segunda-feira, dezembro 30

Possível pensamento tido antes da meia noite.



Doze, come duas a duas que custa menos. Dez, porque são para a boa sorte. Oito, lá fora a transparência de mais uma noite. Seis, cá dentro a desenhar janelas para um tempo que nunca seria seu. Quatro, os verbos a descobrirem-se circulares. Dois, as doze passas ainda cerradas não mão. Não as comes?  Assim perdes os desejos.  Paciência. Nunca gostei de passas. 

sábado, dezembro 21

Vidro azul

Os enfeites de lá eram guardados numa caixa diferente. Talvez por serem de vidro, tão frágeis quanto as recordações contadas por meias palavras. Quando, ao abrir a caixa, se descobriam os fragmentos de algum que tivesse partido, o meu pai dizia com um encolher de ombros resignado: Mais um. E o tempo contava-se pelo número de cacos de vidro colorido. Quando se partiu o último, que era azul, teriam passado quinze anos do retorno e o meu pai disse: Foi o último. E dentro da caixa dos enfeites de lá passou-se a guardar um presépio comprado numa qualquer rua de Algés. Nunca lhes dei importância, eram apenas enfeites de vidro pintado. Pensava eu. Hoje, inexplicavelmente, consigo lembrar-me de todos os pequenos detalhes da tinta branca sobre o vidro azul. E também dos dedos longos e excessivamente brancos da mão do meu pai pendurando-os na árvore, juntamente com as memórias de lá.

sexta-feira, novembro 29

Lá fora



Lá fora havia um ninho. Não acordem os pássaros e eles com os pés descalços na erva orvalhada. Não acordem os pássaros, a mãe sentada lá fora onde moravam agora os pretéritos e tudo o que nunca fora. Lá fora ainda eram cinco e a mãe. Ainda eram crianças e o mundo era demasiado grande para caber nos olhos. Era o aconchego, o princípio de tudo, que tantas vezes é apenas a primeira página de qualquer coisa. Lá fora ficaram as histórias contadas na voz morna que ainda pingava no soalho de dentro. Que o luto se faz por entre a angústia das paredes. Que umas vezes são pedra, outras vezes são apenas um retalho baço de memória. Havia um ninho, o cheiro da mãe, que não tinha perfume mas sim palavras, a música que cessou depois dos sete palmos. Restara apenas uma porta para lá fora, onde, dizem, se desenhou a primeira palavra da história: mãe.

Texto inserido na exposição Bolota, 1/4 adiante 
(A partir de 30 Novembro a 26 de Janeiro no Museu da Cerâmica das Caldas da Rainha)



segunda-feira, setembro 30

Aguaceiro


Hoje não trago uma história de letras. Nada que se conte em seis, dez ou vinte linhas. Só uma cesta de pêras madura esquecida num canto da cozinha. Só uma vontade de emudecer as mãos, porque os dias de chuva são assim, voltados para dentro.

Mousse de pêra William



4 pêras William bem maduras
2 colheres de sopa de açúcar
250 g de queijo creme
3 claras em castelo + 3 colheres de sopa de açúcar
Sumo de meio limão
3 folhas de gelatina

Descasque as pêras e corte-as em cubos. Leve-as num tachinho a lume brando, juntamente com  o açúcar e o sumo do limão até estarem bem cozidas. Depois passe-as pela varinha mágica até obter um puré bem fino.
Leve as folhas de gelatina, previamente demolhadas em água fria, durante 15 segundo ao microondas juntamente com 2 colheres de sopa de água. Junte esta mistura ao puré de pêra e deixe arrefecer um pouco.  Depois junte o queijo creme.
Bata as claras com o açúcar até obter um merengue espeço e envolva-o com a mistura anterior. Leve ao frio durante 2 a 3 horas.


domingo, setembro 22

Equinócio


Setembro tem um tempo oblíquo e liquefeito. Dizem que se encurtam os dias. Talvez só se encurtem as janelas, aquelas que cerramos só por hábito, que o medo é um deles.  Setembro cheira a maçãs, a colheitas tardias, dizem, a mim ficam-me nas mãos os aromas dos retalhos,essas memórias que se desfiam e alinhavam com as vozes dos tempos quentes. E depois esperamos, esperamos sempre, os dias de inverno, que por serem noites longas, aprendemos a temer


Maçãs com merengue ( para 4)



4 maçãs reinetas
2 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de brandy
3 claras
6 colheres de sopa de açúcar
Gotas de sumo de limão

Descasque e descaroce as maçãs. Corte-as em cubos. Leve a manteiga com o açucar ao lume até caramelizar ligeiramente. Junte a maçã e regue com o brandy. Deixe cozinhar até as maçãs ficarem amolecidas.
Bata as claras em castelo e junte  as 6 colheres de sopa de açúcar e as gotas de sumo de limão. Bata até obter um merengue bem firme.
Deite maçã em taças que possam ir ao forno e cubra com o merengue. Leve a forno pré-aquecido a  150º durante cerca de 30 minutos.



quinta-feira, setembro 19

Escrever o Outono


Em forma de história, que também pode ser um poema ou apenas um olhar cheio páginas em branco.

