quarta-feira, março 21

Turdus merula


Para ela todas as aves eram pássaros e deixava sempre as portas das gaiolas abertas. Não tens medo que fujam, avó? Não gosto de trancas, dizia enquanto aquecia uma rola entre o peito e a combinação de renda.  Depois enchia a boca com água e deixava que bebessem da sua boca. Não tens medo que te piquem, avó? Ela sorria e abanava a cabeça devagarinho, que os pássaros não gostam de gestos bruscos e fazia um sinal com os dedos longos de quem já tocara piano. Traziam-lhe o velho gira discos de tampa de abrir. Se a tarde já estivesse no fim, cheia daquela luz que pinga sombras nas folhas das árvores, dizia, põe Debussy que os melros gostam. Depois esfarelava as madalenas feitas de manhã cedo, entre o polegar e o indicador e punha as migalhas entre os lábios. É assim que comem no ninho. Os melros iam-se chegando  devagar, com a sua cabeça negra  inclinada de receio. Ela, fechava a porta da casa e desligava os aparelhos por detrás das orelhas. Assim não ouves a música, avó. Nem o silêncio da casa, dizia.


Madalenas com morangos


150g de farinha sem fermento
150g de manteiga sem sal
100g de açúcar
4 ovos
Raspa de uma laranja
Raspa de meio limão
1 colher de chá de baunilha
1 colher de chá de fermento em pó
Pitada de sal fino

250g de morangos
½ chávena de açúcar
½ chávena de água
1 vagem de baunilha
2 colheres de sopa de sumo de laranja

Bata a manteiga com o açúcar e junte os ovos inteiros, um a um. Junte as raspas e a baunilha e misture. Peneire a farinha com o fermento e o sal e envolva cuidadosamente. Leve ao forno, pré-aquecido a 200ºc durante 10 minutos.
Corte os morangos e pedaços pequenos. Reserve. Leve ao lume o açúcar com aá  gua e a vagem de baunilha aberta. Deixe ferver 5 minutos em lume brando. Retire do lume e deixe arrefecer. Junte o sumo de laranja, deite sobre os morangos  e leve-os aos frio a macerar durante a noite ( ou peno menos 4 horas).
Sirva com as madalenas.

Adaptado de French Food at Home, Laura Calder.






sexta-feira, março 16

Algés

A oficina ficava perto da estação de comboio. De manhã, ele abria com as suas mãos de quatro dedos, as portas azuis, que deixavam cair mais umas escamas de tinta na calçada. Varria as aparas de madeira e trazia as cadeiras envernizadas para o alpendre. Ficava uns instantes à porta e acenava ao cigano que no Inverno vendia chapéus de chuva à entrada do túnel para a estação. No Verão vendia bóias e chapéus de sol. Adeus Alfredo, dizia-lhe. O cigano sorria e respondia. Já aí vou. O marceneiro ficava uns instantes à porta, a ver as pessoas a entrarem apressadas no túnel da estação. De onde se ouvia a musica desafinada do cego do acordeão. Os dias delas corriam mais depressa que os seus. Que se arrastavam por entre o cheiro pegajoso de verniz e as aparas que se acumulavam lentas, no chão da oficina. Depois do último comboio da manhã o cigano chamava-o à porta com duas cervejas na mão. Sentavam-se nas cadeiras do alpendre, bebendo as cervejas pelo gargalo. Em silêncio. Até que o marceneiro apontava para a marisqueira do outro lado da rua e dizia-lhe. Quando vender uma mobília de quarto pago a uma mulher e vou ali jantar. Nunca comi lagosta, nem sei a que sabe, dizia-lhe o cigano. O marceneiro suspirava e punha a garrafa vazia debaixo da cadeira. E eu ainda não sei a que sabe o corpo de uma mulher.

(Deserto do Mundo, 26/10/2010)

Hoje, enquanto compilava os textos do Deserto do Mundo para o encerrar, lembrei-me do sabor do chocolate branco da minha infância. E lembrei-me da estação de comboio de Algés em frente à praça. Havia gente e cheiro a fruta nas bancas. E havia eu, de olhos derretidos no chocolate que comia.



Queques de chocolate branco e framboesa






125g de manteiga sem sal
100 de açucar
2 ovos inteiros
225g de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
pitada de sal fino
2 colheres de sopa de leite
1 colher de chá de baunilha
100 de chocolate branco partido em pedacinhos
doce de framboesa

Pré-aqueça o forno a 180º. Bata a manteiga com o açúcar até ficar bem cremoso. Junte os ovos e misture bem. Junte o leite e a baunilha e o chocolate branco.Adicione cuidadosamente a farinha previamente misturada com o fermento e com o sal. Coloque um caixinha de papel e cada uma das forminhas de queque e encha até 2/3 com  massa. Deite uma colher de chá de doce de framboesa ( de preferência com pouco açúcar) e com um palito marmoreie a superfície. Leve ao forno durante cerca de 20 minutos.

terça-feira, março 13

F.


