio no Rossio para ir jantar a casa do namorado. Os rostos da carruagem, iguais a tantos outros rostos inexpressivos faziam-na sentir que a sua roupa preta e branca se diluía no monocromatismo da vida dos outros. Descia no Cacém. A família do namorado vivia numa antiga vivenda  verde comprimida entre prédios dos anos oitenta. Ela, que fazia sempre por chegar cedo demais, talvez porque o cheiro a mofo e a madeira velha a confortassem, sentava-se ao topo da mesa da cozinha, enquanto a irmã do namorado, rapariga de seios fartos e flácidos e cabelo oleoso, se entregava com o amor que nunca tivera, à confecção de papos de anjo. Esperava com a paciência própria dos felizes pelo ponto de açúcar, enchendo a cozinha de azulejos de flores castanhas, com cheiro a canela e laranja. Quando o irmão chegava do ensaio da companhia de teatro amador, perguntava-lhe sempre se ensaiavam Beckett. O irmão, vestido de preto dizia que não, sorrindo. E ela suspirava enquanto engolia um papo de anjo ainda morno. Pena, gosto muito daquela peça dos dias felizes.


Papos d' anjo




6 gemas + 2 ovos inteiros
300g de açucar
3 dl de água
1 pau de canela
raspa de uma laranja

Pré-aqueça o forno a 180º. Bata as gemas e os ovos inteiros, na batedeira durante 15 minutos, até obter uma massa bem espumosa e leve. Deite a massa em forminhas de queque, untadas com manteiga,  e leve ao forno num tabuleiro com água quente, durante 10 minutos.
Deite o açúcar, a água, o pau de canela e a raspa de laranja num tachinho e leve ao lume até fazer ponto de pérola. Coe a calda e reserve. Desenforme os papos de anjo, pique-os com um garfo e deite a calda por cima.

Sirva-os frios.

terça-feira, outubro 18

João Paulo



O homem de rosto cheio de cicatrizes de acne, senta-se na mesa do café no momento exacto em que a vizinha de cima chega à paragem do autocarro. A vizinha de cima não é particularmente bonita. Tem um rosto vulgar e usa os olhos excessivamente pintados numa imitação ordinária das actrizes italianas da década de sessenta. Diz ele. Porque decerto que a vizinha de cima nunca viu cinema italiano da década de sessenta. Ele abre o pacote de açúcar com as pontas dos dedos. Depois limpa os óculos de massa preta com a ponta do guardanapo de papel. Fá-lo lentamente por causa das dores nas articulações dos dedos. Ela ainda não o viu, ou finge que não o vê enquanto procura qualquer coisa na mala. E conclui que a vizinha de cima afinal tem um ar ordinário. Tão ordinário como a poesia que ela insiste em dar-lhe para ler. Leva uma vez por semana, um ou dois poemas manuscritos numa letra infantil, juntamente com um bolo de maçã, que ele tem de ensopar em brandy de qualidade para o conseguir comer. Poemas encharcados em rimas e exclamações. Ele odeia pontos de exclamação. Mais do que as rimas. Gosta sim, de metáforas únicas. Mas as mulheres que escrevem esse tipo de poesia, não têm um ar ordinário e enojam-se com o seu rosto cheio de cicatrizes de acne. E com a saliva que ele acumula nos cantos da boca quando se enerva. E ele enerva-se sempre que está com mulheres que não têm ar ordinário e que escrevem poesia sem rimas. Ela agora olha-o e sorri devagarinho. Ele também sorri. Com sorte ela hoje bate-lhe à porta com um bolo de maçã e dois ou três poemas. Os poemas, esses irá fingi-los esquecidos na mesa da entrada. Quanto à vizinha de cima e ao bolo, talvez bem ensopados em brandy se consigam comer.


