sexta-feira, dezembro 9

Wise Up

Há um homem novo sentado do lado de dentro do vidro. Come uma tarte de limão enquanto envia fotos das férias passadas aos amigos virtuais. Cá fora, o Inverno corre na toada húmida do tempo. O frio não tem cor, nem os rostos, reais, das pessoas que passam do outro lado do vidro. A cor do homem dissolve-se no mundano dos seus gestos. Só há cor  no creme que pinga do garfo esquecido. O resto é cinzento, virtual. Cá fora há uma última folha de lodão-bastardo que cai no chão. E fico a vê-la a planar num tempo desfasado do metrónomo do mundo.

No, it's not going to stop
'Til you wise up 

(Aimee Mann)




Tarte de Limão





1 receita de massa quebrada
1 receita de Lemon curd
5 claras 
175g de açúcar

Forre uma forma de tarde com a massa quebrada e leve a cozer ao forno durante 20 minutos as 180º ( pique-a e depois cubra-a com papel de aluminio e grão para não deformar). Retire do lume e deite o lemon-curd. Bata as claras em castelo com o açucar até obter massa de merengue. Deite colheradas sobre o lemon curd e leve de novo ao forno até dourar ligeiramente.


Dez mil







Hoje a confeitaria, ao fim de pouco mais de três meses de existência, conseguiu juntar 10000 visitas, leitores, amigos, clientes. Enfim, tantos olhos sobre as histórias com mais ou menos sabor a memórias e vidas que passam na nossa rua.


O meu obrigada pela generosidade dos vossos olhos. Bem hajam!


Para celebrar, o Come Chocolates, convida-os para uma Manhã de Natal com chocolate quente e outras delícias, no dia 17 de Dezembro aqui

quinta-feira, dezembro 8

Para sempre

Fazia sempre o mesmo bolo de chocolate, todos os primeiros Domingos de cada mês. Enquanto a mãe e as irmãs iam à missa, ela ficava sozinha derretendo o chocolate e misturando-o com ovos e açúcar. Fazia-te bem uma oração, Laurinda, dizia-lhe a mãe. Já não tenho nada para conversar com Deus, respondia, com os olhos tão vestidos de preto como o seu corpo franzino. E curvava-se sobre a sua dor e os tachos enquanto as outras saíam. Tenho frio, dissera-lhe uma noite. Ele, então, cobrira o seu corpo nu com uma manta velha de retalhos e dera-lhe um copo de licor. Toma, que te aquece. E ela sentira o licor de ginja escorrendo-lhe por dentro enquanto os beijos e os olhos verdes dele lhe escorriam na pele. Para sempre, dissera-lhe ele. Até que Deus nos separe. E separara. Colocava os bombons de ginja na massa de chocolate enquanto bebia um cálice do licor. Só para se lembrar do cheiro, da voz dele, num tempo ainda antes de Deus. Os sinos que anunciavam o fim da missa tocavam na mesma toada com que deitava a cobertura de chocolate, natas e licor por cima do bolo. Até que Deus nos separe, ouvia-o dizer enquanto punha mais um lugar na mesa, como fazia todos os primeiros domingos de cada mês. Não te esqueças que o senhor padre almoça hoje connosco, dizia-lhe a mãe antes de sair. Não, ela nunca se esquecia. O padre chegava, novo, vestido com um calvário antigo no rosto, e almoçavam todos no silêncio de quem não sabe o que dizer. No fim ela servia fatias do bolo com o café, e o padre ao saborear a ginja e o licor do bolo, sorria com os olhos verdes escorrendo de novo na pele de Laurinda, que parecia que o ouvia de novo a sussurrar: Até que Deus nos separe.


Bolo de chocolate com bombons de ginja





200g de chocolate
100g de manteiga sem sal
100g de açúcar
100g de farinha
4 ovos
1 colher de chá de fermento
1 colher de café de sal
16 bombons de ginja

Pré-aqueça o forno a 190º. Derreta o chocolate e a manteiga em banho-maria. Bata os ovos com o açúcar e junte o chocolate. Peneire a farinha, sal e fermento para a mistura e envolva. Deite a massa numa forma de buraco e distribua os bombons pela massa. Leva ao forno durante cerca de 30 minutos

Para a Ganache

200g de chocolate
100ml de natas
1 colher de sopa de manteiga sem sal
2 colheres de sopa de licor de ginja

Derreta, em banho-maria, o chocolate juntamente com as natas e a manteiga. Retire do lume e junte o licor, mexendo sempre. Deite sobre o bolo completamente arrefecido.


