quarta-feira, abril 11

Laura


Usava tranças e tinha o rosto coberto de sardas. Levava maçãs para a escola. As mesmas que a mãe dela usava para fazer tartes E havia fumo sempre a sair da chaminé. A avisar que naquela cabana havia uma história. Do outro lado do ecrã, havia eu entre o sofá do canto e uma infância suburbana. Havia o Verão a começar para lá da varanda do segundo andar. As paredes quentes dos prédios espreguiçavam -se nas sombras da calçada. O que é uma pradaria, mãe? É um sítio sem árvores, na América. Deste lado do oceano e do tempo, não havia chapéus presos por fitas no pescoço, nem livros presos por cordéis. Chamava-se Laura e corria por entre gramíneas, que nesse tempo para mim eram apenas espigas, numa terra sem a sombra das árvores das quais eu ainda não sabia o nome. E imaginava o cheiro a maçã e canela por trás da porta de madeira que rangia. Na sala, o estalido da velha ventoinha a girar, tentando afastar o calor de Lisboa. Fazes tarte de maçã, mãe? Está calor para tartes. Come antes um gelado.


Gelado de tarte de maçã


 (aproximadamente  um litro de gelado)

400ml de natas
500ml de leite
6 gemas
200g de açúcar + 3 colheres de sopa
2 maçãs granny smith
30 g de manteiga sem sal
1 colher de sopa de vinho do porto
1 pau de canela
Bolachas de canela

Corte as maçãs em cubinhos. Leve a manteiga e as 3 colheres de sopa de açucar a caramelizar. Quando fizer caramelo junte as maçãs e o pau de canela e deixe-as caramelizar bem. Retire de lume e junte a colher de sopa de vinho do porto. Reserve
Leve metade das natas, do leite e do açúcar ao lume até levantar fervura. Depois adicione as restantes natas e leite. Bata as gemas com o restante açúcar e  vá adicionando a mistura de  natas e leite a poupo e pouco às gemas. Leve o preparado ao lume até engrossar um pouco. Junte o caramelo de maçã e deixe arrefecer completamente no frio. Depois leve à sorveteira e sirva com bolachas de canela picada.


Esta história de ler de comer é a minha participação no desafio Convidei para Jantar.., que tem agora como anfitriã  a Su do Suvelle Cuisine. O tema desta vez eram personagens de desenhos animados. Fugi um bocadinho, mas " Uma casa na pradaria" foi uma das série preferidas da minha infância e cpmvidei para jantar a Laura Ingalls de Uma Casa na Pradaria.





segunda-feira, abril 9

Doppler

Vivia numa rua em Alcântara, perto do Calvário. Mesmo por cima da loja que vendia Morangos em Maio e alguidares de barro todo o ano.  Todas as manhãs, da janela da sala, onde apenas cabia o tempo do sofá coçado e a vista para a ponte, via ser desenrolado o  toldo cor de laranja. Bastava-lhe o primeiro chiar enferrujado para se chegar à janela. Lá em baixo,  a cabeça cor de baunilha oleosa acenava a quem passava. Bom dia, senhor Ernesto, dizia. Ele dobrava a manivela e encostava-a à parede descascada. Bom dia, menina. .   Depois ficava os minutos que lhe sobravam até ser hora do autocarro, a ver os carros afastarem-se na ponte.  Embalava-a,  aquele som que se perdia até ao outro lado do rio.  É o efeito de Doppler, dissera-lhe um dia um dos alunos que passara pela sua cama.  Não se lembrava do rosto dele. Mas lembrava-se da voz tímida, sentada, em tronco nu, no sofá coçado da sala. É o efeito de Doppler, repetira, tão a  medo,  como lhe tocara no corpo nessa noite. A percepção das noites esbatia-se quando eles se afastavam do quarto, dobrando a esquina da rua. Depois, esquecia-se do rosto de todos eles.  É o efeito de Doppler, murmurou. Lá em baixo uma velha escolhia um alguidar de barro. 


