Porque escreves? Porque houve um tempo, um tempo de olhos grandes
perante um mundo imenso, em que o som das palavras me assustava. E por isso
tive de aprender a falar com as mãos no silêncio do meu quarto. Cheio de folhas
em branco, que podiam ser cinco, seis, vinte, que também eram as mesmas vezes que
as paredes cor de rosa, que eu nunca gostei de rosa, se desdobravam para um mundo sobre o qual eu debruçava
a minha sofreguidão. Porque escreves?
Porque nunca soube falar, porque aprendi a escrever em voz alta para que a
estranheza do som das palavras que sempre amei, não me deixassem arranhões de
medo. Porque foi a juntar as palavras
que construi a jangada que me manteve sempre à tona de uma vida que nem sempre
quis minha, a mesma jangada que me fez transpor o tempo. Porque não sei falar de mim, mas só dos outros
que tantas vezes descubro que não são outros. Porque nelas, as palavras, as
minhas palavras, largo o lastro das vidas que habitam no correr dos dias e que
só se tornam histórias depois de se coarem pelos meus dedos. Porque escreves?
Porque corro atrás delas, das palavras,
e um dia quando lhes tocar talvez ainda me alcance a mim.
Hoje a confeitaria faz um ano. Não costumo falar de mim, não
o faço por norma. Mas hoje as portas desta casa, as mesmas por onde ao longo do
ano que passou, todos vós deixaram o
vosso carinho em forma de leitura, estão escancaradas. Para responder à
pergunta que tantas vezes me fazem e que tantas vezes me emudece. Bem hajam!
Arroz Doce Queimado
( Esta história de comer é uma variação da primeira que aqui publiquei)
Depois do arroz doce totalmente arrefecido, polvilhe com açúcar e queime com um maçarico.
Inspiração daqui