  Mais informações aqui



quarta-feira, setembro 11

Tipo Inglês

Todos pensavam saber o porquê da promessa. Se é um santo António em tamanho de gente é porque procura alguma coisa que perdeu ou que ainda não achou. Noiva não seria, porque passara há muito a idade casar, só se fosse um caso de amor serôdio. Talvez dinheiro, que é coisa que todos procuram. Não, diziam as velhas da igreja, devia ser a cura para alguma doença dos pulmões, que desde criança tivera um ar enfezado, e não há melhor achado que uma saúde da boa.  Os homens da tasca, esses criam que fora um animal perdido da fazenda, talvez um boi ou um cavalo velho. Fosse o que fosse, José Inácio, depois de largar as broas na igreja, fechava-se no seu quarto onde mandara pôr uma salamandra, na esperança que a lenha de oliveira lhe aliviasse a dor nos ossos que o consumia desde criança. Abria a janela que dava para lá fora, ficava dois ou três instantes a suspirar pela canja que a mãe lhe fazia quando com as dores não se conseguia levantar da cama e depois retomava a sua empreitada. Mas para que queres tu um santo desse tamanho, José Inácio? E o Santo a crescer com o Menino ao colo. Não há promessa, para Deus Nosso Senhor, que tenha de durar tanto,  José Inácio. E ele a lembrar-se dos sapatos de atacador que perdera, aqueles que a mãe lhe oferecera quando o começara a ensinar a dançar. Não lhe bastara perder a mãe e tivera também que perder os sapatos. Mas faltava pouco, só os caracóis do menino e depois o responso dito baixinho, para os encontrar. É doença nos pulmões, com certeza, repetiam as velhas, e ele a ver-se a fazer bonito nas festas de Junho, a encontrar os passos todos certinhos enfiados nos seus sapatos de atacador, picotados no peito do pé.

Texto integrante da exposição Bolota 1/4 adiante.

quarta-feira, setembro 4

Dois anos


É sabido que o tempo passa depressa. Um impermanência da qual guardamos apenas retalhos a que chamamos memórias.
As memórias destes dois anos de porta aberta,  tenho-as alinhavado numa longa manta de retalhos a que chamo estórias de ler e comer. Que só ficam completas com os vosso olhar. Olhos de ver.
O meu obrigada por estes dois anos.  Bem hajam.


Brownies para quem gosta realmente de chocolate



475g de chocolate em barra
300g de açúcar
250 g de manteiga sem sal
25 g de cacau em pó
5 ovos
150 g de farinha
2 colheres de chá de essência de baunilha
pitada de sal fino

Derreta o chocolate com a manteiga em banho maria. Reserve. Bata os ovos com o açúcar. Junte o cacau, o sal e a baunilha a esta mistura. Junte o chocolate derretido. Envolva a farinha cuidadosamente. Leve a forno pré-aquecido a 180º durante 30 minutos, num tabuleiro quadrado forrado com papel vegetal

sugestão: sirva com framboesas.

sábado, agosto 31

Regresso

Regressávamos sempre, mesmo quando partíamos cedo para lá chegar antes do almoço. Da janela do carro via as árvores que corriam atrás de nós, pingando o fim de tarde nas folhas, porque o regresso, nas memórias, se faz sempre ao fim da tarde. E no silêncio interrompido por aquela amargura sem palavras, a que chamavam saudade de lá, aprendi a não perguntar muita coisa porque o que não se sabe também não se esquece.

segunda-feira, agosto 19

Maresia

Há dias que são apenas manhãs. Há manhãs onde correm todos os anos dos pretéritos. Há sempre uma neblina que cheira a mar e um café quente por entre as mãos unidimensionais do presente. E um tempo que somos nós de olhos postos numa janela.

sexta-feira, agosto 2

Olhos nas pontas dos dedos




Ninguém se lembrava realmente como ela era. Nem da idade, nem do nome, pois uns chamavam-lhe Maria, Mariazinha, outros Zé, apenas, mas nunca o verdadeiro, o de baptismo, Maria José. O rosto esbatia-se nos traços das caras dos outros. Ninguém se lembrava de parecenças maternas ou paternas, se era feia ou bonita. Saiu de cá há tanto tempo, diziam. E por isso falavam, como falavam de tudo o que lhes causava estranheza, como a queda de um raio no telhado da igreja, ou a chegada de um estrangeiro à terra. Falavam do que não se recordavam dela, pois só Cecília se lembrava, não por ser a mais velha dos irmãos, mas por ver com os olhos de dentro, que os dela não tinham nem cor, nem memória. E era ela, quem todas as primeiras sextas-feiras do mês esperava o toque da campainha do carteiro, que chegava numa bicicleta velha de correias a chiarem. Tens mais uma carta para ti, Cecília. Das do estrangeiro, vê-se pelo selo. Ela sorria-lhe à voz, agradecia e ficava no alpendre até o chiar das correias esmorecer na curva da terra batida. Depois, com as pontas dos dedos raspando as paredes das escadas, subia até ao quarto mais alto, e ali ficava de envelope entre as mãos. Não precisava de o abrir para saber o que dizia, dentro daquele quadrado de papel moravam os seus olhos para o mundo. Vinham saudades do tempo em que ainda eram pequenas. Diz-me que cara fez aquela mulher, pedia-lhe Cecília, quando brincavam na Praça. Maria José fazia-lhe uma careta e passava-lhe a ponta dos dedos pelo rosto, uma cara assim, e Cecília ria-se, são estranhas as caras dos outros. Antes de guardar a carta da gaveta de cima da cómoda, passava de novo com as pontas dos dedos sobre o envelope, e dizia, este ano que passou deixou-te mais uma ruga no rosto, Maria José.

