terça-feira, janeiro 17

Aconchego

Havia um pátio com chão de cimento por trás do prédio. Onde os estendais se cruzavam, curvados pelo peso da roupa molhada. Havia gatos e um muro. Atrás do muro, ao fim da manhã corria o som do amola tesouras, que se diluía nas primeiras chuvas Inverno. Havia janelas entreabertas por onde saia o som do noticiário da rádio, ou vozes exaltadas ou o ladrar de um cão. Havia uma mulher bordando tapetes de Arraiolos, sentada nas escadas que dava para o pátio. Os dedos macerados e picados da agulha trabalhavam ágeis entre os fios ásperos de lã. Outra, que fazia bolos para fora, abria a janela da cozinha para deixar sair o calor do forno e o seu rosto gordo e corado acenava à janela, juntamente com o cheiro de maçã e manteiga. O homem que todos os dias vinha remexer no lixo olhava-a com os olhos de quem não tinha mulher há muito. Precisas de aconchego, dizia-lhe. Ela desviava os olhos da boca cheia de dentes amarelos mas ficava a ouvi-lo. O pátio enchia-se do cheiro gorduroso da manteiga esfarelada com farinha. E eu era homem para te dar aconchego, repetia enquanto atava as caixas de cartão desmanchadas com cordéis velhos que trazia no bolso. Ela, impassível voltava para dentro da cozinha, deixando a janela aberta. E suspirava. Se ao menos tomasses um banho.


Crumble de maçã e frutos vermelhos 


( para 4)

500g de maçã reineta
250g de frutos vermelhos
Sumo e raspa de uma laranja
30 g de farinha
75g de açúcar

100g de farinha
100g de amêndoa  laminada
75 g de açúcar amarelo
100g de manteiga
Pitada de sal

Pré-aqueça o forno a 180º. Esfarele a manteiga com a farinha e o açúcar e o sal. Junte a amêndoa, misture e reserve.
Misture a maçã, os frutos vermelhos com o açúcar, o sumo e a raspa de laranja. Polvilhe com a farinha.
Em taças individuais que possam ir ao forno, deite um pouco de mistura de fruta em cada uma delas e cubra com a mistura de manteiga e amêndoa.
Leve ao forno por cerca de  35 minutos, até a parte superior ficar dourada.

quarta-feira, janeiro 11

Erva daninha

Adelaide faz compotas para fora. Vende-as numa banca ao fundo do mercado. Em silêncio, sem pregões, alinha os frascos cobertos com retalhos de chita, restos que a dona da loja de cortinados lhe dá em sacos de plástico. Tão nova e já viúva, uma pena. Dizem as mulheres que lhe levam os frascos. Adelaide não as ouve. Mas adivinha-lhes a pena de quem não tem mais nada que dizer, só pelo curvar das costas. A viuvez sem cabelos brancos é uma coisa que não pertence ao correr dos dias da terra. Tivesse eu menos um punhado de anos e casava-me consigo, diz-lhe sempre o homem que lhe vende a fruta, enquanto lhe carrega a carrinha com caixas de madeira. Adelaide sorri com embaraço enquanto desvia os olhos do rosto cravado de cicatrizes de uma varicela mal tratada, e das unhas pretas de terra. As mãos assustam-na, trazem-lhe más memórias. A gente habitua-se à solidão, responde. Foi num acidente a caminho de casa. Ficou-se lá, todo desfeito. Adelaide escuta as vizinhas ao entrar na casa, construída com dinheiro que o pai ganhara no lagar de azeite. Enquanto corta a casca das tangerinas em tiras finas, os olhos fogem-lhe para o armário onde guarda o remédio para as daninhas. Os mesmos que estavam em cima da bancada na noite em que o guarda lhe trouxe a notícia. E lembra-se das noites cheias de mãos de unhas sujas. Que lhe deixavam o corpo negro e uma vontade imensa de morrer. Ouviu a notícia em silêncio sem mexer um músculo do rosto. Fechou a porta quando o guarda entrou no carro e calmamente guardou os frascos de herbicida no armário. Já não é preciso. Disse. Já não é preciso, repetiu enquanto as lágrimas lhe caíram de alivio.