Junho de 2011 ( Deserto do Mundo)






Compota de morango e baunilha








1200 g de morangos
200 g de açúcar granulado
250 g de açúcar com pectina
1 vagem de baunilha


Lave e corte os morangos. Deite-os numa tigela juntamente com o açúcar granulado e  as sementes que raspou da vagem de baunilha. Deixe a macerar no frigorífico pelo menos 8 horas. Depois, leve ao lume com o açúcar com pectina e deixe ferver em lume muito brando durante  cerca de 10 minutos. Triture. Leve de novo a lume brando até fazer ponto ( quando deitar uma pequena porção num pires, este deverá fazer estrada se passar com uma colher).
Deite em frascos esterilizados.





quinta-feira, abril 5

Violeta


Às quintas à noite levava a tábua de passar a ferro para a sala. Abria a janela e enquanto esperava que o ferro aquecesse, abria-se a janela da casa ao lado. Amami, Alfredo. Semicerrava os olhos e molhava o indicador na saliva para experimentar a temperatura do ferro. Amami, Alfredo. Passa o dia a ouvir ópera, dizia-lhe a sobrinha que fazia a limpeza da casa dele, às quartas-feiras. Senta-se no sofá, e fica ali de olhos fechados a ouvir discos atrás de discos. Diz que estudou para cantor, mas acabou numa repartição qualquer. Nem sei se é viúvo, ou solteiro. Mas é muito asseado. Ela, tirava uma camisa e imaginava-o. De olhos tão verdes como o rasto de água-de-colónia que deixava nas escadas quando passava. Cheirava a amêndoas. Dele só lhe conhecia o vulto que via pelo óculo da porta, e as camisas que a sobrinha lhe trazia para passar. Encontrara-o apenas uma vez na mercearia, mas baixara os olhos ao lhe ver a nuca no pescoço atarracado, para que não estragasse a imagem que a vinha buscar às quintas à noite. Dobrava delicadamente o cheiro da camisa lavada, imaginando a notas de colónia entranhando-se no algodão ao longo da rotina dos dias. Depois, a música parava. Ouvia-lhe os passos na varanda e o estalido surdo do isqueiro. Guardava a tábua e sentava-se de costas para o vidro da janela inspirando o cheiro de amêndoas que música lhe deixara na sala.




Torta com creme de amêndoa



Para a torta:

4 ovos inteiros
150g de açúcar
75 g de farinha com fermento

Bata os ovos inteiros com o açúcar durante 10 minutos. Envolva cuidadosamente a farinha peneirada. Leve a forno pré-aquecido a 170º ,  num tabuleiro forrado a papel vegetal ( que deve ser untado com manteiga) durante 10 minutos.

Para o creme:
6 gemas
125g de amêndoa moída
200g de açúcar
100 ml de água
1 colher de sopa de licor de amêndoa amarga
1 pau de canela

Leve o açúcar, a água e a canela num tachinho ao lume. Deixe ferver em lume brando durante 10 minutos e junte a amêndoa. Deixe arrefecer e junte as gemas eleve de novo ao lume até engrossar. Retire e adicione o licor.
Deite o creme sobre o bolo, e enrole –o. Polvilhe com açucar em pó e decore com amêndoas laminadas.





