domingo, abril 22

Oxalá




Não sabemos parar. As imagens em movimento param-nos o pensamento e por isso colamos o rosto no vidro da vida, vendo-a suceder em fotogramas que se arrastam nos olhos. Num banco de trás de um carro conduzido por um destino qualquer, sem rosto, porque tem de ser.  Queres chá? Há uma mesa que se põe nos  últimos dias de uma casa. Fico a ver o vapor encaracolar-se numa ideia qualquer enquanto esfarelo o miolo do scone com os dedos. Há uma casa que se esvazia do seu vazio de molduras e passado. Sem açúcar, por favor. A colher gira no liquido âmbar da chávena ao ritmo dos olhos que escorrem no pretérito das paredes brancas. Não  inflectimos, porque o destino é um recta  sem funções quadráticas.  Olha que arrefece.  A vida curva-se no linear do que devia ter sido. Lá fora o ar enche-se de uma cor de chumbo.  Amanhã já deve abrir, a chávena esquece-se em cima da mesa. Os recomeços têm sempre um principio frio.

Scones  de maçã e nozes



1 ovo
100ml natas
75 ml sumo maçã
300g de farinha sem fermento
2 colheres de sopa de açúcar
3 colheres de chá de fermento + 2 colheres de chá de cremor tártaro
¼ de colher de chá de sal
100g de manteiga sem sal
1 chávena de nozes picadas
1 chávena de maçã seca

Misture os ingredientes secos: farinha, açúcar, fermento, cremor tártaro e sal. Junte a manteiga e esfarele-a com as pontas dos dedos. Misture os líquidos ( ovo, natas, sumo de maçã) e junte-os  à mistura anterior. Trabalhe pouco a massa, apenas o suficiente para unir os ingredientes. Depois junte as nozes e maçã e envolva na massa. Estenda a massa e dobre-a em quatro e estenda-a de nove. Corte com um cortador redondo e leve ao forno pré-aquecido a 180º até ficarem dourados.


Esta foi mais uma participação nas Dories às Sextas

quarta-feira, abril 18

Domingo


Ao fundo da sala havia uma janela de portadas de madeira branca, com vista sobre os outros terceiros andares. Havia um móvel escuro cheio de prateleiras vazias de livros, onde habitavam molduras que construíam a história de uma família a nitrato de prata.  Naquela sala aconteciam apenas três dias na semana. Nos dois primeiros,  vinha a empregada que fazia a limpeza. Abria a janela deixando entrar o ruido da luz da manhã. Cheira a bolos, dizia enquanto espreitava as pessoas que saiam da pastelaria em frente. Quando era nova comia muitos, cheio de chantilly. E deixava a cidade escorrer no soalho velho enquanto levava o balde  para o outro lado da casa.  No último dia, dessas semanas longas de apenas três dias, vinha o filho. Abria a janela para deixar entrar as memórias de infância e deixar sair o cheiro bafiento do tempo parado. Cheira a bolos. E a chocolate, talvez, dizia.  Lá em baixo as pessoas regressavam da missa, debaixo do repicar dos sinos. Não lhe cheira a bolos, mãe? Ela sentada num canto solarengo da sala desde o princípio dos dias, dizia que não, com a mão trémula e engelhada. Ele juntava-lhe as pernas manchadas e fracas, pegava-a ao colo e trazia até à varanda. Faz-lhe bem apanhar ar. Ela franzia as pálpebras grossas e punha a mão em pala enquanto respirava o ar que pingava na folhagem dos plátanos.  E agora? Já lhe cheira a bolos?  Ela sorria acenando com a cabeça. Comia um. Mas só depois da missa.


Sanduíches de chantilly e morangos




125 g de farinha com fermento
100g de chocolate em barra
150 g de açúcar
4 ovos inteiros
80g de manteiga sem sal
3 colheres de sopa de cacau
1 pacote de natas frescas
2 claras
4 colheres de sopa de açucar
Raspa de laranja
250 g morangos

