quinta-feira, novembro 24

Cantigas do Maio

Usavam ambas risco ao meio e o cabelo escorrido pelas costas. À noite vinham fumar à varanda. Falavam baixinho com vozes delicadas e cheiravam a incenso. Eu espreitava-lhes os vultos da minha janela. As conversas delas escorriam pelo tempo do parapeito, enroladas no fumo do tabaco e na música baladeira que saía de dentro do apartamento decerto tão diferente do dos meus pais. Também vinham à varanda nas manhãs de Domingo, e enquanto eu esticava as meias de croché pelo joelho, as meias de ir à missa, elas comiam panquecas saídas dos filmes americanos e bebiam café por canecas. Eu mirava-lhes as saias compridas pelos tornozelos e as alpercatas chinesas bordadas no peito do pé. E as baladas cantadas pelo homem de voz triste. As mesmas que o meu pai desligava com a indiferença politica, quando tocavam no rádio. Tens lume? Perguntou-me um dia uma delas, anos depois do tempo da varanda. A voz dela ainda pingava por entre as baladas do homem de voz triste. Tens lume? Baixei os olhos e senti uma das meias de croché a resvalar pela perna. Não. Não fumo. Nunca fumei.


Paquecas com molho de framboesa

Para as panquecas

1  e ¼  chávena de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
1 ovo
1 chávena de leite
1 saqueta de açúcar baunilhado ( aproximadamente 10g)
30g de manteiga derretida sem sal

Misture a farinha, o fermento e o açúcar. Bata o ovo com o leite e misture com a farinha e o açúcar. Junte a manteiga derretida. Aqueça uma frigideira anti-aderente  e deite colheradas de massa. Deixe cozinhar  em lume  brando até que faça bolhas à superfície. Volte e deixe cozinhar 1-2 minutos.


Para o o molho

300g de framboesas congeladas
1/3 chávena de açúcar
1 colher de chá de raspa de limão

Leve as framboesas ao lume com o açúcar e o a raspa de limão. Deixe ferver durante 6 minutos (verifique se as framboesas se desfizeram todas). Coe o molho por um passador de rede para tirar as sementes. Sirva com as panquecas.

domingo, novembro 20

Verdes anos

O irmão visitava-os ao Domingo, que podia ser o primeiro ou último de cada mês. Ela fazia bolo de chocolate e tirava as estatuetas de pau preto e marfim que tinha na estante da sala. Escondia-as no velho saco da TAP que voltara de lá, forrado com as economias. Com a mesma delicadeza com que cortava as fatias do bolo, pedia ao marido que não falassem de politica. Deixei lá a minha vida, respondia-lhe ele com a voz embaciada. Eu perdi lá o meu outro irmão, retorquía ela. Servia o chá na sala e ouviam Carlos Paredes no silêncio incómodo do ressentimento. Quando ela lhe estendia o prato do serviço chinês com uma fatia de bolo, o irmão sorria e chamava-lhe burguesa. Ela debruçava-se e dizia-lhe baixinho, as memórias também se curam.


Brownies marmoreados


200g de chocolate branco
200g de chocolate preto
125 g manteiga sem sal
200g de açúcar
5 ovos
30g de cacau em pó
1 colher de chá de essência de baunilha
140g de farinha sem fermento
pitada de sal fino

Aqueça o forno a 170º. Unte uma forma quadrada com manteiga e forre-a com papel vegetal. Derreta o chocolate com manteiga em banho maria. Bata os ovos com o açúcar e junte o cacau. Misture bem e junte o chocolate derretido com a manteiga. Adicione a baunilha e o sal e depois a farinha envolvendo-a cuidadosamente. Deite a massa na forma quadrada e alise-a.Derreta o chocolate branco em banho maria e deite-o sobre a massa de chocolate preto de modo a obter um aspecto marmoreado. Leve ao forno cerca de 25 minutos. Desenforme e corte em quadrados depois de frio.

