quinta-feira, setembro 19

Escrever o Outono


Em forma de história, que também pode ser um poema ou apenas um olhar cheio páginas em branco.

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quarta-feira, setembro 11

Tipo Inglês

Todos pensavam saber o porquê da promessa. Se é um santo António em tamanho de gente é porque procura alguma coisa que perdeu ou que ainda não achou. Noiva não seria, porque passara há muito a idade casar, só se fosse um caso de amor serôdio. Talvez dinheiro, que é coisa que todos procuram. Não, diziam as velhas da igreja, devia ser a cura para alguma doença dos pulmões, que desde criança tivera um ar enfezado, e não há melhor achado que uma saúde da boa.  Os homens da tasca, esses criam que fora um animal perdido da fazenda, talvez um boi ou um cavalo velho. Fosse o que fosse, José Inácio, depois de largar as broas na igreja, fechava-se no seu quarto onde mandara pôr uma salamandra, na esperança que a lenha de oliveira lhe aliviasse a dor nos ossos que o consumia desde criança. Abria a janela que dava para lá fora, ficava dois ou três instantes a suspirar pela canja que a mãe lhe fazia quando com as dores não se conseguia levantar da cama e depois retomava a sua empreitada. Mas para que queres tu um santo desse tamanho, José Inácio? E o Santo a crescer com o Menino ao colo. Não há promessa, para Deus Nosso Senhor, que tenha de durar tanto,  José Inácio. E ele a lembrar-se dos sapatos de atacador que perdera, aqueles que a mãe lhe oferecera quando o começara a ensinar a dançar. Não lhe bastara perder a mãe e tivera também que perder os sapatos. Mas faltava pouco, só os caracóis do menino e depois o responso dito baixinho, para os encontrar. É doença nos pulmões, com certeza, repetiam as velhas, e ele a ver-se a fazer bonito nas festas de Junho, a encontrar os passos todos certinhos enfiados nos seus sapatos de atacador, picotados no peito do pé.

Texto integrante da exposição Bolota 1/4 adiante.

quarta-feira, setembro 4

Dois anos


É sabido que o tempo passa depressa. Um impermanência da qual guardamos apenas retalhos a que chamamos memórias.
As memórias destes dois anos de porta aberta,  tenho-as alinhavado numa longa manta de retalhos a que chamo estórias de ler e comer. Que só ficam completas com os vosso olhar. Olhos de ver.
O meu obrigada por estes dois anos.  Bem hajam.


Brownies para quem gosta realmente de chocolate



475g de chocolate em barra
300g de açúcar
250 g de manteiga sem sal
25 g de cacau em pó
5 ovos
150 g de farinha
2 colheres de chá de essência de baunilha
pitada de sal fino

Derreta o chocolate com a manteiga em banho maria. Reserve. Bata os ovos com o açúcar. Junte o cacau, o sal e a baunilha a esta mistura. Junte o chocolate derretido. Envolva a farinha cuidadosamente. Leve a forno pré-aquecido a 180º durante 30 minutos, num tabuleiro quadrado forrado com papel vegetal

sugestão: sirva com framboesas.

sábado, agosto 31

Regresso

Regressávamos sempre, mesmo quando partíamos cedo para lá chegar antes do almoço. Da janela do carro via as árvores que corriam atrás de nós, pingando o fim de tarde nas folhas, porque o regresso, nas memórias, se faz sempre ao fim da tarde. E no silêncio interrompido por aquela amargura sem palavras, a que chamavam saudade de lá, aprendi a não perguntar muita coisa porque o que não se sabe também não se esquece.

segunda-feira, agosto 19

Maresia

Há dias que são apenas manhãs. Há manhãs onde correm todos os anos dos pretéritos. Há sempre uma neblina que cheira a mar e um café quente por entre as mãos unidimensionais do presente. E um tempo que somos nós de olhos postos numa janela.

sexta-feira, agosto 2

Olhos nas pontas dos dedos




Ninguém se lembrava realmente como ela era. Nem da idade, nem do nome, pois uns chamavam-lhe Maria, Mariazinha, outros Zé, apenas, mas nunca o verdadeiro, o de baptismo, Maria José. O rosto esbatia-se nos traços das caras dos outros. Ninguém se lembrava de parecenças maternas ou paternas, se era feia ou bonita. Saiu de cá há tanto tempo, diziam. E por isso falavam, como falavam de tudo o que lhes causava estranheza, como a queda de um raio no telhado da igreja, ou a chegada de um estrangeiro à terra. Falavam do que não se recordavam dela, pois só Cecília se lembrava, não por ser a mais velha dos irmãos, mas por ver com os olhos de dentro, que os dela não tinham nem cor, nem memória. E era ela, quem todas as primeiras sextas-feiras do mês esperava o toque da campainha do carteiro, que chegava numa bicicleta velha de correias a chiarem. Tens mais uma carta para ti, Cecília. Das do estrangeiro, vê-se pelo selo. Ela sorria-lhe à voz, agradecia e ficava no alpendre até o chiar das correias esmorecer na curva da terra batida. Depois, com as pontas dos dedos raspando as paredes das escadas, subia até ao quarto mais alto, e ali ficava de envelope entre as mãos. Não precisava de o abrir para saber o que dizia, dentro daquele quadrado de papel moravam os seus olhos para o mundo. Vinham saudades do tempo em que ainda eram pequenas. Diz-me que cara fez aquela mulher, pedia-lhe Cecília, quando brincavam na Praça. Maria José fazia-lhe uma careta e passava-lhe a ponta dos dedos pelo rosto, uma cara assim, e Cecília ria-se, são estranhas as caras dos outros. Antes de guardar a carta da gaveta de cima da cómoda, passava de novo com as pontas dos dedos sobre o envelope, e dizia, este ano que passou deixou-te mais uma ruga no rosto, Maria José.