Derreta o chocolate com a manteiga. Bata os ovos com o açucar e adicione o chocolate derretido. Deite a farinha e o cacau e envolva cuidadosamente. Leve ao forno, pré aquecido a 180º até que espetando um palito este saia seco. Deixe arrefecer complcatamente. Bata as claras em castelo e junte açucar. Bata até ficarem firmes. Bata as natas e junte a mistura de merengue e a raspa de laranja. Corte os marangos e pedaços pequenos e misture. Leve ao frio.
Com um cortador de bolachas, corte rodelas do bolo e recheie com chantilly

sexta-feira, abril 13

Retorno


As estórias dele só poderiam ter acontecido lá. Porque tinham um lugar. Um cheiro. Um céu. As dela podiam ser em qualquer parte do mundo. As estórias dele não cabiam no velho saco da TAP. Transbordavam, sempre que ele guardava lá dentro mais um objecto inútil, daqueles que esperam serem úteis um dia.Nunca eram. As estórias dela cabiam, arrumadas, no álbum de fotografias. Todas elas tiradas dentro de casa, todas elas cheiravam a quotidiano. A roupa estreada, a receita levada em travessa de enxoval ao lanche com as pessoas de sempre. Ele todos os dias olhava para o velho saco da TAP, arrumado no canto escuro da dispensa. Continua cheio, pensava. E para que não transbordasse, por vezes desdobrava as suas recordações em forma de estórias. Que tinham rectas intermináveis e jacarandás em flor. Que sabiam a cerveja e conversas ao fim da tarde. Ela por vezes lembrava-se do seu álbum. Já lá não cabe mais nada. O retorno já foi feito, pensava. E encolhendo os ombros, dizia. Nunca me dei bem com o calor de lá . 

(Deserto do Mundo, Março de 2010)

Lembrei-me desta história enquanto esperava pacientemente que o doce de leite fizesse ponto. A baunilha e a lentidão do tempo têm destas coisas.

Doce de  Leite



1 litro de leite gordo
500g de açúcar
1 vagem de baunilha
1 colher de café de bicarbonato de sódio

Leve o leite, o açúcar e a baunilha ao lume. Quando levantar fervura adicione o bicarbonato ( tenha o cuidado de fazer isto num tacho grande, porque a reacção faz aumentar o volume). Leve novamente ao lume, muito brando, até fazer ponto. ( Ao fim de cerca de 1h e 30 minutos )

quarta-feira, abril 11

Laura


Usava tranças e tinha o rosto coberto de sardas. Levava maçãs para a escola. As mesmas que a mãe dela usava para fazer tartes E havia fumo sempre a sair da chaminé. A avisar que naquela cabana havia uma história. Do outro lado do ecrã, havia eu entre o sofá do canto e uma infância suburbana. Havia o Verão a começar para lá da varanda do segundo andar. As paredes quentes dos prédios espreguiçavam -se nas sombras da calçada. O que é uma pradaria, mãe? É um sítio sem árvores, na América. Deste lado do oceano e do tempo, não havia chapéus presos por fitas no pescoço, nem livros presos por cordéis. Chamava-se Laura e corria por entre gramíneas, que nesse tempo para mim eram apenas espigas, numa terra sem a sombra das árvores das quais eu ainda não sabia o nome. E imaginava o cheiro a maçã e canela por trás da porta de madeira que rangia. Na sala, o estalido da velha ventoinha a girar, tentando afastar o calor de Lisboa. Fazes tarte de maçã, mãe? Está calor para tartes. Come antes um gelado.


Gelado de tarte de maçã


 (aproximadamente  um litro de gelado)

400ml de natas
500ml de leite
6 gemas
200g de açúcar + 3 colheres de sopa
2 maçãs granny smith
30 g de manteiga sem sal
1 colher de sopa de vinho do porto
1 pau de canela
Bolachas de canela

Corte as maçãs em cubinhos. Leve a manteiga e as 3 colheres de sopa de açucar a caramelizar. Quando fizer caramelo junte as maçãs e o pau de canela e deixe-as caramelizar bem. Retire de lume e junte a colher de sopa de vinho do porto. Reserve
Leve metade das natas, do leite e do açúcar ao lume até levantar fervura. Depois adicione as restantes natas e leite. Bata as gemas com o restante açúcar e  vá adicionando a mistura de  natas e leite a poupo e pouco às gemas. Leve o preparado ao lume até engrossar um pouco. Junte o caramelo de maçã e deixe arrefecer completamente no frio. Depois leve à sorveteira e sirva com bolachas de canela picada.


Esta história de ler de comer é a minha participação no desafio Convidei para Jantar.., que tem agora como anfitriã  a Su do Suvelle Cuisine. O tema desta vez eram personagens de desenhos animados. Fugi um bocadinho, mas " Uma casa na pradaria" foi uma das série preferidas da minha infância e cpmvidei para jantar a Laura Ingalls de Uma Casa na Pradaria.