terça-feira, novembro 15

Dos outros

As duas mulheres da mesa ao lado falam da vida dos outros. Falam com as certezas de quem não sabe nada. De quem não conhece a vida para além do que parece. Há uma terceira que atravessa as arcadas. Aproxima com um sorriso débil, quase a pedir desculpa. Tudo bem? As outras dizem que sim. Ela diz que não, arrastando a voz na tristeza dos dias. As outras esboçam um sorriso em troca do silêncio de quem não sabe o que dizer. Senta-te. Não, o autocarro está quase aí. Olham as três para o desconforto da rua vazia. Os olhos da mulher de pé escorrem dos cones de jornal que o homem das castanhas enrola, para o chumbo do céu que dissolve no rio. As outras tomam-lhe o peso dos dias no cabelo mal pintado e nas unhas roídas. Mexem as colheres nas chávenas, agitando o silêncio húmido dos olhos dela. Não, não está tudo bem. Mas as certezas dos outros são surdas. A mulher despede-se com o mesmo arrasto triste com que chegou. Atravessa a rua e pede uma dúzia de castanhas. Bem-haja, diz-lhe o homem. As mulheres sentadas retomam a conversa sobre a vida dos outros. Uma delas suspira. É a vida.




Castanhas caramelizadas








300g de castanhas congeladas
125 g de açúcar
40g de manteiga




Leve a manteiga e o açúcar ao lume até fazer um caramelo dourado. Junte as castanhas e deixe-as caramelizar durante 5 minutos. Deite-as numa rede e deixe-as arrefecer




Receita adaptada de Vaqueiro

sexta-feira, novembro 11

18


Espera o eléctrico sentado no banco da paragem. Nos joelhos a caixa de cartolina branca, com nódoas da manteiga, das bolachas que compra todas a sextas -feiras na pastelaria do Calvário. Pousa as mãos magras manchadas pelos oitenta anos em cima da pequena caixa e espera. Está quase, vai dizendo a quem chega, sorrindo com a dentadura nova que a filha lhe pagou. Há dias em que vêm dois de seguida, mas é um instante. Os olhos dos outros, dobram-se na impaciência de quem não sabe que um instante passa numa vida inteira. E ele sorri com os seus dentes feitos num consultório de Benfica. As portas do eléctrico abrem-se, ele pica o bilhete e faz um gesto com a mão livre ao condutor. Senta-se com o equilíbrio de quem conhece todos os solavancos da subida para a Ajuda. Em pé ficam os estudantes, muitos cheios de malas com roupa suja, prontos para chegar à terra à sexta à noite. Ele cerra as pálpebras engelhadas e sente a aspereza do granito e o uivar dos lobos cortando o frio da serra e as frieiras das mãos. O eléctrico faz a curva num solavanco e percorre lento o muro da Tapada. Há alguém que toca à campainha. Na entrada da casa dos pais havia um sino velho. O frio húmido das manhãs entranhado nas camisolas de lã áspera. Ajeita-se no lugar para deixar sentar outra velha, talvez menos velha que ele. Outro solavanco. Os estudantes saem com as suas malas de roupa suja. A dele, a que trouxe no comboio até à cidade, tinha roupa lavada e os uivos dos lobos. Levanta-se lentamente apertando contra si a caixa das bolachas. A mulher desvia os joelhos apertados pelas meias de descanso para o deixar passar e fica de olhos postos na caixa. Ele sorri de novo. Foi o açúcar que me deu cabo dos dentes. O eléctrico pára de novo. Saio aqui. Foi um instante.