( texto integrante da exposição, Bolota 1/4 adiante)

A Confeitaria vai de férias.  Reabre no voltar do mês. Até lá!


terça-feira, julho 30

Janela

Não há nada mais humano do que a escolha. Mas esta só existe se conhecermos o maior conjunto possível de opções. Sem as conhecer só nos resta imitar comportamentos. Porque é suposto, porque todos os outros fizeram o mesmo, porque quem nos educa diz que é o mais certo, o melhor para nós. Mas será? Seremos assim tão iguais?
“Apresenta o Dream Lab”, pediram-me, e eu, uma mãe que já foi filha de pais que apenas quiseram o melhor, aquele melhor igual a todos os outros, pensei, como se apresenta um projecto, que também é um sitio, que apenas é uma janela? Porque é disso que se trata. Será isso que irá acontecer : uma janela de escolhas. Fora do tradicional, se acreditarmos que a tradição é apenas a repetição do passado, e que crê acima de tudo que só conseguimos, nós, os nossos filhos, ser bons a fazer aquilo que gostamos.
E é apenas isto que aqui trazemos: uma janela onde nos iremos debruçar para percursos de vida que a dada altura inflectiram no comum, no normal, e descobriram um caminho profissional de sucesso, ainda que alternativo. Vamos ver para além da fotografia, construir uma história de banda desenhada, ilustrar emoções, ser por umas horas verdadeiros meninos da rádio. Saber o que move o olhar de um jornalista e as mãos de um designer.
É isto que irá acontecer num laboratório de sonhos, neste fim de Verão, num tubo de ensaio que tem o tamanho que a vontade quiser. Porque, aos quinze somos iguais ao que somos aos cinquenta um: apenas um produto das nossas escolhas.


O Dream Lab é um projecto que mais do que meu, sou eu.  Aos que são agora adolescentes ou pais de adolescentes, digo: espreitem esta janela. O mais certo é encontrarem-se do outro lado da rua.



terça-feira, julho 23

Surdez




Há uma surdez particular que se confunde com falta de humildade. A mim parece-me sempre um sintoma de medo. Que tresanda na pele daqueles que se levam muito a sério.

sexta-feira, julho 19

Amélia



   
        Quando percebeu, tinham passado trinta anos lá fora. Todos sabiam  menos ele. Que continuava a afastar os cortinados do seu primeiro andar com os dedos, sempre que ouvia na rua um Citroen dois cavalos. Era azul, e ela usava uma boina branca. Buzinava e subia todas as segundas feiras quando voltava do conservatório. Quando percebeu que tinham passado trinta anos lá fora decidiu que nunca mais seria segunda feira. E na manhã de terça lembrou-se que nunca tinha chegado a beijá-la.

quarta-feira, julho 17

Dos amores e dos detalhes

Ela costumava contar  histórias de amor enquanto mexia o tacho das compotas. Encostava-se ao fogão  e começava .  Nunca pelo o principio, porque quem se apaixona nunca se lembra bem do antes. Eram histórias de amor bizarras, pois nunca tinham finais felizes. Nem trágicos. Eram histórias povoadas de pessoas normais. Isso não são histórias de amor, diziam-lhe. As verdadeiras têm amores contrariados, declarados em frases com dois ou mais adjectivos e beijos finais debaixo de aguaceiros de verão. As dela debitavam amores possíveis de meia idade, cheios de rugas e flacidez.  Onde os beijos se davam entre o amarelo do tabaco e a lixivia mal disfarçada pelo cheiro a glicerina.  As metáforas e os versos, esses encontrava-os no desalento dos dias ou no repetir das horas. Isso não são verdadeiras histórias de amor, diziam-lhe, são de desencanto. E  ela respondia, mexendo sempre o tacho das compotas, só se desencanta  quem nunca encontrou um amor nos detalhes .




Compota de alperce e cravinho


1kg de alperces
350 g de açúcar
6 cravinhos


Deite os alperces cortados em pedaços e o açúcar numa taça e deixe a macerar de um dia para o outro. Depois leve a lume brando juntamente com os cravinhos até fazer  ponto (tirando um pouco de compota para um prato frio esta deverá manter-se separada depois de passar com uma colh

terça-feira, julho 9

Viagem no tempo



Somos todos os tempos verbais sem qualquer linearidade. Trazemos em nós um presente que se engole num acorde, num cheiro  ou noutra qualquer memória primária sem registo ou idioma . São hiatos no tempo que permanecem em nós, contrariando o compasso binário dos relógios lá fora.