Doce de tangerina



1,5kg de tangerinas
700g de açúcar

Esprema o sumo das tangerinas, coe e reserve. Corte as cascas das tangerinas em tiras muito fininhas e escalde-as por duas vezes consecutivas em água a ferver para perderem o amargo.  Junte as cascas ao sumo e adicione o açúcar e deixe a macerar no frigorífico durante a noite. No dia seguinte leve ao lume até atingir o ponto (colocando um ponto de compota num pires, ao passar com uma colher esta deverá manter-se separada). Deite em frascos esterilizados.

quinta-feira, janeiro 5

Irina



Ao fundo do corredor, o silêncio é quebrado pela água que passa no escorredor do balde. Arruma metodicamente as tolhas turcas ainda mornas do ferro de engomar. Separa as brancas das de cor e coloca entre elas pequenos sabonetes de alfazema embrulhados em saquinhos de organza. Depois, passa a esfregona em círculos lentos, mas perfeitos, no chão, deixando os azulejos pretos e brancos impregnados de lixívia, sabão e sombras de fim de tarde. Os cabelos finos, de um louro improvável soltam-se do travessão preto em forma laço. Pára, por um instante, em frente ao espelho e sem se ver num gesto lento quase gracioso limpa a mancha de bolor que teima em aparecer no canto sem luz. O relógio da sala, relembra-a que é hora de sair. Arruma os detergentes no armário por de baixo do lava-loiça, prende os cabelos soltos com ganchos de noiva e uma rede, guarda o envelope com dinheiro e o quadrado de bolo de chocolate que a patroa lhe deixa sempre em cima da mesinha de entrada. Não gosta de chocolate, pensa enquanto tranca a porta com quatro voltas. Atravessa o quarteirão, e abre outra porta, que não tem trancas, só uma fechadura velha por onde se escoa a música das aulas. Calça as sapatilhas e os olhos azuis ganham luz. Cumprimenta as alunas, alinhadas em duas filas, numa língua que lhe ainda é estranha. E antes de ligar o gravador repara que as suas mãos ainda cheiram a lixívia.



Brownies





150g de chocolate preto
125 g manteiga sem sal
200g de açúcar
5 ovos
50g de cacau em pó
1 colher de chá de essência de baunilha
125g de farinha sem fermento
pitada de sal fino

Aqueça o forno a 170º. Unte uma forma quadrada com manteiga e forre-a com papel vegetal. Derreta o chocolate com manteiga em banho maria. Bata os ovos com o açúcar e junte o cacau. Misture bem e junte o chocolate derretido com a manteiga. Adicione a baunilha e o sal e depois a farinha envolvendo-a cuidadosamente. Deite a massa na forma quadrada e alise-a. Leve ao forno cerca de 25 minutos. Desenforme e corte em quadrados depois de frio.

quarta-feira, dezembro 28

Winter's Tale

Chegam todos os dias à mesma hora. Como se o tempo se perpetuasse com o cumprir das horas. Sentam-se, de casacos vestidos em roda da mesa. Falam de coisas passadas e daqueles já morreram. A morte bebe café com eles e eles consentem, sabendo-a ali, por cima dos seus ombros curvados pelas artrites. Falam dela como se a desafiassem. Ela ignora-os, na sua espera vazia de credos e religiões. Há sempre um deles que se queixa do frio. Outro da ausência dos filhos. Ambas doem no corpo. Há dias que se mantêm ali, calados, olhando a senescência das folhas, à qual já chamaram Outono. São os dias em que contam menos um entre eles. A rapariga do café sabe que nesses dias os cafés do costume não são suficientes e  traz-lhe pequenas tigelas com doce de ovos. Que com a idade os velhos ficam gulosos. Fica ali, vendo-os comer em colheradas pequeninas, com medo das nódoas, pensado que cada vez traz menos tigelas de barro. E aos lamentos de gripes e dores nos ossos responde com a impaciência de quem ainda acredita que o tempo não termina. Isso passa quando os dias quentes chegarem.

Doce de ovos com laranja e canela





10 gemas
250g de açúcar
200ml de água
Raspa de 1 laranja
2 paus de canela

Leve o açúcar, a água, a raspa de laranja e a canela a lume brando até fazer ponto de fio. Retire do lume e coe por um passador. Junte as gemas desfeitas e leve de novo a lume muito brando até engrossar. Sirva frio em tacinhas .

quinta-feira, dezembro 22

Tempo de Memórias



Todos os pretéritos se conjugam nos dias mais curtos do ano. Há memórias que se reconstroem na sépia dos cheiros. E chamamos Natal a essa curva que se repete na estrada do tempo.