Bolo de maçã com molho de brandy



125g de manteiga sem sal
150 g de açúcar amarelo
150 g de farinha sem fermento
3 ovos grandes
1 colher de chá de fermento
3 maçãs golden

Para o molho de brandy
50 g de manteiga
100 g de açúcar
60ml de natas
40 ml de brandy

Pré-aqueça o forno a 190º. Corte as maçãs em fatias finas e reserve.Bata a manteiga com o açúcar durante 10 minutos. Junte os ovos inteiros, um a um. Peneire a farinha e o fermento e envolva cuidadosamente. Deite numa forma de bolo inglês e por cima coloque as fatias de maçã. Leve ao forno até ficar dourado e espetando um palito este saia seco.

Molho de brandy

Leve ao lume a manteiga com o açúcar até obter um caramelo dourado. Retire do lume e junte as natas e metade do brandy. Leve de novo ao lume durante 1-2 minutos. Junte o brandy restante

Sirva o bolo em fatias, regadas com o molho.

sexta-feira, outubro 14

Instante

Há dias em que as pessoas que cruzam a rua não têm rosto. Surgem por detrás do fumo de tabaco dos cigarros que não fumo, em passo lento. O autocarro chega à paragem de sempre e elas descem. A rua, ao fundo, desenha-se vazia. Há uma rapariga de rosto tão transparente como os outros que pára na montra, olhando para o seu reflexo. O vestido de tecido ordinário revela o corpo atarracado. Os olhos grandes, sem maquilhagem ficam colados ao vidro da montra. Há um homem de fato excessivamente largo que passa por detrás. O pedinte senta-se no alpendre enquanto afaga o cão de pêlo curto e ralo. Há uma criança de mão dada a uma mulher de cabeça glabra coberta por um lenço. A criança ganha um rosto enquanto come as bolachas que se esboroam na calçada. A mulher de lenço baixa os olhos enquanto afasta com a biqueira do sapato as migalhas de chocolate. Isso faz-te mal aos dentes. A criança sacode as migalhas de chocolate do canto da boca. Do outro lado da rua o homem de fato largo atende o telemóvel enquanto os seus olhos se tornam pequenos e verdes. A rapariga do vestido ordinário ajeita o cabelo pintado de louro. Há dias em que as cores correm num tempo diferente das vidas. Há dias em que a estória é apenas o papel atrás dos meus olhos.



Bolachas de chocolate com morangos secos






100g de chocolate em barra
150g de manteiga
60g de cacau em pó
200g de açúcar
2 ovos
1 colher chá de baunilha
225g de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
1/2 colher de chá de sal fino
200g de morangos secos



Derreta o chocolate com a manteiga em banho maria e deixe arrefecer. Entretanto misture o cacau com o açúcar e adicione, batendo bem os ovos, um a um. Adicione de seguida a baunilha e a mistura de chocolate e manteiga. Depois junte  farinha, onde previamente misturou o fermento e o sal. Adicione os morangos finamente picados. Faça um rolo com a massa, embrulhe em película aderente e leve ao frigorífico durante pelo menos uma hora. Corte o rolo em fatias de cerca 0,5cm e leve ao forno previamente aquecido a 200º durante 10-15 minutos.

segunda-feira, outubro 10

Dos cheiros

Todas as sextas depois do ensaio, segue-lhe o rasto a lúcia-lima. Atravessa o auditório vazio, onde o cheiro repousa, leve, sobre o veludo vermelho das cadeiras, até ao átrio de mármore branco. Pára por um momento, respirando-o. Havia uma sebe de lúcia-lima junto ao portão. Da janela da sala, enquanto repetia os exercícios com os dedos doridos, via a mãe apanhando as folhas para o chá. O metrónomo marcava-lhe o tempo. A mãe punha a mão em pala para olhar o tempo que viria amanhã. O tempo no metrónomo. O cheiro da lúcia-lima atravessa a estrada de blocos de granito. Pára no átrio do teatro, vendo as pessoas sem rosto descendo a rua. E o cheiro cresce até à porta do café. A mãe deixava-lhe, em cima do piano, a chávena com a infusão ainda fumegante e uma fatia de bolo de chocolate. Ele estalava os dedos doridos e olhava o portão semi-aberto. A dona do café, sem perfume, deixa-lhe a chávena de chá na mesa de sempre. Há um vulto na porta da cozinha e ele pressente-lhe o cheiro. Pede uma fatia de bolo enquanto aquece as mãos na chávena quente. Cerra os olhos ao ouvir-lhe os passos. O cheiro debruça-se sobre ele. Respira-a enquanto o portão semi-aberto bate com o vento. Ela sussurra-lhe alguma coisa, mas ele não abre os olhos. Prefere amar-lhe o cheiro com o qual lhe desenha a linha do corpo e a cor dos olhos. O cheiro afasta-se. Ele saboreia um pedaço de bolo de chocolate enquanto lhe molda o sabor da pele na boca. O portão bate de novo enquanto a sebe de lúcia-lima se agita com o vento. O metrónomo retoma a toada do tempo e o vulto feito de cheiro desaparece na porta da cozinha.