Esta receita é participação do Come chocolates pequena; Come chocolates!  no passatempo Chocolate e Picante: Um desafio de receitas com histórias dentro, promovido pelo blogue Gourmets amadores em conjunto com a Casa das Letras do grupo Leya.

terça-feira, dezembro 6

Trinta dinheiros

Costumava sentar-se no banco que havia debaixo da figueira. É uma árvore para gente traiçoeira, dizia-lhe a mãe. Paciência, que fazia boa sombra. Sentava-se no banco e punha as nozes, que trazia no bolso, dentro da boina de fazenda. E ficava ali, a parti-las com as mãos, enquanto via quem passava, mesmo quando não passava ninguém. Às vezes dizia, boa tarde, mas os outros baixavam os olhos e murmuravam, é o bufo. Ele ouvia, mas não ligava, encolhia os ombros e partia mais uma noz. Às vezes também passava uma velha. Ela passava no seu passo quebrado de viúva, que é um passo de quem já não espera mais nada. Tinha um filho, a velha. E ele partia mais uma noz a tentar lembrar-se da cara do rapaz. Nunca conseguia. Era normal. Só se lembrava dos nomes. Para isso sim, sempre tivera boa cabeça. Era até capaz de se lembrar dos apelidos todos e pela ordem certa, se fosse caso disso. A velha, sempre que passava, parava e olhava-o com os olhos bem abertos. Cabrão, dizia entre dentes. Ele ouvia, fingia que a noz tinha bicho e deitava-a fora. Manuel. Era como se chamava o comuna do filho dela. Manuel de Jesus Cipriano. A velha afastava-se na curva do caminho. Cabrão do bufo que não há meio de morrer, ela a dizer, com a raiva a vergar-lhe ainda mais a corcunda das costas. E ele atirava as cascas para o chão e dizia bem alto, Joaquim. Lembra-te que o meu nome é Joaquim.

Mousse de maçã com nozes





600g de maçã reineita descascada
150g de nozes picadas
150 g + 100g  de açúcar
40g de manteiga
3 claras
sumo de 1 limão

Corte as maças em gomos finos e regue-os com metade do sumo de limão. Leve a manteiga com 150g de açúcar ao lume até fazer um caramelo claro. Junte as maçãs e deixe caramelizar até amolecerem. Deite as maçãs e o caramelo, juntamente com o restante sumo de limão num liquidificador  até ficar um creme aveludado. Deixe arrefecer completamente.  Bata as claras em castelo e junte os restantes 100g de açúcar até obter uma massa de merengue. Misture cuidadosamente o creme de maçãs com o merengue. Deite em tacinhas e polvilhe com nozes picadas. Leve ao frigorifico durante pelo menos 1 a 2 horas


Receita adaptada de Maria de Lourdes Modesto

quarta-feira, novembro 30

Sabão de Marselha


Gostava de ter a casa a cheirar a sabão. Dissolvia meticulosamente os pedaços amarelados no balde, colocava uma toalha turca desbotada dobrada em quatro para assentar os joelhos e com gestos circulares lavava o chão de tijoleira. Depois de lavar o chão, tirava o avental, colocava o colar de pérolas que o marido trouxera em troca de dinheiro que lhe deviam e calçava os sapatos de cetim que usara no dia do seu casamento. Sentava-se ao topo da mesa da cozinha a comer os bolos de amêndoa que fazia todas a sextas -feiras. Comia-os lentamente enquanto olhava para os sapatos de biqueira engelhada e deformada pelos joanetes. No dia em que teve aquela dor no peito, não teve tempo de pôr o colar de pérolas, mas ainda conseguiu calçar os sapatos de cetim, que deixava sempre alinhados à porta do quarto. Foi a última coisa que conseguiu fazer antes de se deixar morrer no chão de tijoleira impregnado de sabão.



Bolinhos de amêndoa






250g de açúcar em pó
500g de amêndoa moída
6 gemas

Pré-aqueça o forno a 180º. Misture o açúcar com a amêndoa e junte as gemas. Bata bem. Forme pequenas bolas e leve ao forno durante  15 minutos.

domingo, novembro 27

Rua do Capelão

( Desafio: Uma receita para a Maria)



Flora viera de Timor ainda pequena, e gostava de fado. Mas ouvia-o em segredo, porque para os outros tinha de gostar da mesma coisa que todos. E aos quinze anos, não havia ninguém, entre todos, que gostasse de fado. Guardava um disco de vinil da Amália entre os livros de físico-química, que ouvia quando estudava  sentada no canto da mesa da casa de jantar. Com os olhos amendoados, que diziam ser da mãe, perdidos na janela aberta para os prédio suburbanos. Cerrava os olhos segundos antes de terminar o fado e tentava imaginar o que seria uma juncada de rosmaninho.

