sexta-feira, novembro 11

18


Espera o eléctrico sentado no banco da paragem. Nos joelhos a caixa de cartolina branca, com nódoas da manteiga, das bolachas que compra todas a sextas -feiras na pastelaria do Calvário. Pousa as mãos magras manchadas pelos oitenta anos em cima da pequena caixa e espera. Está quase, vai dizendo a quem chega, sorrindo com a dentadura nova que a filha lhe pagou. Há dias em que vêm dois de seguida, mas é um instante. Os olhos dos outros, dobram-se na impaciência de quem não sabe que um instante passa numa vida inteira. E ele sorri com os seus dentes feitos num consultório de Benfica. As portas do eléctrico abrem-se, ele pica o bilhete e faz um gesto com a mão livre ao condutor. Senta-se com o equilíbrio de quem conhece todos os solavancos da subida para a Ajuda. Em pé ficam os estudantes, muitos cheios de malas com roupa suja, prontos para chegar à terra à sexta à noite. Ele cerra as pálpebras engelhadas e sente a aspereza do granito e o uivar dos lobos cortando o frio da serra e as frieiras das mãos. O eléctrico faz a curva num solavanco e percorre lento o muro da Tapada. Há alguém que toca à campainha. Na entrada da casa dos pais havia um sino velho. O frio húmido das manhãs entranhado nas camisolas de lã áspera. Ajeita-se no lugar para deixar sentar outra velha, talvez menos velha que ele. Outro solavanco. Os estudantes saem com as suas malas de roupa suja. A dele, a que trouxe no comboio até à cidade, tinha roupa lavada e os uivos dos lobos. Levanta-se lentamente apertando contra si a caixa das bolachas. A mulher desvia os joelhos apertados pelas meias de descanso para o deixar passar e fica de olhos postos na caixa. Ele sorri de novo. Foi o açúcar que me deu cabo dos dentes. O eléctrico pára de novo. Saio aqui. Foi um instante.




Bolachas de manteiga e tangerina

( aproximadamente 36 bolachas)


400g de farinha sem fermento
300g de manteiga
200 g de açúcar
Raspa de 3 tangerinas
1 colher de sopa de sumo de tangerina
1 colher de café de sal fino


Bata a manteiga amolecida com o açúcar. Junte o sal, o sumo e raspa das tangerinas. Junte a farinha e amasse. Faça uma bola com a massa e leve ao frigorífico durante cerca de uma hora. Pré-aqueça o forno a 180º. Estenda a massa numa superfície enfarinhada e use um cortador de massa para cortar as bolachas. Leve-as ao forno, em tabuleiros forrados a papel vegetal durante cerca de 20 minutos. Polvilhe-as com açúcar granulado ainda quentes.



segunda-feira, novembro 7

Port de bras

Ao cimo das escadas em caracol havia uma sala, submersa na luz trémula e amarela que era coada pelos vidros martelados da janela. Nessa sala habitavam duas mulheres. Uma cujos os olhos só se iluminavam quando dançava, de braços tão esguios que apanhavam a música que escorria para os cantos da sala. Outra de cabelos ruivos e crespos e rosto quase invisível, porque dela só me lembro das mãos e dos sapatos velhos de atacadores sobre os pedais. A um gesto surdo da mulher dos braços esguios ela deixava cair os dedos sobre o piano e a luz deixava de ser trémula e ganhava a liquidez dos acordes. Ao cimo das escadas em caracol havia uma sala e duas mulheres. E muitos corpos, mornos, ainda sem formas, vestidos com maillots azuis. Corpos alinhados, ao longo de uma barra de madeira, tentando com os dedos ainda curtos da infância apanhar a música que lhes escorria pelos gestos. E havia a voz da mulher de braços esguios, que voava. Naquele tempo, parecia-me que ela podia voar, que voar é tudo o que fazemos para além de nós. Cerrava os olhos e imaginava que os meus braços, as minhas pernas, os meus medos perdiam o peso que os prendiam ao soalho empoeirado, e as dores dos músculos que se queriam ainda pequenos tornavam-se círculos e semicírculos cujos nomes a mulher de braços esguios soprava numa língua doce com sabor de poesia. Ao cimo das escadas em caracol havia uma sala, e havia eu, de braços curtos que só cresceram depois das palavras, das minhas palavras, que se dobraram no espaço para que eu pudesse dançar.