Bolo de chocolate



Ingredientes:

6 ovos
75g de açúcar
75g de manteiga
80g de farinha
200 g de chocolate em barra

Para a cobertura
100 g de chocolate em barra
60ml de natas


Derreta em banho maria o chocolate com a manteiga. Bata as gemas com o açúcar  e junte à mistura de chocolate. Bata as claras em castelo e adicione juntamente com a farinha, à mistura anterior, envolvendo cuidadosamente. Leve  a forno pré aquecido a 180º durante cerca de 20 minutos

Derreta o chocolate com as natas e deite sobre o bolo de chocolate.

sexta-feira, outubro 7

Perséfone

A mulher de cabelo encaracolado liga o rádio. Para apagar da sua frente a fila interminável de carros. Para deixar de ouvir as vozes dos filhos no banco de trás. Para fingir que ouve as noticias que já conhece. Pousa o cotovelo na janela aberta carro. Uma voz do banco de trás. Mãe. Ignora . A fila de carros preto e cinzentos funde-se no ponto de fuga da estrada. Mãe. Há quem buzine. Ela aumenta o som do rádio. Há uma carrinha pintada de verde vidro com cortinados nas janelas, três carros à frente. Quase-sorri.  Pensava que já ninguém tinha carrinhas dessas. Senta-se no alpendre da casa dos avós. Há uma latada por cima do poço e duas cadeiras de baloiço onde os avós esperam o tempo. As vozes dos primos sobrepõem-se às buzinas. Há planos e vontade. Um verão à deriva. Mãe. O tom de voz monocórdico. Sim? O carro avança uns metros. E aquele cansaço. Havia uma romanzeira. Não comas as bagas dizia-lhe a prima que usara tranças até depois dos vinte. Que ficas presa metade da tua vida ao inverno. Todos nós preferimos o inverno onde somos iguais aos outros. Há risos que se fundem com o choro fininho do banco de trás. Buzinam de novo e ela lembra-se da roupa para passar, das contas, das notícias que a aborrecem. Mãe. A impaciência cresce. Buzina também. A carrinha verde avança. Os carros atrás não. Ficam parados no mesmo sitio. Mãe. Mas o que foi? A voz que choraminga. Não comas as romãs. O cheiro morno do Verão e o cabelo alisado à força pelo ferro de engomar. E o cesto da roupa. As contas. Buzina, e pragueja. Mãe. Perdeu a carrinha verde de vista. Não comas as bagas.


Panna cotta com molho de romã



Ingredientes ( para 4)
200ml natas
250ml de leite
4 folhas de gelatina
75g de açúcar
1 vagem de baunilha

Molho de romã
2 romãs maduras
½ chávena de açúcar
½  chávena de água
½ colher de chá de raspa de lima

Hidrate as folhas de gelatina em água fria. Leve as natas com o leite, o açúcar e as sementes de baunilha (abra a vagem longitudinalmente e raspe as sementes com a ponta de uma faca) ao lume até levantar fervura. Retire do lume e deixe por 20 minutos em infusão. Adicione as folhas de gelatina e deite em ramequins. Leve ao frigorífico até solidificarem.
Leve o açúcar, a água e a raspa de lima ao lume até fazer ponto de pérola. Deixe arrefecer compactamente e junte o sumo das duas romãs. Leve a lume muito brando até ficar com consistência de um xarope leve. Sirva por cima dos panna cotta desenformados.