sexta-feira, março 30

Mendelssohn




No terceiro andar vivia uma mulher com dois filhos. Um rosto quase bonito, quase sem idade que emoldurava uma voz quase doce. Que se arrastava num quase murmúrio pelos lances de escadas, deixando o perfume caro a impregnar as paredes cobertas de minúsculos vidros coloridos. Estas paredes parecem de papel, ouve-se tudo, dizia se alguma conversa de vizinhança se prolongava entre os andares. Os vizinhos encolhiam os ombros com ironia, e perguntavam-lhe pelo marido que nunca viam, só ouviam às sextas-feiras à noite. Trabalha no Porto, coitado. Só pode vir a casa ao fim de semana, respondia mesmo sabendo que eles lhe ouviam os gritos e os choros de domingo de madrugada e lhe olhavam para as mãos sem aliança. É uma canseira, esta vida, dizia enquanto pousava os sacos das compras de onde rebolavam sempre maracujás engelhados e castanhos. Ele adora maracujá. É a única fruta que come. Os vizinhos sorriam de novo e ela repetia em tom de justificação. Mas estas paredes são de papel. Ouve-se tudo. Depois pegava nos sacos e os vizinhos ficavam a ouvir a porta do terceiro a andar abrir-se. A mesma que se fechava abruptamente todos os domingos de madrugada depois dos gritos, deixando um rasto de maracujá e soluços atrás dos passos. Que desciam as escadas de dois em dois degraus, assobiando uma marcha nupcial que nunca acontecia.


Tartes  de maracujá



1 receita de massa quebrada ou uma embalagem de massa quebrada
350 g de polpa de marcujá
1 lata de leite condensado
3 gemas
Açucar mascavado

Forre forminhas de tarte com a massa quebrada. Leve a forno pré-aquecido a 180º, cobertas por papel vegetal e grão de bico ( ou contas de porcelana) , durante 15 minutos. Entretanto leve ao lume o leite condensado com a polpa de maracujá  e as gemas até fazer ponto de estrada. Deite sobre as tartes já arrefecidas. Quando o recheio estiver frio, polvilhe com o açúcar mascavado e queime com um maçarico ou ferro de leite creme.

domingo, março 25

Uma história sem idade.

Não acertava os relógios, os inúmeros relógios que tinha espalhados pela casa. Deixava-os assim, uns com hora de Verão, outros com hora de Inverno. Da janela da casa branca onde vivia, via-se a aldeia que só contava histórias de granito e de gente pobre. Afastava o cortinado de linho bordado num enxoval qualquer e ficava a ver as pessoas, iguais a tantas outras pessoas a passarem ao longo do tempo da sua casa. As pessoas lá em baixo olhavam-no. É o velho da casa branca. Os que o pensavam louco tinham medo. Os que não tinham,  inventavam-lhe proezas e anos que nunca haveria de ter. Atrás da janela do velho, ao fundo da única sala sem relógios havia um sofá de flores, que pareciam camélias por desbotar. Nesse sofá sentava-se uma mulher sem rosto que fazia todos os dias bolos para um chá onde não aparecia ninguém. Tendia-os nas mãos com o carinho de quem nunca afagara mais nada para além de açúcar e farinha. Depois servia-os num prato de  rebordo dourado e trazia-os pelo corredor escuro,  arrastando o cheiro a limão por entre a corda dos relógios que ficava por dar. O velho fechava a cortina da janela e esperava a badalada de uma qualquer hora para se sentar. Cá fora, para além dos cortinados de linho corria um tempo de sessenta partes que se media em rostos iguais.

Bolachinhas de limão com lemon curd


175g de manteiga sem sal
225g de farinha sem  fermento
100g de açúcar em pó
75 g de amêndoa moída
1 colher de chá de raspa de limão
1 colher sopa de sumo de limão
1 ovo grande
1 colher de chá de fermento em pó
Pitada  de sal fino
1 chávena de lemon curd

Deite o açúcar com a amêndoa num robot de cozinha e misture-a bem. Junte a manteiga bem amolecida e bata bem. Junte o ovo, a raspa  e o sumo de limão e bata. Adicione a farinha, o sal e o fermento. Lev e ao frio pelo menos uma hora. Depois tenda bolinhas, achate-as na mãos e com o indicador faça um buraco no meio. Coloque-as num tabuleiro forrado com papel vegetal e com preencha os buracos com lemon curd. Leve-as a forno pré-aquecido durante cerca de 15 minutos e depois de frias polvilhe-as com açúcar em pó.

