quarta-feira, dezembro 14

Rabanadas


As memórias só têm janelas. Poderia  dizer-lhe  a avó que nunca tivera. Imaginava-a assim,  de costas, sem rosto mas a cheirar a canela e a sabonete de glicerina. De costas, debruçada sobre um fogão numa chaminé de pedra,  talvez  manchada por limões esquecidos no canto. Os cabelos prateados a soltarem-se de um apanhado feito com ganchos de noiva.  E a mão engelhada e manchada a apanhá-los com o ritmo das horas. As memórias só têm janelas, dir-lhe-ia enquanto fritasse rabanadas. Nas paredes, panos da loiça bordados num tempo de enxoval e cheiro de aldeia fotografada a preto e branco. E o pão duro, transformando-se em fatias doces na frigideira. Janelas voltadas para dentro e para fora, mas sempre abertas.  E pensou que  apesar de sentir o açúcar húmido, no canto da boca, nunca tivera avó.  Só janelas, construídas com memórias de olhos fechados.



Rabanadas de Bolo Rei




8 a 10 fatias de bolo rei
2 ovos + 2 gemas
½  chávena de leite
Raspa e sumo de uma laranja
1 colher de sopa de vinho do porto
2 colheres sopa de açúcar + açúcar para polvilhar
Manteiga para fritar


Bata os ovos com o leite, o sumo e raspa de laranja e o vinho do porto. Deite num prato fundo e deixe as fatias de bolo rei embeberem a mistura dos dois lados.  Deite um pouco de manteiga numa frigideira e frite as rabanadas até que fiquem douradas dos dois lados. Retire-as  para um prato com papel absorvente. Deixe arrefecer e polvilhe-as com açúcar granulado e queime-o com um maçarico .

11 comentários:

Maria disse...

As maiores janelas das memórias são os olhos!

(registo o prato destas rabanadas, da minha terra, da Bordalo Pinheiro...)

Beijo.

Beth disse...

Estas rabanadas estão divinas amiga comia tudinho, ficram lindissimas e mt fora du volgar amei!


beijinhos

anasbageri disse...

E lá perdi outra vez o comentário... segunda tentativa:

Não me vou esquecer desta frase...
E que boa ideia a de tranformar o Bolo rei, que na mesa de Natal da minha família acaba seco e esquecido, nestas deliciosas rabanadas!

bjs

mfc disse...

Por falar em recordações... lembraste-me do sabão de glicerina e da sua fragância tão agradável!
Como é agradável abraçar alguém a cheirar a esse odor bestial!

George Sand disse...

Adoro Boloa rei. Adoro rabanadas. Deve ser muito boa a junção...

Luis Eme disse...

gostei do texto, não tanto das rabanadas. :)

Vera Ferraz disse...

Adorei a sugestão!!
Gosto muito de rabanadas, mas nunca tinha visto de bolo-rei! Devem ser deliciosas!!

Bjinhos

Blondewithaphd disse...

Hum... acho que me vou aventurar e experimentar mas vou trocar a manteiga por azeite.

Mar Arável disse...

Tudo pelo melhor

neste inverno prolongado

e descontente

receitas para a felicidade disse...

Um dois em um verdadeiramente delicioso

beijinhos!!

Floro Teixeira disse...

Esta poesia, pois para mim este texto é pura poesia, conseguiu trazer-me à memória a minha avó, sim porque eu tive a sorte de ter avó. O cheiro dela não era a canela mas sim a sabonete de glicerina ou outro parecido. Partiu á já muitos anos, cerca de 42, mas a imagem dela surgiu nitida ao ler estas frases. Por isso e pela receita que vou experimentar o meu muito obrigado.