Tanto a historia de Ler, como a de Comer de hoje foram contadas na abertura da escola de Dança e Artes de Óbidos. Uma quase memória oferecida à equipa que tornou possível esta escola. Bem hajam!





Pavlova com lemon curd e frutos do bosque



10 claras à temperatura ambiente
350 gramas de açúcar granulado fino
1 colher de sopa de maizena
1 colher de sobremesa de vinagre de vinho branco
2 colheres de chá de baunilha
400g de mistura de frutos do bosque frescos ( framboesas, mirtilos e groselha)
200ml de natas + 1 colher de sopa de açúcar em pó
1 chávena de lemon curd


Bata as claras em castelo e depois adicione em chuva o açúcar. Bata até obter uma massa consistente, e adicione o vinagre, a baunilha e a maizena. Bata mais um pouco. Desenhe dois círculos em dois tabuleiros forrados a papel vegetal e divida a massa pelos dois círculos. Leve a forno pré-aquecido a 120º durante cerca de 1h.30m.
Bata as natas em chantilly juntamente com a colher de sopa de açúcar e reserve
Retire os merengues e deixe arrefecer completamente. Coloque um dos merengues num prato de servir e cubra com o lemon curd. Coloque o segundo merengue por cima e cubra com o chantilly e decore com os frutos vermelhos

* Receita da Pavlova, adaptada de Nigella Lawson





quinta-feira, novembro 3

1983

As mulheres, a minha mãe e a irmã, ficavam na cozinha debruçadas sobre as páginas brilhantes da revista de costura. Lá fora o Outono de Novembro descia sobre as hortas. O Outono da revista era feito de crianças louras que levavam cones gigantescos nas mãos. O outro, o meu, estendia-se até às encostas cobertas de árvores que nesse tempo me pareciam todas iguais, onde as crianças eram morenas e vestiam camisolas de losangos com borboto e cotoveleiras de bombazina. A minha tia afastava as tigelas de marmelada para o parapeito cheio de frascos de erva-cidreira e cactos raquíticos, para poder estender as folhas pardas de múltiplas linhas em cima da mesa da cozinha. A luz oblíqua descia sobre os cães deitados na gravilha do caminho. Do sótão descia o cheiro forte das maçãs reinetas guardadas para o Inverno. Vens? Perguntavam os meus primos. Corríamos pela estrada de gravilha murada por silvas. Na curva, à entrada da vinha estava sempre um homem sem uma perna, apoiado por uma bengala de cana retorcida. Com as unhas escuras abria pevides e atirava para o lado as cascas. Perdeu-a na guerra. Sussurrava-me sempre um dos meus primos. Pisou uma mina. Os olhos apagados e magros do homem baixavam-se à nossa passagem, enquanto tossia e comia pevides. Quantos pretos matou por lá, tio Álvaro? Os olhos avermelhavam-se enquanto a espuma lhe cobria os cantos da boca. Estupores, gritava enquanto fugíamos pelo caminho de gravilha, estupores. Lá em baixo os cães ladravam aos gritos do homem e o fumo da chaminé lembrava-nos que o meu tio acendera as brasas para o serão.





Tarte de maçã com marmelada e vinho do Porto





Para a massa:

350g de farinha sem fermento
150g manteiga sem sal, fria
2 colheres de sopa de açucar
80-100ml de água fria
1 ovo inteiro
1 colher de chá de sal fino

Misture a farinha, o açúcar e o sal. Junte a manteiga em cubos e com as pontas dos dedos esfarele até obter uma textura granulosa. Junte 80 ml de água fria e ovo inteiro e amasse um pouco até obter uma massa homogénea. Se necessário, junte os restantes 20 ml de água. Leve ao frigorífico durante 30 minutos para repousar.