Esta receita foi mais uma contribuição para o desafio Dorie às Sextas

quarta-feira, março 21

Turdus merula


Para ela todas as aves eram pássaros e deixava sempre as portas das gaiolas abertas. Não tens medo que fujam, avó? Não gosto de trancas, dizia enquanto aquecia uma rola entre o peito e a combinação de renda.  Depois enchia a boca com água e deixava que bebessem da sua boca. Não tens medo que te piquem, avó? Ela sorria e abanava a cabeça devagarinho, que os pássaros não gostam de gestos bruscos e fazia um sinal com os dedos longos de quem já tocara piano. Traziam-lhe o velho gira discos de tampa de abrir. Se a tarde já estivesse no fim, cheia daquela luz que pinga sombras nas folhas das árvores, dizia, põe Debussy que os melros gostam. Depois esfarelava as madalenas feitas de manhã cedo, entre o polegar e o indicador e punha as migalhas entre os lábios. É assim que comem no ninho. Os melros iam-se chegando  devagar, com a sua cabeça negra  inclinada de receio. Ela, fechava a porta da casa e desligava os aparelhos por detrás das orelhas. Assim não ouves a música, avó. Nem o silêncio da casa, dizia.


Madalenas com morangos


150g de farinha sem fermento
150g de manteiga sem sal
100g de açúcar
4 ovos
Raspa de uma laranja
Raspa de meio limão
1 colher de chá de baunilha
1 colher de chá de fermento em pó
Pitada de sal fino

250g de morangos
½ chávena de açúcar
½ chávena de água
1 vagem de baunilha
2 colheres de sopa de sumo de laranja

Bata a manteiga com o açúcar e junte os ovos inteiros, um a um. Junte as raspas e a baunilha e misture. Peneire a farinha com o fermento e o sal e envolva cuidadosamente. Leve ao forno, pré-aquecido a 200ºc durante 10 minutos.
Corte os morangos e pedaços pequenos. Reserve. Leve ao lume o açúcar com aá  gua e a vagem de baunilha aberta. Deixe ferver 5 minutos em lume brando. Retire do lume e deixe arrefecer. Junte o sumo de laranja, deite sobre os morangos  e leve-os aos frio a macerar durante a noite ( ou peno menos 4 horas).
Sirva com as madalenas.

Adaptado de French Food at Home, Laura Calder.






sexta-feira, março 16

Algés

A oficina ficava perto da estação de comboio. De manhã, ele abria com as suas mãos de quatro dedos, as portas azuis, que deixavam cair mais umas escamas de tinta na calçada. Varria as aparas de madeira e trazia as cadeiras envernizadas para o alpendre. Ficava uns instantes à porta e acenava ao cigano que no Inverno vendia chapéus de chuva à entrada do túnel para a estação. No Verão vendia bóias e chapéus de sol. Adeus Alfredo, dizia-lhe. O cigano sorria e respondia. Já aí vou. O marceneiro ficava uns instantes à porta, a ver as pessoas a entrarem apressadas no túnel da estação. De onde se ouvia a musica desafinada do cego do acordeão. Os dias delas corriam mais depressa que os seus. Que se arrastavam por entre o cheiro pegajoso de verniz e as aparas que se acumulavam lentas, no chão da oficina. Depois do último comboio da manhã o cigano chamava-o à porta com duas cervejas na mão. Sentavam-se nas cadeiras do alpendre, bebendo as cervejas pelo gargalo. Em silêncio. Até que o marceneiro apontava para a marisqueira do outro lado da rua e dizia-lhe. Quando vender uma mobília de quarto pago a uma mulher e vou ali jantar. Nunca comi lagosta, nem sei a que sabe, dizia-lhe o cigano. O marceneiro suspirava e punha a garrafa vazia debaixo da cadeira. E eu ainda não sei a que sabe o corpo de uma mulher.

(Deserto do Mundo, 26/10/2010)

Hoje, enquanto compilava os textos do Deserto do Mundo para o encerrar, lembrei-me do sabor do chocolate branco da minha infância. E lembrei-me da estação de comboio de Algés em frente à praça. Havia gente e cheiro a fruta nas bancas. E havia eu, de olhos derretidos no chocolate que comia.