domingo, julho 7

António José

Vejo-a de novo no cemitério. Corta meticulosamente os pés dos cravos brancos para que fiquem todos do mesmo tamanho. São sempre brancos, mesmo quando não são cravos. Guarda a tesoura de costura dentro da mala coçada nos cantos, tira um trapo feito de lençóis velhos e limpa a fotografia a preto e branco logo ao lado do nome em letras douradas. Depois com uma vassoura pequena varre toda a poeira e restos de folhas secas da laje. E fica ali um pouco, de mãos cruzadas no ventre, mexendo os lábios. Uma reza muda. Guarda a vassoura e olha para foto, suspirando sem lágrimas. Levanta o queixo e olha em volta. O coveiro afasta-se empurrando o carrinho de mão, que chia ao longo do carreiro calcetado. Já vai longe. Suspira de novo enquanto afasta as mãos para ancas. Cospe para a foto e sorri triunfante. Com o trapo limpa de novo o vidro da fotografia. Vá. Agora bate-me se conseguires. E solta um risinho nervoso enquanto ajeita uma madeixa que se soltou do carrapito oleoso.
.
Deserto do Mundo, 2010

sexta-feira, julho 5

Urgência



Somos um país onde se desvaloriza o tempo. Ficamos pelas três dimensões  suspensos na indecisão. E esperamos, esperamos, sem perceber que para mudar é preciso escolher. A tempo.

quinta-feira, julho 4

Ouro de Viana


Quando noivou, a madrinha que era de Cardielos, deu-lhe um par de arrecadas, uma soga e três moedas de ouro furadas. Que já não te acode a tua mãe, tenho eu de olhar por de ti, merecias melhor com esses olhos azuis de gente de porte, mas o rapaz é trabalhador, pelo menos tem as mãos limpas de terra, que não é vergonha nenhuma, mas a gente sabe que é melhor assim. Guardou-as, às arrecadas, à soga e às três moedas furadas, numa caixa de madeira de cheiro, que o noivo lhe mandou do Brasil, prometendo-lhe que casavam no verão seguinte, que era sempre o seguinte. E por isso quando já os verões se deixaram de contar numa só mão, começou a derreter o ouro na vela, a mesma com que pedia à Senhora que ele voltasse. Com o ouro mando fazer as nossas alianças, escreveu-lhe sem nunca ter resposta. A soga vendeu-a, só este cordão dava- lhe cinco anéis, disse-lhe o ourives, um por cada ano de espera, que depressa se multiplicaram pelas três moedas. Tenho de cuidar de ti, que não te acode a tua mãe, uma arrecada sobre a vela, as cartas que iam sem volta, outra arrecada, os olhos azuis a morrerem na espera, uma moeda, a mãe lá fora a chamá-la quando ainda era pequena, duas, e antes da terceira moeda, a irmã de quem ninguém conhecia a cor dos olhos entrou no quarto, e debruçando-se sobre ela, sussurrou-lhe, cheiras a flores de vestido de boda. Limpou-lhe a lágrima que nunca caía, pegou na última moeda ainda presa na ponta de uma fita, pendurou-lha no pescoço e disse-lhe, não vale o azul dos teus olhos, algo tão sem cor como é a espera.


Hoje a estória é só de ler. Uma estória escrita para exposição Bolota 1/4 adiante que tentou contar com palavras o contributo da  joalheira Liliana Alves.

quarta-feira, julho 3

Palavras na montra da confeitaria.



A porta da Confeitaria está de novo aberta. Com estórias de ler e de comer, que agora nem sempre virão aos pares, pois o cansaço veste-se muitas vezes de presságio de mudança. E agora, esta confeitaria de palavras que se querem de açúcar por vezes só vos trará a imagem da vossa leitura. Porque para mim, a palavra virá sempre primeiro.

Aos leitores resistentes, obrigada. As portas estão abertas. A mudança também.

quarta-feira, junho 5

Dia Zero



Há dias em que urge recomeçar a partir de um zero de uma numeração qualquer. Não interessa o sistema numérico, apenas a ausência do que ficou para trás. Há dias em que o nada é apenas um algarismo. O primeiro. O começo.

 A confeitaria urge numa  pausa. Que a gerência espera ser breve.
  

(E neste compasso de espera fica um bolo leve e delicioso)

Bolo de claras e framboesas




4 claras
5 colheres de sopa de farinha com fermento
10 colheres de sopa de açúcar fino
300 g de framboesas frescas ou congeladas

Bata as claras em castelo bem firme e adicione o açucar. Bata até obter um merengue espesso. Peneire a farinha e envolva cuidadosamente. Envolva as framboesas. Leve numa forma de bolo inglês  untada com manteiga e polvilha com farinha, ao forno pré-aquecido a 160º durante 45 minutos.





sexta-feira, maio 17

Nova lenda das Amendoeiras


A chegada da neve não bastou para apagar a saudade dos copados de flores brancas que se estendiam até ao mar. Não chegou para apagar o cheiro de maré vazia que vinha nas cartas sem papel e nos telefonemas a horas mortas. Tens-te alimentado? Vens cá pelo Verão? A voz da mãe pelo telefone, que já não era o da mercearia que a avó usava para ligar duas vezes por ano. Do outro lado, a voz da mãe que fora perdendo o sotaque onde se arrastava o chiar da carrinha que a passara a salto. Tens roupa quente? Que lhe tinham dito que o Inverno na América ainda era pior que o da França. A encosta de flores brancas a crescer no calor das palavras da mãe. Que estava bem, que havia outro português a fazer o doutoramento, e lá em baixo o mar a molhar de leve o riso de alívio da mãe, ainda bem filho, que assim não estás tão sozinho. Vens cá pelo Verão? Ele a dizer que sim por detrás do som do sino da igreja, que a tua irmã vai baptizar o menino, quer que tu sejas o padrinho, e ele quase a tocar no branco das copas para além da casa de azulejos dos pais. Fica com os anjos, que eles te acompanhem, a avó a chorar na estação de comboio, as malas espalhadas no cais, que podiam ser as dele alinhadas no aeroporto, mas sempre as mesmas lágrimas a pingarem o amargo da amêndoa, fica com os anjos, filho, fica com os anjos, que a gente cá te espera no Verão.