Para o Recheio

1 kg de maçãs reinetas descascadas e descaroçadas
200g de marmelada
60ml de vinho do porto
4 colheres de sopa de farinha sem fermento
2 colheres de sopa de açúcar
raspa de 1 limão
1 colher de chá de canela
1 gema de ovo + 1 colher de sopa de água para pincelar

Pré-aqueça o forno a 180º. Bata a marmelada com o vinho do porto até obter um creme liquefeito. Reserve.  Misture a farinha, com o açúcar, a canela e a raspa de limão. Reserve. Unte uma forma de aro com manteiga. Estenda 2/3 da massa e forre a forma, tendo o cuidado de deixar massa para além do limite da forma para depois enrolar. Corte as maçãs em fatias bem finas.  Disponha no fundo uma camada de maçã, depois uma de marmelada e termine polvilhando com a mistura de farinha. Repita o processo até esgotar os ingredientes. Estenda a restante massa e cubra a tarte. Pincele com a mistura de ovo e água e faça alguns golpes no topo.
Leve ao forno  até a massa estar dourada. Pode ser servida morna ou fria.

domingo, outubro 30

Anunciação

O seu maior sonho era ter uma casa por cima de uma loja de antiguidades. Daquelas que têm uma janela debruçada sobre um rio qualquer e nas quais passam estórias e conversas por entre tabaco  e livros de páginas amarelas nos cantos. E ficava a imaginá-la assim, sempre que a vestiam de virgem Maria, nos presépios vivos da terra, de olhos azuis quase verdes postos para além das tias fartas e de pernas inchadas que lhe acenavam com orgulho. És a cara da tua mãe, dizia-lhe a tia com ar desgostoso enquanto lhe fazia canudos com o frisador de pontas ferrugentas. És toda ao lado dela. Da mãe ficara-lhe apenas a vaga recordação do português arrastado pelo sotaque inglês e o sabor do lemon curd que punha nas torradas.  Sem fotografias nem uma morada para onde escrever, ficara apenas com a receita do creme de limão escrita em letra miúda e descuidada que fazia no velho fogão da casa das irmãs do pai sempre que as saudades voltavam.  Bastava-lhe isso. Isso e o sonho de ter uma casa por cima de uma loja de antiguidades.  E imaginava-lhe os cantos, ao mesmo tempo que as luzes de Natal da praça da vila se acendiam. Talvez à mesma hora que o dono da loja de antiguidades estaria a fechar as portas da loja e a pôr a mão em pala para ver o pôr do sol sobre a foz do rio.


Lemon Curd



125g de manteiga
Raspa e sumo de 3 limões ( aproximadamente 120 ml)
225g de açucar
3 gemas

Misture as gemas com o açúcar , o sumo de limão e a raspa (apenas a parte vidrada do limão)  numa tigela que possa ir ao lume em banho maria. Leve a banho maria e vá adicionando a manteiga em cubos pequenos. Mexa sempre até engrossar (este processo pderá levar cerca de 30 minutos)
Coe o creme e guarde num frasco no frigorífico ( conserva-se até duas semanas)

O lemon curd pode ser utilizado como compota ou recheio de bolos ou tartes.

quinta-feira, outubro 27

Da chuva e outros Tempos.



Os dias que chovem cá dentro serão sempre as folhas brancas avulsas compradas no quiosque do outro lado da rua. São dias de memórias aglutinadas com cheiros e vozes, onde nos sentamos de rosto colado ao vidro que nos separa do tempo e nos reconstruímos. Há uma pausa na cor que nos permite expiar nas letras aquilo que nunca foi.  As mãos esquecem-se na face de uma chávena de chocolate quente. Que o frio, esse, é apenas mais um ponto dum espaço-tempo dobrado num verso. 



Chocolate quente



 ( 2 pessoas)


2 colheres de sopa de cacau
500ml de leite
60g de chocolate de culinária
1 colher de chá de açúcar em pó
1 colher de chá de baunilha
1/2 colher de chá de café soluvel

Misture o cacau, o açucar,  o café  e o leite e leve ao lume. Quando estiver  tudo dissolvido adicione o chocolate de culinária partido em pedaços pequenos.  Deixe o chocolate derreter completamente e adicione a baunilha. Deixe ferver em lume brando durante 3 minutos. Sirva bem quente.