Queques de chocolate branco e framboesa






125g de manteiga sem sal
100 de açucar
2 ovos inteiros
225g de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
pitada de sal fino
2 colheres de sopa de leite
1 colher de chá de baunilha
100 de chocolate branco partido em pedacinhos
doce de framboesa

Pré-aqueça o forno a 180º. Bata a manteiga com o açúcar até ficar bem cremoso. Junte os ovos e misture bem. Junte o leite e a baunilha e o chocolate branco.Adicione cuidadosamente a farinha previamente misturada com o fermento e com o sal. Coloque um caixinha de papel e cada uma das forminhas de queque e encha até 2/3 com  massa. Deite uma colher de chá de doce de framboesa ( de preferência com pouco açúcar) e com um palito marmoreie a superfície. Leve ao forno durante cerca de 20 minutos.

terça-feira, março 13

F.


A cozinha tinha um cortinado com flores azuis, pendurado por um esticador retorcido numa das pontas.  Havia um bolo de ananás que cheirava a anos 50 e a recordações do outro lado do hemisfério. Chegavas às Sextas-feiras vestida na tua farda castanha. Eu, no meu mundo aparentemente sem fardas mas tão cheio de regras, abria-te a porta (quero imaginar com um sorriso, porque quando escrito o sorriso tem sabor de metáfora). Vinhas de um mundo estranho, de aparente clausura. Sentávamo-nos na  contra-luz da porta que dava para a varanda, comíamos bolo e crescíamos a ser aquilo que esperavam de nós.  Eu abria-te as páginas a preto e branco do livro de receitas sem capa que a minha mãe guardava no móvel da sala. O mundo a preto e branco das nossas mães era longínquo com o bafio absurdo do que nunca seria. Pensas demais, dizias enquanto dançavas com gestos teatrais à volta da mesa da sala. Passou mais uma sexta feira e lembrei-me de ti. Quis que tocasses à campainha  do meu segundo andar que  agora é um rés-do-chão do que é suposto. E servia-te uma fatia de bolo, que no meu silêncio contido, é como quem diz: fazes-me falta.

Bolo Piña-Colada


1 lata  grande de ananás em calda
200g de manteiga
200g de açucar
150 g de farinha
100g de coco ralado
50 ml de rum anejo
5 ovos inteiro
Caramelo q.b

Unte uma forma redonda com manteiga. Faça um caramelo com 1 chávena de açucar e ½ chávena de agua e cubra as paredes da forma com este caramelo. Escorra as fatias de ananás e forre a forma com as mesmas.
Bata a manteiga com o açucar, junte o os ovos e depois o rum e o coco. Adicione cuidadosamente a farinha.
Leve a forno pré-aquecido a 160º durante cerca de uma hora
Adaptado de Receitas da TV, Maria de Lurdes Modesto.

Esta estória de ler e de comer, inserem-se na 2ª edição do desafio:Convidei para jantar  a decorrer nos gourmets amadores. E a convidada foi a Maria de Lurdes Modesto




sexta-feira, março 9

Sete Palmos

Não gosto de doces, dizes enquanto afastas delicadamente a taça de pudim de chocolate. Não gosto de doces, murmuras sempre que uma mulher gorda se cruza contigo na rua. Tens pena delas, afirmas. Das camadas de gordura que lhes soterram o amor-próprio sete palmos abaixo do amor dos outros. Baixas os olhos com náusea e imaginas-lhes os corpos leitosos e fartos, que não suportam o calor nem o olhar dos outros. Não gosto de doces, e esforças-te para mostrar uma expressão de náusea. Talvez assim não vejam as camadas invisíveis da gorda que foste te deixaram na forma com que afastas dos abraços para que não sintam o tamanho do corpo que já não tens. Não gosto de doces, repetes com a raiva que a mulher da frente te desperta, só por lamber a colher com lentidão húmida de que não se importa com os outros. Os outros não vêm mais nada para além do que está por fora, lembras-te? São os outros quem combates quando a vontade de comer sofregamente volta. Não, não tens complexos. O único problema é que não gostas de doces.