segunda-feira, abril 9

Doppler

Vivia numa rua em Alcântara, perto do Calvário. Mesmo por cima da loja que vendia Morangos em Maio e alguidares de barro todo o ano.  Todas as manhãs, da janela da sala, onde apenas cabia o tempo do sofá coçado e a vista para a ponte, via ser desenrolado o  toldo cor de laranja. Bastava-lhe o primeiro chiar enferrujado para se chegar à janela. Lá em baixo,  a cabeça cor de baunilha oleosa acenava a quem passava. Bom dia, senhor Ernesto, dizia. Ele dobrava a manivela e encostava-a à parede descascada. Bom dia, menina. .   Depois ficava os minutos que lhe sobravam até ser hora do autocarro, a ver os carros afastarem-se na ponte.  Embalava-a,  aquele som que se perdia até ao outro lado do rio.  É o efeito de Doppler, dissera-lhe um dia um dos alunos que passara pela sua cama.  Não se lembrava do rosto dele. Mas lembrava-se da voz tímida, sentada, em tronco nu, no sofá coçado da sala. É o efeito de Doppler, repetira, tão a  medo,  como lhe tocara no corpo nessa noite. A percepção das noites esbatia-se quando eles se afastavam do quarto, dobrando a esquina da rua. Depois, esquecia-se do rosto de todos eles.  É o efeito de Doppler, murmurou. Lá em baixo uma velha escolhia um alguidar de barro. 


Junho de 2011 ( Deserto do Mundo)






Compota de morango e baunilha








1200 g de morangos
200 g de açúcar granulado
250 g de açúcar com pectina
1 vagem de baunilha


Lave e corte os morangos. Deite-os numa tigela juntamente com o açúcar granulado e  as sementes que raspou da vagem de baunilha. Deixe a macerar no frigorífico pelo menos 8 horas. Depois, leve ao lume com o açúcar com pectina e deixe ferver em lume muito brando durante  cerca de 10 minutos. Triture. Leve de novo a lume brando até fazer ponto ( quando deitar uma pequena porção num pires, este deverá fazer estrada se passar com uma colher).
Deite em frascos esterilizados.





quinta-feira, abril 5

Violeta


Às quintas à noite levava a tábua de passar a ferro para a sala. Abria a janela e enquanto esperava que o ferro aquecesse, abria-se a janela da casa ao lado. Amami, Alfredo. Semicerrava os olhos e molhava o indicador na saliva para experimentar a temperatura do ferro. Amami, Alfredo. Passa o dia a ouvir ópera, dizia-lhe a sobrinha que fazia a limpeza da casa dele, às quartas-feiras. Senta-se no sofá, e fica ali de olhos fechados a ouvir discos atrás de discos. Diz que estudou para cantor, mas acabou numa repartição qualquer. Nem sei se é viúvo, ou solteiro. Mas é muito asseado. Ela, tirava uma camisa e imaginava-o. De olhos tão verdes como o rasto de água-de-colónia que deixava nas escadas quando passava. Cheirava a amêndoas. Dele só lhe conhecia o vulto que via pelo óculo da porta, e as camisas que a sobrinha lhe trazia para passar. Encontrara-o apenas uma vez na mercearia, mas baixara os olhos ao lhe ver a nuca no pescoço atarracado, para que não estragasse a imagem que a vinha buscar às quintas à noite. Dobrava delicadamente o cheiro da camisa lavada, imaginando a notas de colónia entranhando-se no algodão ao longo da rotina dos dias. Depois, a música parava. Ouvia-lhe os passos na varanda e o estalido surdo do isqueiro. Guardava a tábua e sentava-se de costas para o vidro da janela inspirando o cheiro de amêndoas que música lhe deixara na sala.




Torta com creme de amêndoa



Para a torta:

4 ovos inteiros
150g de açúcar
75 g de farinha com fermento

Bata os ovos inteiros com o açúcar durante 10 minutos. Envolva cuidadosamente a farinha peneirada. Leve a forno pré-aquecido a 170º ,  num tabuleiro forrado a papel vegetal ( que deve ser untado com manteiga) durante 10 minutos.

Para o creme:
6 gemas
125g de amêndoa moída
200g de açúcar
100 ml de água
1 colher de sopa de licor de amêndoa amarga
1 pau de canela

Leve o açúcar, a água e a canela num tachinho ao lume. Deixe ferver em lume brando durante 10 minutos e junte a amêndoa. Deixe arrefecer e junte as gemas eleve de novo ao lume até engrossar. Retire e adicione o licor.
Deite o creme sobre o bolo, e enrole –o. Polvilhe com açucar em pó e decore com amêndoas laminadas.