Bolachas de manteiga e tangerina

( aproximadamente 36 bolachas)


400g de farinha sem fermento
300g de manteiga
200 g de açúcar
Raspa de 3 tangerinas
1 colher de sopa de sumo de tangerina
1 colher de café de sal fino


Bata a manteiga amolecida com o açúcar. Junte o sal, o sumo e raspa das tangerinas. Junte a farinha e amasse. Faça uma bola com a massa e leve ao frigorífico durante cerca de uma hora. Pré-aqueça o forno a 180º. Estenda a massa numa superfície enfarinhada e use um cortador de massa para cortar as bolachas. Leve-as ao forno, em tabuleiros forrados a papel vegetal durante cerca de 20 minutos. Polvilhe-as com açúcar granulado ainda quentes.



segunda-feira, novembro 7

Port de bras

Ao cimo das escadas em caracol havia uma sala, submersa na luz trémula e amarela que era coada pelos vidros martelados da janela. Nessa sala habitavam duas mulheres. Uma cujos os olhos só se iluminavam quando dançava, de braços tão esguios que apanhavam a música que escorria para os cantos da sala. Outra de cabelos ruivos e crespos e rosto quase invisível, porque dela só me lembro das mãos e dos sapatos velhos de atacadores sobre os pedais. A um gesto surdo da mulher dos braços esguios ela deixava cair os dedos sobre o piano e a luz deixava de ser trémula e ganhava a liquidez dos acordes. Ao cimo das escadas em caracol havia uma sala e duas mulheres. E muitos corpos, mornos, ainda sem formas, vestidos com maillots azuis. Corpos alinhados, ao longo de uma barra de madeira, tentando com os dedos ainda curtos da infância apanhar a música que lhes escorria pelos gestos. E havia a voz da mulher de braços esguios, que voava. Naquele tempo, parecia-me que ela podia voar, que voar é tudo o que fazemos para além de nós. Cerrava os olhos e imaginava que os meus braços, as minhas pernas, os meus medos perdiam o peso que os prendiam ao soalho empoeirado, e as dores dos músculos que se queriam ainda pequenos tornavam-se círculos e semicírculos cujos nomes a mulher de braços esguios soprava numa língua doce com sabor de poesia. Ao cimo das escadas em caracol havia uma sala, e havia eu, de braços curtos que só cresceram depois das palavras, das minhas palavras, que se dobraram no espaço para que eu pudesse dançar.



Tanto a historia de Ler, como a de Comer de hoje foram contadas na abertura da escola de Dança e Artes de Óbidos. Uma quase memória oferecida à equipa que tornou possível esta escola. Bem hajam!





Pavlova com lemon curd e frutos do bosque



10 claras à temperatura ambiente
350 gramas de açúcar granulado fino
1 colher de sopa de maizena
1 colher de sobremesa de vinagre de vinho branco
2 colheres de chá de baunilha
400g de mistura de frutos do bosque frescos ( framboesas, mirtilos e groselha)
200ml de natas + 1 colher de sopa de açúcar em pó
1 chávena de lemon curd


Bata as claras em castelo e depois adicione em chuva o açúcar. Bata até obter uma massa consistente, e adicione o vinagre, a baunilha e a maizena. Bata mais um pouco. Desenhe dois círculos em dois tabuleiros forrados a papel vegetal e divida a massa pelos dois círculos. Leve a forno pré-aquecido a 120º durante cerca de 1h.30m.
Bata as natas em chantilly juntamente com a colher de sopa de açúcar e reserve
Retire os merengues e deixe arrefecer completamente. Coloque um dos merengues num prato de servir e cubra com o lemon curd. Coloque o segundo merengue por cima e cubra com o chantilly e decore com os frutos vermelhos