A cozinha tinha um cortinado com flores azuis, pendurado por um esticador retorcido numa das pontas.  Havia um bolo de ananás que cheirava a anos 50 e a recordações do outro lado do hemisfério. Chegavas às Sextas-feiras vestida na tua farda castanha. Eu, no meu mundo aparentemente sem fardas mas tão cheio de regras, abria-te a porta (quero imaginar com um sorriso, porque quando escrito o sorriso tem sabor de metáfora). Vinhas de um mundo estranho, de aparente clausura. Sentávamo-nos na  contra-luz da porta que dava para a varanda, comíamos bolo e crescíamos a ser aquilo que esperavam de nós.  Eu abria-te as páginas a preto e branco do livro de receitas sem capa que a minha mãe guardava no móvel da sala. O mundo a preto e branco das nossas mães era longínquo com o bafio absurdo do que nunca seria. Pensas demais, dizias enquanto dançavas com gestos teatrais à volta da mesa da sala. Passou mais uma sexta feira e lembrei-me de ti. Quis que tocasses à campainha  do meu segundo andar que  agora é um rés-do-chão do que é suposto. E servia-te uma fatia de bolo, que no meu silêncio contido, é como quem diz: fazes-me falta.

Bolo Piña-Colada


1 lata  grande de ananás em calda
200g de manteiga
200g de açucar
150 g de farinha
100g de coco ralado
50 ml de rum anejo
5 ovos inteiro
Caramelo q.b

Unte uma forma redonda com manteiga. Faça um caramelo com 1 chávena de açucar e ½ chávena de agua e cubra as paredes da forma com este caramelo. Escorra as fatias de ananás e forre a forma com as mesmas.
Bata a manteiga com o açucar, junte o os ovos e depois o rum e o coco. Adicione cuidadosamente a farinha.
Leve a forno pré-aquecido a 160º durante cerca de uma hora
Adaptado de Receitas da TV, Maria de Lurdes Modesto.

Esta estória de ler e de comer, inserem-se na 2ª edição do desafio:Convidei para jantar  a decorrer nos gourmets amadores. E a convidada foi a Maria de Lurdes Modesto




sexta-feira, março 9

Sete Palmos

Não gosto de doces, dizes enquanto afastas delicadamente a taça de pudim de chocolate. Não gosto de doces, murmuras sempre que uma mulher gorda se cruza contigo na rua. Tens pena delas, afirmas. Das camadas de gordura que lhes soterram o amor-próprio sete palmos abaixo do amor dos outros. Baixas os olhos com náusea e imaginas-lhes os corpos leitosos e fartos, que não suportam o calor nem o olhar dos outros. Não gosto de doces, e esforças-te para mostrar uma expressão de náusea. Talvez assim não vejam as camadas invisíveis da gorda que foste te deixaram na forma com que afastas dos abraços para que não sintam o tamanho do corpo que já não tens. Não gosto de doces, repetes com a raiva que a mulher da frente te desperta, só por lamber a colher com lentidão húmida de que não se importa com os outros. Os outros não vêm mais nada para além do que está por fora, lembras-te? São os outros quem combates quando a vontade de comer sofregamente volta. Não, não tens complexos. O único problema é que não gostas de doces.


Pudim de chocolate com framboesa






500m de leite
6 colheres de sopa de açúcar
2 colheres de sopa de farinha maizena
pitada de sal fino
1 ovo + 4 gemas
200g de chocolate
2 colheres de sopa de manteiga sem sal
1 colher de chá de extracto de baunilha
1 chávena de framboesas congeladas + 2 colheres de sopa de açúcar

Leve as framboesas num tachinho ao lume com o açúcar e duas colheres sopa de água e deixe ferver em lume brando por 10 minutos. Coe este puré por um passador e reserve.
Leve o leite ao lume sem deixar levantar fervura. Misture metade do açúcar com o sal e maisena. Bata a restante metade com os ovos. Misture tudo num robot de cozinha e junte o leite em fio. Leve o chocolate a derreter com a manteiga e adicione. Junte a baunilha e o puré de framboesa. Leve ao frio pelo menos 2 a 3 horas. Pode servir com mais puré de framboesa e natas batidas.