segunda-feira, outubro 3

O senhor Gregório

Todas as quintas, o senhor Gregório jantava lá em casa. Cecília, sabia que era dia de torta de laranja, a preferida do pai. Mas a mãe, às quintas, derretia metade de uma barra de sucedâneo de chocolate, que sabia a alfarroba, para dentro da molheira lascada na borda. O que fazia as delícias do senhor Gregório, que sorria deleitado para a mãe, enquanto o Gregoriozinho, seu afilhado lhe ensopava a fatia de torta com o suposto molho de chocolate. O senhor Gregório pegava na colher deixando os botões de punho de ouro espreitarem por debaixo das mangas do casaco que nunca tirava. Um belo par de botões comprados com o lucro da funerária. O pai deixara-lhe uma drogaria, mas o envelhecimento da vila e a sagacidade para o negócio tinham-no levado a mudar de ramo. O senhor Gregório era um homem sério, de sorriso discreto e olhos de um azul aguado sobrenatural. O seu carácter era tão irrepreensível quanto os fatos de risca de giz que vestia todos os dias. Mesmo às quintas-feiras à noite. Quando a campainha tocava, o pai que estava sempre sentado no sofá do canto fingindo que procurava emprego no jornal, erguia os olhos e dizia com a mesma indolência com que se movia por entre as divisões da casa. Júlia, vai ver quem é. Júlia, a mãe, sabia quem era. E por isso tirava rapidamente o avental e ajeitava o cabelo curto no espelho da entrada. Chama o Gregoriozinho porque o padrinho chegou, ordenava com ar ansioso. Cecília chamava então o irmão, que descia ruidosamente as escadas rebolando os olhos azuis aguados. E  perguntava-se mais uma vez, enquanto o senhor Gregório sorvia a torta em silêncio, porque razão o irmão teria uns olhos iguais aos do padrinho.



Duo de laranja e chocolate



Para a base de laranja:
6 ovos
200g de açúcar
200ml sumo laranja
raspa de duas laranjas
1 colher de sopa de maisena

Misture os ovos com o açucar, junte a raspa  de laranja e a maisena diluída no sumo de laranja. Deite numa forma de aro, redonda, untada com manteiga e forrada com papel vegetal. Leve a forno pré-aquecido a 160º, durante 35 minutos. Deixe arrefecer completamente sem desenformar.


Para o creme de chocolate
200g de chocolate ( 70% cacau ou mais)
100g manteiga
100g açúcar
4 ovos
5 folhas de gelatina

Derreta o chocolate com a manteiga em banho Maria. Junte a esta mistura as folhas de gelatina previamente demolhadas em água fria e mexa até dissolver totalmente. Bata as gemas com o açúcar até obter um creme bem espumoso e junte ao preparado anterior. Bata as claras em castelo bem firme e envolva-as cuidadosamente no creme de ovos e chocolate. 
Deite o creme por cima da base de laranja e leve ao frigorífico durante umas seis horas. Desenforme cuidadosamente, retirando o aro da forma.





sexta-feira, setembro 30

Just breathe



Baixas os olhos sempre que te cruzas com o sem abrigo que dorme ao lado da porta do teu prédio. Finges que olhas os teus sapatos que imitam os de marca que não tens dinheiro para comprar. Mas não olhas, apesar de saberes que antes de atravessares a rua ele te vai dizer bom dia. Bom dia, menina. Parece velho porque a vida dele se escoa debaixo daquele telheiro ao dobro da velocidade da tua. Pensas que lhe podes dar a caixa de madeira com pêras que os primos, que desejarias afastados, te trouxeram da terra. E imaginas-te, enquanto olhas para a biqueira de fancaria dos teus sapatos, nesse gesto de generosidade tão artificial quanto a imagem que vestes ao espelho todos os dias. Bom dia, diz-te ele ao fim dos dois minutos de semáforo. O verde para os peões não cai e ele fica ali, dobrando as caixas de cartão. Tens uma amiga que distribui cafés e mantas pelo Natal a pessoas como ele.  Lembras-te de novo da caixa de peras. O dono do café da frente faz-lhe um sinal. Costuma dar-lhe o pequeno-almoço. O sinal verde cai e ele atravessa a rua atrás de ti. Colado à tua sombra. Que a esta hora da amanhã as sombras são mais longas e deformadas. Levantas o olhar para o ver entrar no café. Podias dar-lhe as pêras. Mas hoje tens um jantar com amigos que são apenas mais uma réplica daquilo que pensas ser. Talvez faças uns crepes, dizes para ti, antes de entrar para a estação de metro.