Crepes com molho de laranja



Para os crepes ( 4-6 crepes)
½ chávena de farinha
½ chávena de leite
2 colheres de sopa de açúcar
1 ovo
1 colher de sopa de água
1 colher de sopa de manteiga derreitoda

Misture a farinha com o açucar e junte o ovo. Bata muito bem. Junte o leite e manteiga derretida e misture. Deixe repousar pelo menos meia hora. Antes de fazer os crepes junte a colher de sopa de água. Leve uma frigideira a lume brando e quando tiver quente deite colheradas da massa até cobrir o fundo da frigideira com uma camada fina. Quando os bordos do crepe se começarem a ficar dourados e a soltar, desprenda-os com uma faquinha e com a ponta dos dedos puxe uma das pontas do crepe e volte-o rapidamente. Repita o processo até ficar sem massa.

Para o molho de laranja
1 chávena de sumo de laranja
½ chávena de açúcar
1 colher de chá de farinha
Esprema laranjas até obter um chávena de sumo . Dissolva a farinha do sumo e leve ao lume num tacho, juntamente com o açúcar. Assim que levante fervura, baixe o lume para o mínimo e deixe reduzir durante 10 minutos
Sirva os crepes regados com este molho. Poderá polvilha-los com canela, ou então “quando o rei fizer anos” e houver chocolate, raspe com uma faquinha a tablete e sirva juntamente com o molho





quinta-feira, novembro 24

Cantigas do Maio

Usavam ambas risco ao meio e o cabelo escorrido pelas costas. À noite vinham fumar à varanda. Falavam baixinho com vozes delicadas e cheiravam a incenso. Eu espreitava-lhes os vultos da minha janela. As conversas delas escorriam pelo tempo do parapeito, enroladas no fumo do tabaco e na música baladeira que saía de dentro do apartamento decerto tão diferente do dos meus pais. Também vinham à varanda nas manhãs de Domingo, e enquanto eu esticava as meias de croché pelo joelho, as meias de ir à missa, elas comiam panquecas saídas dos filmes americanos e bebiam café por canecas. Eu mirava-lhes as saias compridas pelos tornozelos e as alpercatas chinesas bordadas no peito do pé. E as baladas cantadas pelo homem de voz triste. As mesmas que o meu pai desligava com a indiferença politica, quando tocavam no rádio. Tens lume? Perguntou-me um dia uma delas, anos depois do tempo da varanda. A voz dela ainda pingava por entre as baladas do homem de voz triste. Tens lume? Baixei os olhos e senti uma das meias de croché a resvalar pela perna. Não. Não fumo. Nunca fumei.


Paquecas com molho de framboesa

Para as panquecas

1  e ¼  chávena de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
1 ovo
1 chávena de leite
1 saqueta de açúcar baunilhado ( aproximadamente 10g)
30g de manteiga derretida sem sal

Misture a farinha, o fermento e o açúcar. Bata o ovo com o leite e misture com a farinha e o açúcar. Junte a manteiga derretida. Aqueça uma frigideira anti-aderente  e deite colheradas de massa. Deixe cozinhar  em lume  brando até que faça bolhas à superfície. Volte e deixe cozinhar 1-2 minutos.


Para o o molho

300g de framboesas congeladas
1/3 chávena de açúcar
1 colher de chá de raspa de limão

Leve as framboesas ao lume com o açúcar e o a raspa de limão. Deixe ferver durante 6 minutos (verifique se as framboesas se desfizeram todas). Coe o molho por um passador de rede para tirar as sementes. Sirva com as panquecas.

domingo, novembro 20

Verdes anos

O irmão visitava-os ao Domingo, que podia ser o primeiro ou último de cada mês. Ela fazia bolo de chocolate e tirava as estatuetas de pau preto e marfim que tinha na estante da sala. Escondia-as no velho saco da TAP que voltara de lá, forrado com as economias. Com a mesma delicadeza com que cortava as fatias do bolo, pedia ao marido que não falassem de politica. Deixei lá a minha vida, respondia-lhe ele com a voz embaciada. Eu perdi lá o meu outro irmão, retorquía ela. Servia o chá na sala e ouviam Carlos Paredes no silêncio incómodo do ressentimento. Quando ela lhe estendia o prato do serviço chinês com uma fatia de bolo, o irmão sorria e chamava-lhe burguesa. Ela debruçava-se e dizia-lhe baixinho, as memórias também se curam.