Mais uma receita para o desafio Dorie às sextas.

domingo, março 4

Grená

Todas as manhãs, à hora do intervalo, aparecia ao portão de vestido garrido e olhos pintados de verde berrante. Entregava a lancheira com pão com creme de chocolate por entre as grades ao filho. Uma criança gorda e belfa, que corria com os joelhos para dentro e usava uma pulseirinha de prata com o nome gravado no pulso branco e leitoso. Luís Filipe. Ficava sentado, sozinho no banco por debaixo do alpendre da escola de boca e dedos lambuzados pelo chocolate. Foi o melhor que lhe aconteceu, diziam as contínuas de braços cruzados  por debaixo dos casacos de malha que usavam apenas por cima dos ombros. E ela afastava-se no seu vestido garrido deixando um rasto enjoativo a perfume. Recebeu uma fortuna do seguro de vida do marido. Morreu logo, num cruzamento lá para os lados de Alcobaça. Luís Filipe continuava sentado no banco de pedra, deixando dedadas de chocolate nos óculos, sempre que os ajeitava. Foi o melhor que lhe aconteceu. Dizem que o marido a trancava em casa com os ciúmes. Agora não pára em casa. Ela dobrava a esquina no seu passo lento e leve e eu ficava a lembrar-lhe as mãos longas de unhas pintadas de um vermelho intenso quase grená,  que afagavam todos os dias o rosto do filho. Umas mãos  tão diferentes das mãos das contínuas que se sentavam à porta da sala a fazer rosetas de croché para colchas intermináveis.  Luís Filipe levantava-se, limpava o chocolate da boca e juntava-se aos outros. Ela, a mãe, seguia sozinha com as suas mãos de unhas longas e vermelhas libertas na cor do vestido.

Lembrei-me disto, ontem, quando me perguntaram quando é que tinha começado a escrever. 


Bolachas de Nutella



Para cerca de 18 bolachas

190g de farinha
1colher de chá de fermento em pó
1 colher de sopa de cacau
150g de Nutella
30g de manteiga sem sal
125 g de açúcar
1 ovo
30 ml de leite
1 colher de sopa de café expresso
150g de avelãs
70 g de açúcar em pó
pitada de sal

Bata o Nutella com a manteiga e o açúcar. Junte ovo, o café e o leite e bata até obter um creme bem fofo. Misture a farinha, o fermento e sal e junte à mistura anterior. Junte metade das avelãs picadas. Leve ao frio pelo menos durante 2 horas. Depois tenda bolinhas e passe-as pelas restantes avelãs picadas e pelo açúcar em pó. Leve-as a forno pré-aquecido a 180º durante 10 minutos.

Receita tirada daqui

sábado, fevereiro 25

Simone

Só fumava tabaco de enrolar. Fazia-o girar lentamente por entre as mãos que arranjava na manicure, que era uma rapariga que colocava lenços de papel no soutien para aumentar o decote. Só fumava tabaco de enrolar e camuflava a mediocridade com a voz colocada daqueles que ambicionam o poder. Citava frases feitas, que levava escritas em papéis dentro do bolso do casaco, enquanto sorria com os dentes amarelos para a manicure. Ela parava de lhe limar as unhas para o escutar. Uma vez disse,o Inferno são os outros, sabes? A rapariga suspirou de alívio e disse. Também gosto muito de Sartre. De Sartre e de tarte Tatin.

Tatin de Pêra



8-9 Pêras maduras, cortadas em quartos
100 g de manteiga sem sal
150g de açúcar
1 base de massa folhada redonda

Leve a manteiga e o açúcar numa frigideira ao lume, até fazer um caramelo ( este deverá ter uma cor âmbar escura. Se ficar muito escuro poderá sobrepor-se ao sabor suave das pêras). Junte as pêras cortadas em quartos de deixe caramelizar durante 5 minutos. Depois, começando numa ponta volte-as deixando caramelizar até reduzir o molho. Cubra com a massa folhada, voltando as extremidades para dentro. Leve ao forno pré-aquecido a 220º durante 15.a 29 minutos até a massa folhada ficar bem dourada.


Esta tarte entrou no desafio Dorie às Sextas que está a decorrer no Facebook.

quinta-feira, fevereiro 23

Por trás daquela janela

Por trás daquela janela há uma mesa de tampo de latão. Há a luz da cidade que pinga nos cortinados a imitar renda. Há os teus dedos esquecidos no cabedal do sofá. Há um tempo que cresce por entre os móveis e o cheiro a óleo de cedro. Um tempo que não se coa de impurezas, as memórias constroem-se assim, de luz e sombras.Há música aos domingos de manhã, e os teus dedos, longos e brancos que seguram no preto do vinil. Não sabia eu, que a musica que punhas viria um dia a ser as letras daquilo que escrevo. Por trás daquela janela  eu cresci no quarto de paredes cor de rosa. Ficavas à porta e não gostavas que ouvisse Zeca, lembras-te? Abriam-te feridas de uma guerra de que só ouviste falar. Demorei tantos círculos de tempo para compreendê-las. Foi o que pensei, hoje enquanto me tentava lembrar se gostavas de cravos brancos.