Pudim de chocolate com framboesa






500m de leite
6 colheres de sopa de açúcar
2 colheres de sopa de farinha maizena
pitada de sal fino
1 ovo + 4 gemas
200g de chocolate
2 colheres de sopa de manteiga sem sal
1 colher de chá de extracto de baunilha
1 chávena de framboesas congeladas + 2 colheres de sopa de açúcar

Leve as framboesas num tachinho ao lume com o açúcar e duas colheres sopa de água e deixe ferver em lume brando por 10 minutos. Coe este puré por um passador e reserve.
Leve o leite ao lume sem deixar levantar fervura. Misture metade do açúcar com o sal e maisena. Bata a restante metade com os ovos. Misture tudo num robot de cozinha e junte o leite em fio. Leve o chocolate a derreter com a manteiga e adicione. Junte a baunilha e o puré de framboesa. Leve ao frio pelo menos 2 a 3 horas. Pode servir com mais puré de framboesa e natas batidas.




Mais uma receita para o desafio Dorie às sextas.

domingo, março 4

Grená

Todas as manhãs, à hora do intervalo, aparecia ao portão de vestido garrido e olhos pintados de verde berrante. Entregava a lancheira com pão com creme de chocolate por entre as grades ao filho. Uma criança gorda e belfa, que corria com os joelhos para dentro e usava uma pulseirinha de prata com o nome gravado no pulso branco e leitoso. Luís Filipe. Ficava sentado, sozinho no banco por debaixo do alpendre da escola de boca e dedos lambuzados pelo chocolate. Foi o melhor que lhe aconteceu, diziam as contínuas de braços cruzados  por debaixo dos casacos de malha que usavam apenas por cima dos ombros. E ela afastava-se no seu vestido garrido deixando um rasto enjoativo a perfume. Recebeu uma fortuna do seguro de vida do marido. Morreu logo, num cruzamento lá para os lados de Alcobaça. Luís Filipe continuava sentado no banco de pedra, deixando dedadas de chocolate nos óculos, sempre que os ajeitava. Foi o melhor que lhe aconteceu. Dizem que o marido a trancava em casa com os ciúmes. Agora não pára em casa. Ela dobrava a esquina no seu passo lento e leve e eu ficava a lembrar-lhe as mãos longas de unhas pintadas de um vermelho intenso quase grená,  que afagavam todos os dias o rosto do filho. Umas mãos  tão diferentes das mãos das contínuas que se sentavam à porta da sala a fazer rosetas de croché para colchas intermináveis.  Luís Filipe levantava-se, limpava o chocolate da boca e juntava-se aos outros. Ela, a mãe, seguia sozinha com as suas mãos de unhas longas e vermelhas libertas na cor do vestido.

Lembrei-me disto, ontem, quando me perguntaram quando é que tinha começado a escrever. 


Bolachas de Nutella



Para cerca de 18 bolachas

190g de farinha
1colher de chá de fermento em pó
1 colher de sopa de cacau
150g de Nutella
30g de manteiga sem sal
125 g de açúcar
1 ovo
30 ml de leite
1 colher de sopa de café expresso
150g de avelãs
70 g de açúcar em pó
pitada de sal

Bata o Nutella com a manteiga e o açúcar. Junte ovo, o café e o leite e bata até obter um creme bem fofo. Misture a farinha, o fermento e sal e junte à mistura anterior. Junte metade das avelãs picadas. Leve ao frio pelo menos durante 2 horas. Depois tenda bolinhas e passe-as pelas restantes avelãs picadas e pelo açúcar em pó. Leve-as a forno pré-aquecido a 180º durante 10 minutos.

Receita tirada daqui