sexta-feira, março 30

Mendelssohn




No terceiro andar vivia uma mulher com dois filhos. Um rosto quase bonito, quase sem idade que emoldurava uma voz quase doce. Que se arrastava num quase murmúrio pelos lances de escadas, deixando o perfume caro a impregnar as paredes cobertas de minúsculos vidros coloridos. Estas paredes parecem de papel, ouve-se tudo, dizia se alguma conversa de vizinhança se prolongava entre os andares. Os vizinhos encolhiam os ombros com ironia, e perguntavam-lhe pelo marido que nunca viam, só ouviam às sextas-feiras à noite. Trabalha no Porto, coitado. Só pode vir a casa ao fim de semana, respondia mesmo sabendo que eles lhe ouviam os gritos e os choros de domingo de madrugada e lhe olhavam para as mãos sem aliança. É uma canseira, esta vida, dizia enquanto pousava os sacos das compras de onde rebolavam sempre maracujás engelhados e castanhos. Ele adora maracujá. É a única fruta que come. Os vizinhos sorriam de novo e ela repetia em tom de justificação. Mas estas paredes são de papel. Ouve-se tudo. Depois pegava nos sacos e os vizinhos ficavam a ouvir a porta do terceiro a andar abrir-se. A mesma que se fechava abruptamente todos os domingos de madrugada depois dos gritos, deixando um rasto de maracujá e soluços atrás dos passos. Que desciam as escadas de dois em dois degraus, assobiando uma marcha nupcial que nunca acontecia.


Tartes  de maracujá



1 receita de massa quebrada ou uma embalagem de massa quebrada
350 g de polpa de marcujá
1 lata de leite condensado
3 gemas
Açucar mascavado

Forre forminhas de tarte com a massa quebrada. Leve a forno pré-aquecido a 180º, cobertas por papel vegetal e grão de bico ( ou contas de porcelana) , durante 15 minutos. Entretanto leve ao lume o leite condensado com a polpa de maracujá  e as gemas até fazer ponto de estrada. Deite sobre as tartes já arrefecidas. Quando o recheio estiver frio, polvilhe com o açúcar mascavado e queime com um maçarico ou ferro de leite creme.

domingo, março 25

Uma história sem idade.

Não acertava os relógios, os inúmeros relógios que tinha espalhados pela casa. Deixava-os assim, uns com hora de Verão, outros com hora de Inverno. Da janela da casa branca onde vivia, via-se a aldeia que só contava histórias de granito e de gente pobre. Afastava o cortinado de linho bordado num enxoval qualquer e ficava a ver as pessoas, iguais a tantas outras pessoas a passarem ao longo do tempo da sua casa. As pessoas lá em baixo olhavam-no. É o velho da casa branca. Os que o pensavam louco tinham medo. Os que não tinham,  inventavam-lhe proezas e anos que nunca haveria de ter. Atrás da janela do velho, ao fundo da única sala sem relógios havia um sofá de flores, que pareciam camélias por desbotar. Nesse sofá sentava-se uma mulher sem rosto que fazia todos os dias bolos para um chá onde não aparecia ninguém. Tendia-os nas mãos com o carinho de quem nunca afagara mais nada para além de açúcar e farinha. Depois servia-os num prato de  rebordo dourado e trazia-os pelo corredor escuro,  arrastando o cheiro a limão por entre a corda dos relógios que ficava por dar. O velho fechava a cortina da janela e esperava a badalada de uma qualquer hora para se sentar. Cá fora, para além dos cortinados de linho corria um tempo de sessenta partes que se media em rostos iguais.

Bolachinhas de limão com lemon curd


175g de manteiga sem sal
225g de farinha sem  fermento
100g de açúcar em pó
75 g de amêndoa moída
1 colher de chá de raspa de limão
1 colher sopa de sumo de limão
1 ovo grande
1 colher de chá de fermento em pó
Pitada  de sal fino
1 chávena de lemon curd

Deite o açúcar com a amêndoa num robot de cozinha e misture-a bem. Junte a manteiga bem amolecida e bata bem. Junte o ovo, a raspa  e o sumo de limão e bata. Adicione a farinha, o sal e o fermento. Lev e ao frio pelo menos uma hora. Depois tenda bolinhas, achate-as na mãos e com o indicador faça um buraco no meio. Coloque-as num tabuleiro forrado com papel vegetal e com preencha os buracos com lemon curd. Leve-as a forno pré-aquecido durante cerca de 15 minutos e depois de frias polvilhe-as com açúcar em pó.