“And life’s like an  hourglass, glued to the table” *

* Anna Nalick





Crepes de pêra e vinho do porto





4 crepes bem finos 
4 pêras Williams ou Morettini
4 colheres de sopa de açúcar
2 colheres sopa de manteiga sem sal
50 ml de vinho do porto


Corte as peras em gomos finos e reserve (poderá adicionar umas gotas de limão para não escurecerem) Leve o açúcar e a manteiga ao lume numa frigideira até caramelizar ligeiramente. Retire do lume e junte o vinho do porto. Leve ao lume de novo até o caramelo ficar dourado escuro. Junte as peras e deixe cozinhar durante 1-2 minutos, consoante a espessura dos gomos. Recheie os crepes com este molho e dobre-os em leque.






quarta-feira, setembro 28

Natividade


Hoje está um belo dia para morrer, disse enquanto ajeitava cuidadosamente as pregas da saia. Ele sentado ao lado dela deu-lhe uma palmadinha na mão sorrindo. É capaz, é capaz. A mulher de quarenta anos repreende-a. Que conversa é essa, não diga isso, enquanto lhe deita o açúcar na chávena. Só uma colher. Do outro lado do muro passa lentamente uma camioneta carregada de uvas. Cheira a mosto, diz o homem velho. Digo, insiste a mulher velha enquanto tapa a chávena antes da segunda colher de açúcar. Hoje visitaram-me os meus filhos e já me telefonaram os netos. Todos menos o que está na Alemanha. Morria feliz. A mulher de quarenta anos parte-lhe uma fatia de bolo. A luz de Setembro dobra-se devagar na curva da estrada. O homem tira pacientemente as amêndoas da cobertura com a ponta do garfo. Não diga isso, que conversa, está um dia tão bonito. A mulher velha afasta delicadamente o prato do bolo, sorrindo. Estou em paz, por isso hoje seria um belo dia para morrer. O velho engole uma garfada de bolo. Cheira mesmo a mosto.





Bolo de licor de amêndoa amarga





Ingredientes:

200g de açúcar
150g de manteiga sem sal
5 ovos inteiros
125g de amêndoa moída
200 g de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
200g de alperces secos + 1 colher de sopa de farinha
60 ml de licor de amêndoa amarga
75g de amêndoa laminada

Para a cobertura
4 colheres de sopa de açúcar em pó
2 colheres de sopa de licor de amêndoa amarga

Toste ligeiramente as amêndoas laminadas numa frigideira e reserve. Bata o açúcar com a manteiga até ficar uma mistura bem cremosa e junte os ovos inteiros. Junte a amêndoa moída, o licor de amêndoa amarga e a canela e misture bem. Junte a farinha peneirada juntamente com o fermento e por fim os alperces previamente picados e envolvidos na colher de sopa de farinha. Envolva tudo cuidadosamente. Deite numa forma redonda, untada com manteiga e polvilhada com farinha e no fim polvilhe a massa com as amêndoas laminadas. Leva a forno previamente aquecido a 180º durante cerca de 40 minutos.
Faça a cobertura misturando o açúcar em pó com amêndoa amarga e verta por cima do bolo, depois de desenformado.