Brownies marmoreados


200g de chocolate branco
200g de chocolate preto
125 g manteiga sem sal
200g de açúcar
5 ovos
30g de cacau em pó
1 colher de chá de essência de baunilha
140g de farinha sem fermento
pitada de sal fino

Aqueça o forno a 170º. Unte uma forma quadrada com manteiga e forre-a com papel vegetal. Derreta o chocolate com manteiga em banho maria. Bata os ovos com o açúcar e junte o cacau. Misture bem e junte o chocolate derretido com a manteiga. Adicione a baunilha e o sal e depois a farinha envolvendo-a cuidadosamente. Deite a massa na forma quadrada e alise-a.Derreta o chocolate branco em banho maria e deite-o sobre a massa de chocolate preto de modo a obter um aspecto marmoreado. Leve ao forno cerca de 25 minutos. Desenforme e corte em quadrados depois de frio.

terça-feira, novembro 15

Dos outros

As duas mulheres da mesa ao lado falam da vida dos outros. Falam com as certezas de quem não sabe nada. De quem não conhece a vida para além do que parece. Há uma terceira que atravessa as arcadas. Aproxima com um sorriso débil, quase a pedir desculpa. Tudo bem? As outras dizem que sim. Ela diz que não, arrastando a voz na tristeza dos dias. As outras esboçam um sorriso em troca do silêncio de quem não sabe o que dizer. Senta-te. Não, o autocarro está quase aí. Olham as três para o desconforto da rua vazia. Os olhos da mulher de pé escorrem dos cones de jornal que o homem das castanhas enrola, para o chumbo do céu que dissolve no rio. As outras tomam-lhe o peso dos dias no cabelo mal pintado e nas unhas roídas. Mexem as colheres nas chávenas, agitando o silêncio húmido dos olhos dela. Não, não está tudo bem. Mas as certezas dos outros são surdas. A mulher despede-se com o mesmo arrasto triste com que chegou. Atravessa a rua e pede uma dúzia de castanhas. Bem-haja, diz-lhe o homem. As mulheres sentadas retomam a conversa sobre a vida dos outros. Uma delas suspira. É a vida.




Castanhas caramelizadas








300g de castanhas congeladas
125 g de açúcar
40g de manteiga




Leve a manteiga e o açúcar ao lume até fazer um caramelo dourado. Junte as castanhas e deixe-as caramelizar durante 5 minutos. Deite-as numa rede e deixe-as arrefecer




Receita adaptada de Vaqueiro

sexta-feira, novembro 11

18


Espera o eléctrico sentado no banco da paragem. Nos joelhos a caixa de cartolina branca, com nódoas da manteiga, das bolachas que compra todas a sextas -feiras na pastelaria do Calvário. Pousa as mãos magras manchadas pelos oitenta anos em cima da pequena caixa e espera. Está quase, vai dizendo a quem chega, sorrindo com a dentadura nova que a filha lhe pagou. Há dias em que vêm dois de seguida, mas é um instante. Os olhos dos outros, dobram-se na impaciência de quem não sabe que um instante passa numa vida inteira. E ele sorri com os seus dentes feitos num consultório de Benfica. As portas do eléctrico abrem-se, ele pica o bilhete e faz um gesto com a mão livre ao condutor. Senta-se com o equilíbrio de quem conhece todos os solavancos da subida para a Ajuda. Em pé ficam os estudantes, muitos cheios de malas com roupa suja, prontos para chegar à terra à sexta à noite. Ele cerra as pálpebras engelhadas e sente a aspereza do granito e o uivar dos lobos cortando o frio da serra e as frieiras das mãos. O eléctrico faz a curva num solavanco e percorre lento o muro da Tapada. Há alguém que toca à campainha. Na entrada da casa dos pais havia um sino velho. O frio húmido das manhãs entranhado nas camisolas de lã áspera. Ajeita-se no lugar para deixar sentar outra velha, talvez menos velha que ele. Outro solavanco. Os estudantes saem com as suas malas de roupa suja. A dele, a que trouxe no comboio até à cidade, tinha roupa lavada e os uivos dos lobos. Levanta-se lentamente apertando contra si a caixa das bolachas. A mulher desvia os joelhos apertados pelas meias de descanso para o deixar passar e fica de olhos postos na caixa. Ele sorri de novo. Foi o açúcar que me deu cabo dos dentes. O eléctrico pára de novo. Saio aqui. Foi um instante.




Bolachas de manteiga e tangerina

( aproximadamente 36 bolachas)


400g de farinha sem fermento
300g de manteiga
200 g de açúcar
Raspa de 3 tangerinas
1 colher de sopa de sumo de tangerina
1 colher de café de sal fino


Bata a manteiga amolecida com o açúcar. Junte o sal, o sumo e raspa das tangerinas. Junte a farinha e amasse. Faça uma bola com a massa e leve ao frigorífico durante cerca de uma hora. Pré-aqueça o forno a 180º. Estenda a massa numa superfície enfarinhada e use um cortador de massa para cortar as bolachas. Leve-as ao forno, em tabuleiros forrados a papel vegetal durante cerca de 20 minutos. Polvilhe-as com açúcar granulado ainda quentes.