p.s Hoje a confeitaria não tem estórias de comer. Só retalhos de memória.

sexta-feira, fevereiro 17

Corin Tellado

A prima era uma rapariga gorda, de gengivas fartas e rosadas que lhe transbordavam sempre que sorria. Sentava-se ao topo da mesa da cozinha, a contar-lhe as proezas que fazia com os rapazes da praceta, enquanto comia pêssegos enlatados cobertos com massa de suspiro que a avó lhe deixava no frigorífico. Chamava-os pelo nome próprio, num tom de escárnio que lhe fazia tremer o canto da boca. E ficava ali, de perna traçada a encher o corpo com os pêssegos enquanto os olhos se esvaziavam de tudo. Depois, deixava o prato no lava-louça e perguntava-lhe, queres ler? Tirava os livros, guardados por debaixo dos panos da loiça, que comprava na papelaria à saída da escola. Compro um por semana, dizia-lhe. São estórias muito lindas. Eram estórias de paixões felizes vividas por mulheres de aspecto frágil e esguio. Ela ficava ali, ao topo da mesa da cozinha, com os olhos vazios a encherem-se de comoção, enquanto molhava o indicador com saliva para mudar as páginas. São histórias muito lindas. Às vezes os rapazes da praceta gritavam-lhe obscenidades. Ela fechava o livro e baixava os estores para não os ouvir. Depois suspirava e dizia, tenho fome.

Pêssegos com suspiro e amêndoa



1 lata de pêssegos em calda
3 claras
8 colheres de sopa de açúcar
80 g de miolo de amêndoa moído
2-3 colheres de sopa de licor de amêndoa amarga

Misture o licor com a amêndoa até obter uma pasta. Reserve.
Bata as claras em castelo e depois adicione o açúcar e bata até obter uma massa de suspiro consistente.
Escorra as metades de pêssego em calda, recheie as cavidades com a pasta de amêndoa e cubra com suspiro. Leve a forno pré-aquecido a150º durante cerca de 20 minutos.  

sexta-feira, fevereiro 10

Dafundo


O meu filho não passava sem casca de laranja a acompanhar o café. Dizia-lhe D. Natércia enquanto cortava o alinhavo com os dentes. A luz entrava a jorros pelo vidro martelado da marquise. O barulho da máquina de costura marcava o passar do tempo. Gustavo. A fotografia na moldura de estanho em cima da mesinha da sala. Gostava que o tivesses conhecido melhor. Dizia-lhe D. Natércia. Dele só se lembrava do barulho da chave na porta. Olá mãe, e o vulto de cabelo quase ruivo a sumir-se ao fundo do corredor. Mas conhecia-lhe a história, os gostos e hábitos pela voz de D. Natércia, enquanto chuleava as peças de tecido. Como se os olhos de um verde indefinido ganhassem vida para além da fotografia da mesinha e estivessem ali sobre ela, sobre os seus dedos picados pela agulha. Gustavo, dizia baixinho, adoçando-lho o nome na boca, que as coisas repetidas muitas vezes se tornam verdade. E sentia-lhe o cheiro das camisas, ainda penduradas no armário do quarto onde provavam as clientes. Acariciava-lhe o tecido, enquanto as senhoras se mudavam, e imaginava-lhe o toque da pele. Gustavo. Um eléctrico apanhara-o mesmo à porta do Aquário Vasco da Gama. Ao menos não sofreu, dizia D. Natércia enquanto disfarçava as lágrimas com a rinite alérgica. Tens umas mãos de fada, rapariga. Gostava que o tivesses conhecido melhor. E ela sorria, sempre que lhe deixava flores na campa. Com todo o meu amor.

Casca de laranja cristalizada



Casca de 3 a 4 laranjas
250 g de açúcar
250 ml de água
50 g açúcar granulado
Chocolate em barra

Corte as cascas de laranja em tiras muito fininhas. Ferva-as por três vezes sucessivas. Depois num tachinho, leve-as ao lume com o açúcar e a água. Deixe em lume brando até secar a calda. Depois deite-as num tabuleiro forrado com papel vegetal, polvilhe-as com o restante açúcar e leve-as  ao forno pré-aquecido a 80º até secarem.
Se desejar mergulhe-as em chocolate derretido em banho Maria

Receita adaptada de  Leonor Sousa Bastos