( texto integrante da exposição, Bolota 1/4 adiante)

A Confeitaria vai de férias.  Reabre no voltar do mês. Até lá!


terça-feira, julho 30

Janela

Não há nada mais humano do que a escolha. Mas esta só existe se conhecermos o maior conjunto possível de opções. Sem as conhecer só nos resta imitar comportamentos. Porque é suposto, porque todos os outros fizeram o mesmo, porque quem nos educa diz que é o mais certo, o melhor para nós. Mas será? Seremos assim tão iguais?
“Apresenta o Dream Lab”, pediram-me, e eu, uma mãe que já foi filha de pais que apenas quiseram o melhor, aquele melhor igual a todos os outros, pensei, como se apresenta um projecto, que também é um sitio, que apenas é uma janela? Porque é disso que se trata. Será isso que irá acontecer : uma janela de escolhas. Fora do tradicional, se acreditarmos que a tradição é apenas a repetição do passado, e que crê acima de tudo que só conseguimos, nós, os nossos filhos, ser bons a fazer aquilo que gostamos.
E é apenas isto que aqui trazemos: uma janela onde nos iremos debruçar para percursos de vida que a dada altura inflectiram no comum, no normal, e descobriram um caminho profissional de sucesso, ainda que alternativo. Vamos ver para além da fotografia, construir uma história de banda desenhada, ilustrar emoções, ser por umas horas verdadeiros meninos da rádio. Saber o que move o olhar de um jornalista e as mãos de um designer.
É isto que irá acontecer num laboratório de sonhos, neste fim de Verão, num tubo de ensaio que tem o tamanho que a vontade quiser. Porque, aos quinze somos iguais ao que somos aos cinquenta um: apenas um produto das nossas escolhas.


O Dream Lab é um projecto que mais do que meu, sou eu.  Aos que são agora adolescentes ou pais de adolescentes, digo: espreitem esta janela. O mais certo é encontrarem-se do outro lado da rua.



terça-feira, julho 23

Surdez




Há uma surdez particular que se confunde com falta de humildade. A mim parece-me sempre um sintoma de medo. Que tresanda na pele daqueles que se levam muito a sério.

sexta-feira, julho 19

Amélia



   
        Quando percebeu, tinham passado trinta anos lá fora. Todos sabiam  menos ele. Que continuava a afastar os cortinados do seu primeiro andar com os dedos, sempre que ouvia na rua um Citroen dois cavalos. Era azul, e ela usava uma boina branca. Buzinava e subia todas as segundas feiras quando voltava do conservatório. Quando percebeu que tinham passado trinta anos lá fora decidiu que nunca mais seria segunda feira. E na manhã de terça lembrou-se que nunca tinha chegado a beijá-la.

quarta-feira, julho 17

Dos amores e dos detalhes

Ela costumava contar  histórias de amor enquanto mexia o tacho das compotas. Encostava-se ao fogão  e começava .  Nunca pelo o principio, porque quem se apaixona nunca se lembra bem do antes. Eram histórias de amor bizarras, pois nunca tinham finais felizes. Nem trágicos. Eram histórias povoadas de pessoas normais. Isso não são histórias de amor, diziam-lhe. As verdadeiras têm amores contrariados, declarados em frases com dois ou mais adjectivos e beijos finais debaixo de aguaceiros de verão. As dela debitavam amores possíveis de meia idade, cheios de rugas e flacidez.  Onde os beijos se davam entre o amarelo do tabaco e a lixivia mal disfarçada pelo cheiro a glicerina.  As metáforas e os versos, esses encontrava-os no desalento dos dias ou no repetir das horas. Isso não são verdadeiras histórias de amor, diziam-lhe, são de desencanto. E  ela respondia, mexendo sempre o tacho das compotas, só se desencanta  quem nunca encontrou um amor nos detalhes .




Compota de alperce e cravinho


1kg de alperces
350 g de açúcar
6 cravinhos


Deite os alperces cortados em pedaços e o açúcar numa taça e deixe a macerar de um dia para o outro. Depois leve a lume brando juntamente com os cravinhos até fazer  ponto (tirando um pouco de compota para um prato frio esta deverá manter-se separada depois de passar com uma colh