Texto publicado na edição de Maio da Revista InComunidade




Bolo de Amêndoa da Nigella





250 g de manteiga
250g de massapão
150g de açúcar
150 de farinha com fermento
1 colher de chá de essência de amendoa
6 ovos


Coloque num robot de cozinha a manteiga juntamente com o massapão até ficar numa pasta. Junte o açucar e misuture. Depois junte a essência e os ovos um a um, pulsando sempre. Misture a farinha e deite numa forma forrrada com papel vegetal e leve a forno pré-aquecido a 160º durante 40 a 50 minutos

Receita : Easy almond cake, de Nigella Lawson



quarta-feira, maio 15

Eduardo




Há amores que nunca conhecem o nome, feitos de corpos anónimos e de noites sem data.  O dela não tinha rosto, apenas um nome na capa de um  livro de poemas.  Seguia os versos com a ponta dos dedos, contornando as linhas de um sorriso que não conhecia. Soletrava-lhe o nome na esperança de lhe construir um vulto com as silabas. Um dia ele veio à livraria da cidade. Para dar autógrafos. Ela ficou à porta, e mandou,  por uma vizinha, o livro por assinar e um cesto de morangos. Quando ele olhou pela montra, ainda lhe viu o rasto dos gestos antes de atravessar a rua e disse, descobri hoje que o amor cheira a morangos.


Tarte de chocolate e morangos


200g de bolacha maria
100g de manteiga derretida
200g de chocolate em barra
50 g de manteiga
150g de açúcar
5 ovos
5 folhas de gelatina
350g de morangos

Demolhe as folhas de gelatina num pouco de água fria. Pique a bolacha maria com manteiga derretida num robot de cozinha. Deite a mistura numa forma  de aro e calque bem.  Derreta o chocolate com a manteiga em banho maria. Junte as folhas de gelatina ao chocolate ainda quente e misture bem. Bata as gemas com o açúcar até obter um creme bem fofo e junte a mistura de chocolate. Bata as claras em castelo e envolva no preparado anterior. Deite sobre a bolacha e leve ao frio durante pelo menos 3 horas. Retire e decore com morangos ( poderá pincelá-los num fim com um pouco geleia)




sábado, maio 11

Deus não gosta de broas


Naquela sala sentavam-se todos ao redor de uma mesa, primeiro três, que o quarto, por só saber servir, teimava sempre em ficar de pé. Naquela sala, que outros também chamavam cozinha, os quatro falavam naquele silêncio de todos os dias, que o que se repete muitas vezes acaba por perder o som. Dizem. Naquela sala, o que servia levantava-se de madrugada para amassar as broas que deixava na igreja todos os primeiros Domingos. Deus não gosta de broas, dizia com indiferença a mais delicada, a que sempre fora diferente por fora, só por fora da pele de porcelana e dos olhos azuis que eram mais negros que o castanho dos outros. Depois, pedia o açúcar, que era amarelo e não em cubos brancos como os que imaginava existir nos palácios. Uma outra, que se chamava Rosa, estendia-lhe o açucareiro, como se soubesses dos gostos de Deus, respondia-lhe. E antes de se embrulhar no xaile verde, dizia, tenho de ir, volto para jantar. Onde vais, perguntava-lhe ele, enquanto vertia o azeite da almotolia. Ao lugar de sempre, respondia-lhe ela, de olhos baixos, que ninguém sabia qual era o lugar de sempre e todos haviam desistido de perguntar, a ela, que nascera com o dom bizarro de ouvir as vozes dos outros antes que fossem faladas. Ele encolhia os ombros, deixo-te a mesa posta. Ela sorria-lhe, a mim chega-me uma broa das tuas, enquanto abria a janela. E quando o lá fora entrava na sala com as cores da manhã, a última, de quem ninguém conhecia a cor dos olhos, dizia, enquanto mergulhava o pão na malga de leite, aquece-me o rosto, este amarelo das primeiras horas do dia, ainda mais do que o cheiro morno do café. Sorriam-lhe todos, ou pensava ela que lhe sorriam, ou talvez apenas lembrassem alguma coisa que ficara lá fora. 


Texto integrante da Exposição: Bolota 1/4 adiante



terça-feira, maio 7

Ausência




Há dias em que as palavras se esvaziam de rostos e estes de estórias. Limpo a humidade das palavras baças e resignando-me perante o mofo branco das páginas digo: é apenas cansaço.