sexta-feira, setembro 23

Santo Amaro


Ficava sempre até ao fecho da biblioteca. Entrava devagar para que não ouvissem os seus passos sobre as velhas tábuas corridas. Sentava-se ao fundo, sempre na mesma mesa tentando diluir-se no cheiro a pó e na luz que entrava das janelas do primeiro andar. E lia, lia até que fosse o último a sair e serem horas de descer a rua até ao quarto que alugara perto da Rua da Junqueira. Não telefonas aos teus pais? Ele esquivava o olhar e respondia à senhoria, que andara na escola primária com mãe, não, hoje tenho de estudar.  Ela, atirando o pano da louça por cima do ombro, dizia. A tua mãe mandou-te mais estes pães-de-ló. Tenho de estudar, repetia, fugindo da náusea que o cheiro adocicado dos ovos lhe causava. Ficava sempre até ao fecho da biblioteca, na esperança de não voltar. Aos pomares de maceiras raquíticas do pai. Ao cheiro dos pães de ló cozidos de madrugada para vender aos turistas de São Martinho. Aos sábados, quando a biblioteca fechava mais cedo, esperava os fins de tarde no miradouro, com a capela por trás de si, apertando os livros contra o peito. E ficava ali de olhos escorrendo pela ponte que fugia para sul, onde começavam as terras das laranjas. Não ligas aos teus pais? Não. Talvez amanhã. Hoje tenho de estudar.



Pães de ló cremosos  





Ingredientes ( para aproximadamente 12)

10 gemas + 2 ovos inteiros
12 colheres de sopa de açúcar
5 colheres de sopa de farinha
1 colher de chá de fermento em pó


Pré aqueça o forno a 225º. Bata as gemas e os ovos inteiros com açúcar durante 10 minutos até obter um creme muito leve e espumoso. Junte a farinha peneirada e misturada com o fermento e envolva cuidadosamente.
Unte com manteiga e forre 12 ramequins, com papel vegetal. Deite o preparado em cada um dos ramequins e leve ao forno durante 4 minutos ( ou mal a parte de cima dos bolos fique dourada). Deixe arrefecer se desenforme-os.



segunda-feira, setembro 19

Bica cheia

O café onde parávamos ainda lá está, com as mesmas cadeiras verdes sobre a calçada preta e branca. Lembro-me que foste tu quem me explicou que havia calcário preto, partido à mão por homens da serra. Há dias em que ainda lá vou e ensaio cartas como esta. Cartas que não envio, porque já ninguém o faz. Sento-me e tiro o moleskine que fica sempre em branco, porque fica sempre tudo escrito no pensamento. Estás a escrever, dizias-me enquanto pedias o chocolatinho para acompanhar o café. E eu, de olhos perdidos em pequenos nadas, como os sapatos brilhantes do varredor de ruas ou os brincos da vendedora de flores, ria-me. O café onde parávamos ainda lá está. Encontrei a Mariana na caixa do supermercado. Perguntou-me se eu ia ao congresso na antiga FIL, que acho que se chama agora outra coisa. Comprámos lá uma tenda a meias, lembras-te? Para levar para um sudoeste que ainda era só Alentejo e sem festivais. Eu disse-lhe que não. Que me tinha desligado da área, que já não ia a congressos nem seminários. Perguntou por ti. Disse que tinhas ido para fora. Para tentares conquistar o mundo que pensávamos ter a nossos pés, tão perto como as luzes que víamos da roda gigante de Entrecampos. Que, tal  como o nosso futuro,que nos parecia tão óbvio e fácil, já não lá está.  Mas o café onde parávamos, esse ainda aqui está e hoje depois de pedir a minha bica cheia, abri o moleskine e escrevi estas linhas. Talvez te envie isto por email. Ou por uma mensagem no facebook, onde ponho likes nas tuas fotos tiradas do outro lado do oceano. Ou talvez me esqueça delas aqui, no café que também ficou parado deste lado.



Mousse de café e chocolate


Ingredientes
100g de chocolate negro (70% cacau)
4 ovos
150g de açúcar
1 colher de sopa de café instantâneo
1 colher de sopa de manteiga
1 colher de sopa de licor de café


Derreta o chocolate com a manteiga em banho Maria. Bata as gemas com o açúcar e o café até obter um creme leve e fofo. Junte o chocolate derretido ao preparado e leve de novo a banho Maria até dissolver os grânulos de café e obter um creme brilhante. Bata as claras em castelo  e envolva-as cuidadosamente no creme de chocolate e café (arrefecido)e junte o licor de café. Leve ao frio por umas horas e sirva com chantilly.