Boas Festas a todos os leitores da Confeitaria.

terça-feira, dezembro 20

Manhã de Natal



Antes da curva da estrada havia uma janela. E dentro dessa janela havia uma casa, cheia de manhãs a cheirar a chocolate e framboesa. Depois da porta, que rangia baixinho nas dobradiças, havia passos no soalho de madeira que às vezes cheirava a cera fresca. Havia sombras de memórias esquecidas nas esquinas de pedra mármore. Na sala, um velho tapete pisado por danças que nunca aconteciam. E a música que pingava da imitação de lustre comprada numa loja sem nome. Ao fundo do corredor abria-se a porta para cozinha de todas as alquimias e azulejos cinzentos impregnados de pretéritos e vozes. Havia mãos, umas velhas e experientes, esperando o ponto de açúcar, e outras pequenas desenhando letras na humidade dos vidros. Havia uma mesa posta com cheiros e um serviço chinês com flores de pessegueiro pintadas de azul. Antes da curva da estrada havia uma manhã, de todos os silêncios e memórias, fotografadas em papel que foi perdendo a cor. Havia um Natal depois de nós que ficou para além dos olhos que viviam na casa da curva da estrada.



Compota de framboesa e chocolate



500g de framboesas congeladas
200g de chocolate
200g de açúcar
Leve as framboesas com o açúcar num tacho até levantar fervura. Depois baixe o lume para muito brando e deixe cozinhar durante cerca de meia hora. Junte o chocolate partido em pequenos pedaços e retire do lume. Leve ao frigorífico durante pelo menos 8 horas. Depois leve a compota novamente ao lume, e deixe ferver durante mais 20 minutos em lume brando. Distribua o doce por frascos esterilizados. 


Texto apresentado no evento Manhã de Natal, organizado pela La Maison by Amora

quarta-feira, dezembro 14

Rabanadas


As memórias só têm janelas. Poderia  dizer-lhe  a avó que nunca tivera. Imaginava-a assim,  de costas, sem rosto mas a cheirar a canela e a sabonete de glicerina. De costas, debruçada sobre um fogão numa chaminé de pedra,  talvez  manchada por limões esquecidos no canto. Os cabelos prateados a soltarem-se de um apanhado feito com ganchos de noiva.  E a mão engelhada e manchada a apanhá-los com o ritmo das horas. As memórias só têm janelas, dir-lhe-ia enquanto fritasse rabanadas. Nas paredes, panos da loiça bordados num tempo de enxoval e cheiro de aldeia fotografada a preto e branco. E o pão duro, transformando-se em fatias doces na frigideira. Janelas voltadas para dentro e para fora, mas sempre abertas.  E pensou que  apesar de sentir o açúcar húmido, no canto da boca, nunca tivera avó.  Só janelas, construídas com memórias de olhos fechados.



Rabanadas de Bolo Rei




8 a 10 fatias de bolo rei
2 ovos + 2 gemas
½  chávena de leite
Raspa e sumo de uma laranja
1 colher de sopa de vinho do porto
2 colheres sopa de açúcar + açúcar para polvilhar
Manteiga para fritar


Bata os ovos com o leite, o sumo e raspa de laranja e o vinho do porto. Deite num prato fundo e deixe as fatias de bolo rei embeberem a mistura dos dois lados.  Deite um pouco de manteiga numa frigideira e frite as rabanadas até que fiquem douradas dos dois lados. Retire-as  para um prato com papel absorvente. Deixe arrefecer e polvilhe-as com açúcar granulado e queime-o com um maçarico .

sexta-feira, dezembro 9

Wise Up

Há um homem novo sentado do lado de dentro do vidro. Come uma tarte de limão enquanto envia fotos das férias passadas aos amigos virtuais. Cá fora, o Inverno corre na toada húmida do tempo. O frio não tem cor, nem os rostos, reais, das pessoas que passam do outro lado do vidro. A cor do homem dissolve-se no mundano dos seus gestos. Só há cor  no creme que pinga do garfo esquecido. O resto é cinzento, virtual. Cá fora há uma última folha de lodão-bastardo que cai no chão. E fico a vê-la a planar num tempo desfasado do metrónomo do mundo.

No, it's not going to stop
'Til you wise up 

(Aimee Mann)




Tarte de Limão





1 receita de massa quebrada
1 receita de Lemon curd
5 claras 
175g de açúcar

Forre uma forma de tarde com a massa quebrada e leve a cozer ao forno durante 20 minutos as 180º ( pique-a e depois cubra-a com papel de aluminio e grão para não deformar). Retire do lume e deite o lemon-curd. Bata as claras em castelo com o açucar até obter massa de merengue. Deite colheradas sobre o lemon curd e leve de novo ao forno até dourar ligeiramente.


Dez mil







Hoje a confeitaria, ao fim de pouco mais de três meses de existência, conseguiu juntar 10000 visitas, leitores, amigos, clientes. Enfim, tantos olhos sobre as histórias com mais ou menos sabor a memórias e vidas que passam na nossa rua.


O meu obrigada pela generosidade dos vossos olhos. Bem hajam!


Para celebrar, o Come Chocolates, convida-os para uma Manhã de Natal com chocolate quente e outras delícias, no dia 17 de Dezembro aqui