Torta de laranja
(receita porque sim)



3 ovos inteiros
5 gemas
200g de açúcar
50g de farinha maisena
Raspa de 2 laranjas
100ml de sumo de laranja
1 colher de sopa de manteiga


Bata os ovos inteiros e gemas com o açúcar. Dilua a farinha num pouco de sumo de laranja e adicione juntamente com o sumo restante e a raspa à mistura de gemas. Junte a manteiga derretida. Forre um tabuleiro com papel vegetal e unte-o com manteiga , deite a mistura e leve a forno pré-aquecido a 160º durante cerca de 20 minutos.  Sobre uma mesa, polvilhe uma folha de papel vegetal com açúcar. Desenforme a torta sobre o papel polvilhado com açucar e enrole.

terça-feira, abril 23

33 rotações


Gostava de construir uma estória das minhas à volta de ti. Uma daquelas estórias onde os diálogos são fáceis, as palavras ditas, sempre ditas e nunca reféns do silêncio. Esse silêncio que toma como certo um tempo que nunca se sustêm naquele ponto, naquele momento que nunca retorna. Chamam-lhe presente, mas para os reféns do silêncio, como eu,  será sempre passado, pretérito, ou simplesmente o que nunca foi.  Gostava de construir uma estória das minhas com os retalhos das memórias que ficaram espalhadas em cima de um mesa qualquer, a perderem a cor, que não devemos deixar as fotografias à luz nem lhes pôr os dedos em cima. Gostava de te dizer que o teu rádio já funciona, os teus discos já tocam de novo, que a minha vida segue agora outro caminho, e que fiz hoje aqueles doces que tanto gostavas, bons para acompanhar o café
(não ouves o chiar da cafeteira italiana?). Depois sentavas-te nessa cadeira imaginária que a saudade traz sempre com ela e eu dir-te-ia que os diálogos não têm de começar sempre com um parágrafo e travessão.



Brisas do Lis



8 gemas
2 ovos inteiros
250 g de açúcar
100 ml de água
100g de amêndoa
1 colher de sopa de manteiga derretida


Leve o açúcar e a água num tachinho ao lume até fazer ponto de pérola. Retire e deixe arrefecer. Misture os ovos, as gemas e amêndoa. Junte a calda e a manteiga. Unte forminhas de queque ( pequenas) com manteiga e polvilhe-as com açucar. Encha-as até 2/3 e leve a forno pré-aquecido a 200ºg durante cerca de 15-20minutos, num tabuleiro com água quente ( esta não deverá passar metade da altura das formas)
Deixe arrefecer e desenforme.

quarta-feira, abril 17

Pensamento que podia ser um monólogo no Café.



Temo-nos em grande importância. Talvez para nos esquecermos que somos todos demasiado iguais: somos todos o homem que sai nas Picoas e que pensa, amanhã mudo de vida. Somos a mulher  que apaga  nas fotografias digitais o pavor do tempo. Somos o velho que ainda tem medo de morrer ou a criança a quem disseram que a relva não se pinta de azul, porque azul é o mar. Peço um café, como tantos outros pedem neste preciso momento. Curto, sem açúcar. E penso, enquanto bebo o meu café numa chávena igual à dos outros, maldita surdez esta que nos faz ter em grande importância.

Torta Tiramissu




4 ovos
4 colheres de sopa de açúcar
4 colheres sopa de farinha
1 café expresso bem forte
½ receita de creme de tiramissu
Cacau para polvilhar

Bata os ovos inteiros com o açúcar até ficar um creme bem fofo. Junte a farinha e envolva cuidadosamente. Deite num tabuleiro forrado com papel vegetal pincelado com manteiga derretida e leve ao forno a 180º durante cerca de 15 minutos. Deixe arrefecer um pouco, pincele com o café e  cubra com o creme de tiramissu e enrole. Antes de servir polvilhe com cacau em 

100 000



E já são mais de 100000 as visitas desde que a Confeitaria abriu as portas. Obrigada, por este número redondo. Obrigada por terminarem as estórias com as vossas leituras. Só assim ficam completas.



quarta-feira, abril 10

36 e meio



Todas a sextas de manhã era o mesmo. O corpo doía-lhe da pancada que ele lhe dava. Da pancada no corpo e da outra que ainda ia mais fundo, nódoas mais negras por ser invisíveis. Mal havia luz do dia, ela levantava-se devagarinho e sem gemer. Para não o acordar. Para não o ver chorar e prometer-lhe que não voltava a acontecer. Lavava-se, vestia-se e corria para a sapataria que ficava em frente à repartição de finanças onde trabalhava. E lá estavam eles. Vermelhos, sem preço.  Que as coisas que nos descansam os olhos não têm preço, dizia ela. E onde ias tu com uns sapatos daqueles, mulher? Perguntava-lhe a colega  de cabelo oleoso, que se enchia de bolo de chocolate trazido de casa em caixas de plástico. Até ao fim do mundo, respondia. Até que numa sexta feira, daquelas sem movimento, uma mulher que já fora bonita pediu-lhe baixinho  a  guia para pagar o selo do carro. Ela levantou os olhos do teclado do balcão e viu-lhe o rosto negro e amassado, que se tentava  dissolver na madeira do balcão. Fez um sinal à colega de cabelo oleoso. Um sinal com a mão, porque o nó da garganta não a deixou falar. Para que ficasse no lugar dela um bocadinho. Penhorou a aliança e correu até à sapataria. Ficam-lhe um bocadinho largos, mas não fazemos meios números, disse-lhe o empregado. Pediu uma palmilha de cortiça. Assim assentam-me como uma luva. Dizem, quem ainda a viu a dobrar a esquina, que apanhou o comboio das dez e um quarto.