domingo, outubro 23

Dias Felizes

Maria Eduarda sentia permanentemente que vivia uma vida que não era a sua. Arrendara um apartamento em Campo de Ourique porque não tivera dinheiro para comprar um às Janelas Verdes. Tinha um namorado da linha de Sintra porque achava que ainda não chegara o tempo de sair com os filhos dos sócios do pai. Vestia apenas preto e branco porque ainda não descobrira a cor perfeita para o seu rosto esquálido. Tinha dedos longos e um constante enfado pelo mundo.  Enfadava-a o lugar comum da suposta felicidade das pessoas. Talvez por isso gostasse tanto de apanhar, às sextas-feiras,  o comboio no Rossio para ir jantar a casa do namorado. Os rostos da carruagem, iguais a tantos outros rostos inexpressivos faziam-na sentir que a sua roupa preta e branca se diluía no monocromatismo da vida dos outros. Descia no Cacém. A família do namorado vivia numa antiga vivenda  verde comprimida entre prédios dos anos oitenta. Ela, que fazia sempre por chegar cedo demais, talvez porque o cheiro a mofo e a madeira velha a confortassem, sentava-se ao topo da mesa da cozinha, enquanto a irmã do namorado, rapariga de seios fartos e flácidos e cabelo oleoso, se entregava com o amor que nunca tivera, à confecção de papos de anjo. Esperava com a paciência própria dos felizes pelo ponto de açúcar, enchendo a cozinha de azulejos de flores castanhas, com cheiro a canela e laranja. Quando o irmão chegava do ensaio da companhia de teatro amador, perguntava-lhe sempre se ensaiavam Beckett. O irmão, vestido de preto dizia que não, sorrindo. E ela suspirava enquanto engolia um papo de anjo ainda morno. Pena, gosto muito daquela peça dos dias felizes.


Papos d' anjo




6 gemas + 2 ovos inteiros
300g de açucar
3 dl de água
1 pau de canela
raspa de uma laranja

Pré-aqueça o forno a 180º. Bata as gemas e os ovos inteiros, na batedeira durante 15 minutos, até obter uma massa bem espumosa e leve. Deite a massa em forminhas de queque, untadas com manteiga,  e leve ao forno num tabuleiro com água quente, durante 10 minutos.
Deite o açúcar, a água, o pau de canela e a raspa de laranja num tachinho e leve ao lume até fazer ponto de pérola. Coe a calda e reserve. Desenforme os papos de anjo, pique-os com um garfo e deite a calda por cima.

Sirva-os frios.

terça-feira, outubro 18

João Paulo



O homem de rosto cheio de cicatrizes de acne, senta-se na mesa do café no momento exacto em que a vizinha de cima chega à paragem do autocarro. A vizinha de cima não é particularmente bonita. Tem um rosto vulgar e usa os olhos excessivamente pintados numa imitação ordinária das actrizes italianas da década de sessenta. Diz ele. Porque decerto que a vizinha de cima nunca viu cinema italiano da década de sessenta. Ele abre o pacote de açúcar com as pontas dos dedos. Depois limpa os óculos de massa preta com a ponta do guardanapo de papel. Fá-lo lentamente por causa das dores nas articulações dos dedos. Ela ainda não o viu, ou finge que não o vê enquanto procura qualquer coisa na mala. E conclui que a vizinha de cima afinal tem um ar ordinário. Tão ordinário como a poesia que ela insiste em dar-lhe para ler. Leva uma vez por semana, um ou dois poemas manuscritos numa letra infantil, juntamente com um bolo de maçã, que ele tem de ensopar em brandy de qualidade para o conseguir comer. Poemas encharcados em rimas e exclamações. Ele odeia pontos de exclamação. Mais do que as rimas. Gosta sim, de metáforas únicas. Mas as mulheres que escrevem esse tipo de poesia, não têm um ar ordinário e enojam-se com o seu rosto cheio de cicatrizes de acne. E com a saliva que ele acumula nos cantos da boca quando se enerva. E ele enerva-se sempre que está com mulheres que não têm ar ordinário e que escrevem poesia sem rimas. Ela agora olha-o e sorri devagarinho. Ele também sorri. Com sorte ela hoje bate-lhe à porta com um bolo de maçã e dois ou três poemas. Os poemas, esses irá fingi-los esquecidos na mesa da entrada. Quanto à vizinha de cima e ao bolo, talvez bem ensopados em brandy se consigam comer.