* Receita da Pavlova, adaptada de Nigella Lawson





quinta-feira, novembro 3

1983

As mulheres, a minha mãe e a irmã, ficavam na cozinha debruçadas sobre as páginas brilhantes da revista de costura. Lá fora o Outono de Novembro descia sobre as hortas. O Outono da revista era feito de crianças louras que levavam cones gigantescos nas mãos. O outro, o meu, estendia-se até às encostas cobertas de árvores que nesse tempo me pareciam todas iguais, onde as crianças eram morenas e vestiam camisolas de losangos com borboto e cotoveleiras de bombazina. A minha tia afastava as tigelas de marmelada para o parapeito cheio de frascos de erva-cidreira e cactos raquíticos, para poder estender as folhas pardas de múltiplas linhas em cima da mesa da cozinha. A luz oblíqua descia sobre os cães deitados na gravilha do caminho. Do sótão descia o cheiro forte das maçãs reinetas guardadas para o Inverno. Vens? Perguntavam os meus primos. Corríamos pela estrada de gravilha murada por silvas. Na curva, à entrada da vinha estava sempre um homem sem uma perna, apoiado por uma bengala de cana retorcida. Com as unhas escuras abria pevides e atirava para o lado as cascas. Perdeu-a na guerra. Sussurrava-me sempre um dos meus primos. Pisou uma mina. Os olhos apagados e magros do homem baixavam-se à nossa passagem, enquanto tossia e comia pevides. Quantos pretos matou por lá, tio Álvaro? Os olhos avermelhavam-se enquanto a espuma lhe cobria os cantos da boca. Estupores, gritava enquanto fugíamos pelo caminho de gravilha, estupores. Lá em baixo os cães ladravam aos gritos do homem e o fumo da chaminé lembrava-nos que o meu tio acendera as brasas para o serão.





Tarte de maçã com marmelada e vinho do Porto





Para a massa:

350g de farinha sem fermento
150g manteiga sem sal, fria
2 colheres de sopa de açucar
80-100ml de água fria
1 ovo inteiro
1 colher de chá de sal fino

Misture a farinha, o açúcar e o sal. Junte a manteiga em cubos e com as pontas dos dedos esfarele até obter uma textura granulosa. Junte 80 ml de água fria e ovo inteiro e amasse um pouco até obter uma massa homogénea. Se necessário, junte os restantes 20 ml de água. Leve ao frigorífico durante 30 minutos para repousar.


Para o Recheio

1 kg de maçãs reinetas descascadas e descaroçadas
200g de marmelada
60ml de vinho do porto
4 colheres de sopa de farinha sem fermento
2 colheres de sopa de açúcar
raspa de 1 limão
1 colher de chá de canela
1 gema de ovo + 1 colher de sopa de água para pincelar

Pré-aqueça o forno a 180º. Bata a marmelada com o vinho do porto até obter um creme liquefeito. Reserve.  Misture a farinha, com o açúcar, a canela e a raspa de limão. Reserve. Unte uma forma de aro com manteiga. Estenda 2/3 da massa e forre a forma, tendo o cuidado de deixar massa para além do limite da forma para depois enrolar. Corte as maçãs em fatias bem finas.  Disponha no fundo uma camada de maçã, depois uma de marmelada e termine polvilhando com a mistura de farinha. Repita o processo até esgotar os ingredientes. Estenda a restante massa e cubra a tarte. Pincele com a mistura de ovo e água e faça alguns golpes no topo.
Leve ao forno  até a massa estar dourada. Pode ser servida morna ou fria.

domingo, outubro 30

Anunciação

O seu maior sonho era ter uma casa por cima de uma loja de antiguidades. Daquelas que têm uma janela debruçada sobre um rio qualquer e nas quais passam estórias e conversas por entre tabaco  e livros de páginas amarelas nos cantos. E ficava a imaginá-la assim, sempre que a vestiam de virgem Maria, nos presépios vivos da terra, de olhos azuis quase verdes postos para além das tias fartas e de pernas inchadas que lhe acenavam com orgulho. És a cara da tua mãe, dizia-lhe a tia com ar desgostoso enquanto lhe fazia canudos com o frisador de pontas ferrugentas. És toda ao lado dela. Da mãe ficara-lhe apenas a vaga recordação do português arrastado pelo sotaque inglês e o sabor do lemon curd que punha nas torradas.  Sem fotografias nem uma morada para onde escrever, ficara apenas com a receita do creme de limão escrita em letra miúda e descuidada que fazia no velho fogão da casa das irmãs do pai sempre que as saudades voltavam.  Bastava-lhe isso. Isso e o sonho de ter uma casa por cima de uma loja de antiguidades.  E imaginava-lhe os cantos, ao mesmo tempo que as luzes de Natal da praça da vila se acendiam. Talvez à mesma hora que o dono da loja de antiguidades estaria a fechar as portas da loja e a pôr a mão em pala para ver o pôr do sol sobre a foz do rio.