Bolo de chocolate e avelã



200g de chocolate em barra
100 g miolo de avelã moído
150 g de manteiga
150 g de açúcar
200g de “nutella”
6 ovos
4 colheres de sopa de açúcar
2 colheres de sopa de licor de avelã
Pitada de sal

Derreta o chocolate em banho maria. Bata a manteiga com o açúcar. Junte-lhe a pasta de nutella ( convém estar à temperatura ambiente). Junte as gemas uma a uma batendo muito bem. Junte  o chocolate derretido, o licor de avelã, o miolo de avelã e o sal. Bata as claras em castelo e junte-lhes as colheres de sopa de açúcar para obter um merengue. Leve numa forma redonda. forrada a papel vegetal a forno pré-aquecido a 150º durante cerca de uma hora.


Receita adaptada daqui

quarta-feira, abril 3

Quente




Quando ele lhe perguntou de que é se arrependia de não ter feito, ela  respondeu-lhe: de nunca ter ido a Praga na Primavera e de nunca se ter sentado num café na Rive Gouche. Dizem que se comem lá umas tartes  maravilhosas.  Aux framboises,  disse com um sorriso snob. Mas não é isso o mais importante na Rive Gouche, respondeu ele enquanto ordenava os livros de filosofia por ordem alfabética. Ela suspirou  enquanto ajeitava a madeixa de cabelos brancos que lhe teimava em cair para  rosto, engraçado que nunca me lembro da Primavera de Lisboa, só do Verão.

Tartes de framboesa merengadas



350g de framboesas congeladas
100g de açúcar
Sumo de 1 limão + 1 colher de sopa de água
1 colher de sopa de amido de milho
4 claras em castelo
10 colheres de sopa de açúcar
1 colher de chá cremor tártaro

Leve as framboesas, com açúcar num tachinho ao lume. Depois de levantar fervura deixe ferver em lume brando durante 5 minutos. Dissolva o amido de milho no sumo de limão e na água. Adicione às framboesas e deixe engrossar. Deixe arrefecer por completo.
Bata as claras em castelo com açúcar até obter um merengue bem espesso. Junte o cremor tártaro e bata mais um pouco.
Forre pequenas tarteiras com a massa quebrada, pique-as com o garfo e pincele-as com gema de ovo. Leve ao forno  ( pré- aquecido a 180º) até dourarem um pouco. Retire-as, deixe arrefecer e depois recheie-as com o doce de framboesa e cubra-as com merengue. Leve as tartes de novo ao forno ( aquecido a 130º) até o merengue ficar estaladiço.

quinta-feira, março 28

51


No preciso momento em que as sombras se começam a encurtar pelo passar da manhã, o autocarro parte e a rua esvazia-se . Ficam apenas o homem do quiosque que arruma os jornais e os velhos do café que esperam a hora do almoço e outras horas de solidão. Há também um homem sentado na berma do passeio, que canta uma lengalenga sem sentido. O homem do quiosque manda-o calar. Chama-o pelo nome. O homem levanta-se e resmunga. Vai para casa, Gregório, repete, mas sabe que ele não tem casa. Só uma caixa de cartão com umas mantas que estende ao lado da serralharia. Uma mulher e uma criança aproximam-se da paragem. Ele segue-as. A mulher faz de conta que não vê. Vai para casa, Gregório. Ele encolhe os ombros e aproxima-se da mulher, cheiras bem. A mulher retrai-se com medo, o mesmo medo que tem do cães, enquanto a criança tira um resto de caramelo preso no céu da boca. Cheiras bem. A mulher olha para fim da rua. O autocarro que se aproxima parece-lhe longe. A criança desembrulha outro caramelo por detrás das pernas da mãe. Vai para casa, Gregório, diz o homem do quiosque. Irritado encolhe os ombros. Apanha uma beata do chão e mete-a na boca. O autocarro pára, cheiras bem, diz entre dentes. A rua esvazia-se de novo. O papel do caramelo esvoaça na calçada, enquanto Gregório finge que fuma.

(Deserto do mundo 2009)

Brownies com caramelo




5 ovos
225g de chocolate
125g de manteiga sem sal
150g de açucar
150g de farinha sem fermento
1 colher de chá de baunilha
1 colher de café de sal fino

para o caramelo:

1 chávena de açúcar
1/2 chávena de água
1 vagem de baunilha
500ml de natas
pitada de sal grosso
50g de manteiga sem sal


Derreta o chocolate com manteiga em banho maria e reserve. Bata os ovos  inteiros com o açúcar e junte a mistura de chocolate. Junte a baunilha e o sal e no fim envolva a farinha.
Leve numa forma forrada com papel vegetal, ao forno pré-aquecido a 160º durante 20-25 minutos.