Esta receita foi mais uma contribuição para o desafio Dorie às Sextas

quarta-feira, março 21

Turdus merula


Para ela todas as aves eram pássaros e deixava sempre as portas das gaiolas abertas. Não tens medo que fujam, avó? Não gosto de trancas, dizia enquanto aquecia uma rola entre o peito e a combinação de renda.  Depois enchia a boca com água e deixava que bebessem da sua boca. Não tens medo que te piquem, avó? Ela sorria e abanava a cabeça devagarinho, que os pássaros não gostam de gestos bruscos e fazia um sinal com os dedos longos de quem já tocara piano. Traziam-lhe o velho gira discos de tampa de abrir. Se a tarde já estivesse no fim, cheia daquela luz que pinga sombras nas folhas das árvores, dizia, põe Debussy que os melros gostam. Depois esfarelava as madalenas feitas de manhã cedo, entre o polegar e o indicador e punha as migalhas entre os lábios. É assim que comem no ninho. Os melros iam-se chegando  devagar, com a sua cabeça negra  inclinada de receio. Ela, fechava a porta da casa e desligava os aparelhos por detrás das orelhas. Assim não ouves a música, avó. Nem o silêncio da casa, dizia.


Madalenas com morangos


150g de farinha sem fermento
150g de manteiga sem sal
100g de açúcar
4 ovos
Raspa de uma laranja
Raspa de meio limão
1 colher de chá de baunilha
1 colher de chá de fermento em pó
Pitada de sal fino

250g de morangos
½ chávena de açúcar
½ chávena de água
1 vagem de baunilha
2 colheres de sopa de sumo de laranja

Bata a manteiga com o açúcar e junte os ovos inteiros, um a um. Junte as raspas e a baunilha e misture. Peneire a farinha com o fermento e o sal e envolva cuidadosamente. Leve ao forno, pré-aquecido a 200ºc durante 10 minutos.
Corte os morangos e pedaços pequenos. Reserve. Leve ao lume o açúcar com aá  gua e a vagem de baunilha aberta. Deixe ferver 5 minutos em lume brando. Retire do lume e deixe arrefecer. Junte o sumo de laranja, deite sobre os morangos  e leve-os aos frio a macerar durante a noite ( ou peno menos 4 horas).
Sirva com as madalenas.

Adaptado de French Food at Home, Laura Calder.






sexta-feira, março 16

Algés

A oficina ficava perto da estação de comboio. De manhã, ele abria com as suas mãos de quatro dedos, as portas azuis, que deixavam cair mais umas escamas de tinta na calçada. Varria as aparas de madeira e trazia as cadeiras envernizadas para o alpendre. Ficava uns instantes à porta e acenava ao cigano que no Inverno vendia chapéus de chuva à entrada do túnel para a estação. No Verão vendia bóias e chapéus de sol. Adeus Alfredo, dizia-lhe. O cigano sorria e respondia. Já aí vou. O marceneiro ficava uns instantes à porta, a ver as pessoas a entrarem apressadas no túnel da estação. De onde se ouvia a musica desafinada do cego do acordeão. Os dias delas corriam mais depressa que os seus. Que se arrastavam por entre o cheiro pegajoso de verniz e as aparas que se acumulavam lentas, no chão da oficina. Depois do último comboio da manhã o cigano chamava-o à porta com duas cervejas na mão. Sentavam-se nas cadeiras do alpendre, bebendo as cervejas pelo gargalo. Em silêncio. Até que o marceneiro apontava para a marisqueira do outro lado da rua e dizia-lhe. Quando vender uma mobília de quarto pago a uma mulher e vou ali jantar. Nunca comi lagosta, nem sei a que sabe, dizia-lhe o cigano. O marceneiro suspirava e punha a garrafa vazia debaixo da cadeira. E eu ainda não sei a que sabe o corpo de uma mulher.

(Deserto do Mundo, 26/10/2010)

Hoje, enquanto compilava os textos do Deserto do Mundo para o encerrar, lembrei-me do sabor do chocolate branco da minha infância. E lembrei-me da estação de comboio de Algés em frente à praça. Havia gente e cheiro a fruta nas bancas. E havia eu, de olhos derretidos no chocolate que comia.



Queques de chocolate branco e framboesa






125g de manteiga sem sal
100 de açucar
2 ovos inteiros
225g de farinha sem fermento
1 colher de chá de fermento em pó
pitada de sal fino
2 colheres de sopa de leite
1 colher de chá de baunilha
100 de chocolate branco partido em pedacinhos
doce de framboesa

Pré-aqueça o forno a 180º. Bata a manteiga com o açúcar até ficar bem cremoso. Junte os ovos e misture bem. Junte o leite e a baunilha e o chocolate branco.Adicione cuidadosamente a farinha previamente misturada com o fermento e com o sal. Coloque um caixinha de papel e cada uma das forminhas de queque e encha até 2/3 com  massa. Deite uma colher de chá de doce de framboesa ( de preferência com pouco açúcar) e com um palito marmoreie a superfície. Leve ao forno durante cerca de 20 minutos.