Lemon Curd



125g de manteiga
Raspa e sumo de 3 limões ( aproximadamente 120 ml)
225g de açucar
3 gemas

Misture as gemas com o açúcar , o sumo de limão e a raspa (apenas a parte vidrada do limão)  numa tigela que possa ir ao lume em banho maria. Leve a banho maria e vá adicionando a manteiga em cubos pequenos. Mexa sempre até engrossar (este processo pderá levar cerca de 30 minutos)
Coe o creme e guarde num frasco no frigorífico ( conserva-se até duas semanas)

O lemon curd pode ser utilizado como compota ou recheio de bolos ou tartes.

quinta-feira, outubro 27

Da chuva e outros Tempos.



Os dias que chovem cá dentro serão sempre as folhas brancas avulsas compradas no quiosque do outro lado da rua. São dias de memórias aglutinadas com cheiros e vozes, onde nos sentamos de rosto colado ao vidro que nos separa do tempo e nos reconstruímos. Há uma pausa na cor que nos permite expiar nas letras aquilo que nunca foi.  As mãos esquecem-se na face de uma chávena de chocolate quente. Que o frio, esse, é apenas mais um ponto dum espaço-tempo dobrado num verso. 



Chocolate quente



 ( 2 pessoas)


2 colheres de sopa de cacau
500ml de leite
60g de chocolate de culinária
1 colher de chá de açúcar em pó
1 colher de chá de baunilha
1/2 colher de chá de café soluvel

Misture o cacau, o açucar,  o café  e o leite e leve ao lume. Quando estiver  tudo dissolvido adicione o chocolate de culinária partido em pedaços pequenos.  Deixe o chocolate derreter completamente e adicione a baunilha. Deixe ferver em lume brando durante 3 minutos. Sirva bem quente.

domingo, outubro 23

Dias Felizes

Maria Eduarda sentia permanentemente que vivia uma vida que não era a sua. Arrendara um apartamento em Campo de Ourique porque não tivera dinheiro para comprar um às Janelas Verdes. Tinha um namorado da linha de Sintra porque achava que ainda não chegara o tempo de sair com os filhos dos sócios do pai. Vestia apenas preto e branco porque ainda não descobrira a cor perfeita para o seu rosto esquálido. Tinha dedos longos e um constante enfado pelo mundo.  Enfadava-a o lugar comum da suposta felicidade das pessoas. Talvez por isso gostasse tanto de apanhar, às sextas-feiras,  o comboio no Rossio para ir jantar a casa do namorado. Os rostos da carruagem, iguais a tantos outros rostos inexpressivos faziam-na sentir que a sua roupa preta e branca se diluía no monocromatismo da vida dos outros. Descia no Cacém. A família do namorado vivia numa antiga vivenda  verde comprimida entre prédios dos anos oitenta. Ela, que fazia sempre por chegar cedo demais, talvez porque o cheiro a mofo e a madeira velha a confortassem, sentava-se ao topo da mesa da cozinha, enquanto a irmã do namorado, rapariga de seios fartos e flácidos e cabelo oleoso, se entregava com o amor que nunca tivera, à confecção de papos de anjo. Esperava com a paciência própria dos felizes pelo ponto de açúcar, enchendo a cozinha de azulejos de flores castanhas, com cheiro a canela e laranja. Quando o irmão chegava do ensaio da companhia de teatro amador, perguntava-lhe sempre se ensaiavam Beckett. O irmão, vestido de preto dizia que não, sorrindo. E ela suspirava enquanto engolia um papo de anjo ainda morno. Pena, gosto muito daquela peça dos dias felizes.