Bolo de maçã com molho de brandy



125g de manteiga sem sal
150 g de açúcar amarelo
150 g de farinha sem fermento
3 ovos grandes
1 colher de chá de fermento
3 maçãs golden

Para o molho de brandy
50 g de manteiga
100 g de açúcar
60ml de natas
40 ml de brandy

Pré-aqueça o forno a 190º. Corte as maçãs em fatias finas e reserve.Bata a manteiga com o açúcar durante 10 minutos. Junte os ovos inteiros, um a um. Peneire a farinha e o fermento e envolva cuidadosamente. Deite numa forma de bolo inglês e por cima coloque as fatias de maçã. Leve ao forno até ficar dourado e espetando um palito este saia seco.

Molho de brandy

Leve ao lume a manteiga com o açúcar até obter um caramelo dourado. Retire do lume e junte as natas e metade do brandy. Leve de novo ao lume durante 1-2 minutos. Junte o brandy restante

Sirva o bolo em fatias, regadas com o molho.

sexta-feira, outubro 14

Instante

Há dias em que as pessoas que cruzam a rua não têm rosto. Surgem por detrás do fumo de tabaco dos cigarros que não fumo, em passo lento. O autocarro chega à paragem de sempre e elas descem. A rua, ao fundo, desenha-se vazia. Há uma rapariga de rosto tão transparente como os outros que pára na montra, olhando para o seu reflexo. O vestido de tecido ordinário revela o corpo atarracado. Os olhos grandes, sem maquilhagem ficam colados ao vidro da montra. Há um homem de fato excessivamente largo que passa por detrás. O pedinte senta-se no alpendre enquanto afaga o cão de pêlo curto e ralo. Há uma criança de mão dada a uma mulher de cabeça glabra coberta por um lenço. A criança ganha um rosto enquanto come as bolachas que se esboroam na calçada. A mulher de lenço baixa os olhos enquanto afasta com a biqueira do sapato as migalhas de chocolate. Isso faz-te mal aos dentes. A criança sacode as migalhas de chocolate do canto da boca. Do outro lado da rua o homem de fato largo atende o telemóvel enquanto os seus olhos se tornam pequenos e verdes. A rapariga do vestido ordinário ajeita o cabelo pintado de louro. Há dias em que as cores correm num tempo diferente das vidas. Há dias em que a estória é apenas o papel atrás dos meus olhos.



Bolachas de chocolate com morangos secos






100g de chocolate em barra
150g de manteiga
60g de cacau em pó
200g de açúcar
2 ovos
1 colher chá de baunilha
225g de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
1/2 colher de chá de sal fino
200g de morangos secos



Derreta o chocolate com a manteiga em banho maria e deixe arrefecer. Entretanto misture o cacau com o açúcar e adicione, batendo bem os ovos, um a um. Adicione de seguida a baunilha e a mistura de chocolate e manteiga. Depois junte  farinha, onde previamente misturou o fermento e o sal. Adicione os morangos finamente picados. Faça um rolo com a massa, embrulhe em película aderente e leve ao frigorífico durante pelo menos uma hora. Corte o rolo em fatias de cerca 0,5cm e leve ao forno previamente aquecido a 200º durante 10-15 minutos.

segunda-feira, outubro 10

Dos cheiros

Todas as sextas depois do ensaio, segue-lhe o rasto a lúcia-lima. Atravessa o auditório vazio, onde o cheiro repousa, leve, sobre o veludo vermelho das cadeiras, até ao átrio de mármore branco. Pára por um momento, respirando-o. Havia uma sebe de lúcia-lima junto ao portão. Da janela da sala, enquanto repetia os exercícios com os dedos doridos, via a mãe apanhando as folhas para o chá. O metrónomo marcava-lhe o tempo. A mãe punha a mão em pala para olhar o tempo que viria amanhã. O tempo no metrónomo. O cheiro da lúcia-lima atravessa a estrada de blocos de granito. Pára no átrio do teatro, vendo as pessoas sem rosto descendo a rua. E o cheiro cresce até à porta do café. A mãe deixava-lhe, em cima do piano, a chávena com a infusão ainda fumegante e uma fatia de bolo de chocolate. Ele estalava os dedos doridos e olhava o portão semi-aberto. A dona do café, sem perfume, deixa-lhe a chávena de chá na mesa de sempre. Há um vulto na porta da cozinha e ele pressente-lhe o cheiro. Pede uma fatia de bolo enquanto aquece as mãos na chávena quente. Cerra os olhos ao ouvir-lhe os passos. O cheiro debruça-se sobre ele. Respira-a enquanto o portão semi-aberto bate com o vento. Ela sussurra-lhe alguma coisa, mas ele não abre os olhos. Prefere amar-lhe o cheiro com o qual lhe desenha a linha do corpo e a cor dos olhos. O cheiro afasta-se. Ele saboreia um pedaço de bolo de chocolate enquanto lhe molda o sabor da pele na boca. O portão bate de novo enquanto a sebe de lúcia-lima se agita com o vento. O metrónomo retoma a toada do tempo e o vulto feito de cheiro desaparece na porta da cozinha.