Papos d' anjo




6 gemas + 2 ovos inteiros
300g de açucar
3 dl de água
1 pau de canela
raspa de uma laranja

Pré-aqueça o forno a 180º. Bata as gemas e os ovos inteiros, na batedeira durante 15 minutos, até obter uma massa bem espumosa e leve. Deite a massa em forminhas de queque, untadas com manteiga,  e leve ao forno num tabuleiro com água quente, durante 10 minutos.
Deite o açúcar, a água, o pau de canela e a raspa de laranja num tachinho e leve ao lume até fazer ponto de pérola. Coe a calda e reserve. Desenforme os papos de anjo, pique-os com um garfo e deite a calda por cima.

Sirva-os frios.

terça-feira, outubro 18

João Paulo



O homem de rosto cheio de cicatrizes de acne, senta-se na mesa do café no momento exacto em que a vizinha de cima chega à paragem do autocarro. A vizinha de cima não é particularmente bonita. Tem um rosto vulgar e usa os olhos excessivamente pintados numa imitação ordinária das actrizes italianas da década de sessenta. Diz ele. Porque decerto que a vizinha de cima nunca viu cinema italiano da década de sessenta. Ele abre o pacote de açúcar com as pontas dos dedos. Depois limpa os óculos de massa preta com a ponta do guardanapo de papel. Fá-lo lentamente por causa das dores nas articulações dos dedos. Ela ainda não o viu, ou finge que não o vê enquanto procura qualquer coisa na mala. E conclui que a vizinha de cima afinal tem um ar ordinário. Tão ordinário como a poesia que ela insiste em dar-lhe para ler. Leva uma vez por semana, um ou dois poemas manuscritos numa letra infantil, juntamente com um bolo de maçã, que ele tem de ensopar em brandy de qualidade para o conseguir comer. Poemas encharcados em rimas e exclamações. Ele odeia pontos de exclamação. Mais do que as rimas. Gosta sim, de metáforas únicas. Mas as mulheres que escrevem esse tipo de poesia, não têm um ar ordinário e enojam-se com o seu rosto cheio de cicatrizes de acne. E com a saliva que ele acumula nos cantos da boca quando se enerva. E ele enerva-se sempre que está com mulheres que não têm ar ordinário e que escrevem poesia sem rimas. Ela agora olha-o e sorri devagarinho. Ele também sorri. Com sorte ela hoje bate-lhe à porta com um bolo de maçã e dois ou três poemas. Os poemas, esses irá fingi-los esquecidos na mesa da entrada. Quanto à vizinha de cima e ao bolo, talvez bem ensopados em brandy se consigam comer.


Bolo de maçã com molho de brandy



125g de manteiga sem sal
150 g de açúcar amarelo
150 g de farinha sem fermento
3 ovos grandes
1 colher de chá de fermento
3 maçãs golden

Para o molho de brandy
50 g de manteiga
100 g de açúcar
60ml de natas
40 ml de brandy

Pré-aqueça o forno a 190º. Corte as maçãs em fatias finas e reserve.Bata a manteiga com o açúcar durante 10 minutos. Junte os ovos inteiros, um a um. Peneire a farinha e o fermento e envolva cuidadosamente. Deite numa forma de bolo inglês e por cima coloque as fatias de maçã. Leve ao forno até ficar dourado e espetando um palito este saia seco.

Molho de brandy

Leve ao lume a manteiga com o açúcar até obter um caramelo dourado. Retire do lume e junte as natas e metade do brandy. Leve de novo ao lume durante 1-2 minutos. Junte o brandy restante

Sirva o bolo em fatias, regadas com o molho.