Bolo de chocolate



Ingredientes:

6 ovos
75g de açúcar
75g de manteiga
80g de farinha
200 g de chocolate em barra

Para a cobertura
100 g de chocolate em barra
60ml de natas


Derreta em banho maria o chocolate com a manteiga. Bata as gemas com o açúcar  e junte à mistura de chocolate. Bata as claras em castelo e adicione juntamente com a farinha, à mistura anterior, envolvendo cuidadosamente. Leve  a forno pré aquecido a 180º durante cerca de 20 minutos

Derreta o chocolate com as natas e deite sobre o bolo de chocolate.

sexta-feira, outubro 7

Perséfone

A mulher de cabelo encaracolado liga o rádio. Para apagar da sua frente a fila interminável de carros. Para deixar de ouvir as vozes dos filhos no banco de trás. Para fingir que ouve as noticias que já conhece. Pousa o cotovelo na janela aberta carro. Uma voz do banco de trás. Mãe. Ignora . A fila de carros preto e cinzentos funde-se no ponto de fuga da estrada. Mãe. Há quem buzine. Ela aumenta o som do rádio. Há uma carrinha pintada de verde vidro com cortinados nas janelas, três carros à frente. Quase-sorri.  Pensava que já ninguém tinha carrinhas dessas. Senta-se no alpendre da casa dos avós. Há uma latada por cima do poço e duas cadeiras de baloiço onde os avós esperam o tempo. As vozes dos primos sobrepõem-se às buzinas. Há planos e vontade. Um verão à deriva. Mãe. O tom de voz monocórdico. Sim? O carro avança uns metros. E aquele cansaço. Havia uma romanzeira. Não comas as bagas dizia-lhe a prima que usara tranças até depois dos vinte. Que ficas presa metade da tua vida ao inverno. Todos nós preferimos o inverno onde somos iguais aos outros. Há risos que se fundem com o choro fininho do banco de trás. Buzinam de novo e ela lembra-se da roupa para passar, das contas, das notícias que a aborrecem. Mãe. A impaciência cresce. Buzina também. A carrinha verde avança. Os carros atrás não. Ficam parados no mesmo sitio. Mãe. Mas o que foi? A voz que choraminga. Não comas as romãs. O cheiro morno do Verão e o cabelo alisado à força pelo ferro de engomar. E o cesto da roupa. As contas. Buzina, e pragueja. Mãe. Perdeu a carrinha verde de vista. Não comas as bagas.


Panna cotta com molho de romã



Ingredientes ( para 4)
200ml natas
250ml de leite
4 folhas de gelatina
75g de açúcar
1 vagem de baunilha

Molho de romã
2 romãs maduras
½ chávena de açúcar
½  chávena de água
½ colher de chá de raspa de lima

Hidrate as folhas de gelatina em água fria. Leve as natas com o leite, o açúcar e as sementes de baunilha (abra a vagem longitudinalmente e raspe as sementes com a ponta de uma faca) ao lume até levantar fervura. Retire do lume e deixe por 20 minutos em infusão. Adicione as folhas de gelatina e deite em ramequins. Leve ao frigorífico até solidificarem.
Leve o açúcar, a água e a raspa de lima ao lume até fazer ponto de pérola. Deixe arrefecer compactamente e junte o sumo das duas romãs. Leve a lume muito brando até ficar com consistência de um xarope leve. Sirva por cima dos panna cotta desenformados.