Leve as natas, a manteiga, o sal e as sementes de baunilha ao lume até levantar fervura. Apague o lume e deixe repousar. Leve o açúcar e água num tachinho até fazer um caramelo dourado, apague o lume e junte a mistura de natas. Leve de novo a lume brando durante 5 minutos. Deixe arrefecer por complecto e cubra os brownies com este caramelo.

sexta-feira, março 22

Maria Arminda



Saiu para sulfatar as primeiras flores do pomar. No próximo Domingo não o quero ver com essa camisa preta, dissera-lhe a filha mais velha  com mesmo tom de voz com que falava com os filhos. A Maria Júlia também vem? Não, a mais nova nunca vinha, saíra de lá, no cedo dos mais novos, para a cidade. Mandava pela outra irmã uma caixa de pasteis de nata e os móveis velhos desfeitos e pintados de outra cor. É artista, dizia ele aos outros que perguntavam por ela. Descia o carreiro para o pomar e quatro passos à frente dos dele as filhas, ainda pequenas, a correrem.  Não o quero ver com essa camisa, ouviu? Atrás dele, o silêncio da renda que a mulher nunca mais fizera, a crescer por entre o cheiro do almoço. A mais nova a cair no carreiro. Não chores, não chorava, e os mesmos olhos secos a fugirem do caixão aberto da mãe.  Vista uma camisa branca, aquela dos Domingos. Quantos Domingos tinha um ano de casa vazia? À volta do pomar, enquanto a abotoava a camisa branca, viu os pasteis de nata na mesa e a cadeira vazia pintada de um azul que destoava da madeira desbotada das outras cadeiras. A filha mais velha ajeitou-lhe o colarinho, ora se não está melhor assim, e ele a repetir baixinho o nome da mulher, Maria Arminda, Ma-ri-a-ar-min-da, o que diz, está a rezar?  Ele sorriu com os dentes que já não tinha, pelo menos as letras dos nomes não mudam de cor.

Pastel de Nata desconstruído



1 l de leite 
1 casca de limão 
6 de gemas 
150gr de açúcar
50gr de amido de milho 
50gr de farinha 
açucar em pó 
canela 

Aqueça o forno a 250º. Com o rolo, estenda a massa, pique-a levemente com um garfo e coloque-a entre duas placas de forno. Leve a cozer durante 15 minutos. Deixe arrefecer e corte-a em rectângulos iguais. Reserve.
Num tacho, ferva o leite com a casca de limão.
Deixe em infusão durante 10 minutos. Misture bem as gemas com o açúcar, a maisena e a farinha e adicione gradualmente o leite, sem parar de mexer. Deite de novo no tacho e leve ao lume até espessar. Cubra com película aderente para não secar e reserve.
Com o saco de pasteleiro, cubra 4 rectângulos de massa folhada com creme. Repita este processo até obter 3 camadas.
Polvilhe a superfície com o açúcar e queime com um maçarico. Polvilhe com canela e açucar em pó.

Receita de José Avillez retirada daqui 




domingo, março 17

Da Poesia


Quis escrever um poema.  Mas o peso das palavras de mais de três silabas pingava-lhe antes da tinta da caneta. Quis escrever um poema sem gostar sequer de ler poesia, mas o Perdigão, que o pai dizia à laia de ladainha enquanto partia nozes com uma mão contra a outra, parecia-lhe pastoso nas redondilhas. Quis escrever um poema formidável,  de versos alexandrinos, cheio de metáforas para a posteridade , mas a caneta continuava presa no ar e todos sabemos que esse não é o elemento das letras.  Quis escrever um poema, com cheiro de mansarda, de mostrengo, de poeta mais alto, de desertos do mundo que cabem sempre na minha aldeia,  mas derrotaram-se-lhe as mãos no vazio da folha e disse, mil vezes os metais alcalinos, os gases nobres e halogéneos, que os átomos se conjugam sem rima nem métrica.


O Convidei para jantar…um poema, chega ao fim. E a confeitaria guardou na sua mala, naquela mala onde ficam as memórias boas, um experiência muito gratificante. Trinta e quatro poemas de ler e comer chegaram a estas vitrines. E eu, dona da Confeitaria vos digo: Bem hajam pelo poema que em uníssono construíram com cada um dos vossos convidados.






O pão de cereais  trouuxe-nos dois convidados:  Song of the Open Road de Walt Whitman e Cântico Negro de José Régio 



O Bolo da tia Rosa trouxe-nos dois convidados : Saul Dias e Sophia de Mello Breyner Andresen






























O Convidei para Jantar muda de casa, aqui ao lado, no Panelas sem (de)pressão. Batamos-lhe à porta, então.


terça-feira, março 12

Limoeiro


Nesses dias o que lhe restava era recordação do limoeiro no jardim. A ele, que nunca saíra da cidade e só distinguia os pombos e pardais dos restantes pássaros.  Nesses dias, em que a cor de chumbo do tempo, do que passava nos relógios também, descia aos últimos andares dos prédios, restava-lhe essa recordação, que nunca fora sua mas sim da sua mãe, de um limoeiro ao fundo de um quintal. A mãe sentava-se no banco de cozinha, onde passajava as meias e lhe falava do cheiro dos limões, dos alforges do burro, do sino da igreja, das pessoas cujos nomes eram as suas histórias. Histórias que terminavam quando guardava o ovo de madeira dentro do cesto. Depois escrevia-lhe num pedaço de papel a  meia dúzia de coisas que teria de trazer da mercearia. Ela que se esquecera com o tempo quando usar os esses ou  a cedilha. Se chovesse, enquanto vestia o casaco de fazenda voltada,  pedia, fala-me do baloiço no limoeiro, a mãe sorria, e as palavras delas soavam a gravilha debaixo dos pés, e ao fundo do caminho, daquele caminho que fica por detrás dos olhos ele recordava o limoeiro, enquanto a chuva da cidade pingava pelas pontas de metal do guarda-chuva.

Bolo de limão



Para o bolo

250g de açúcar
5 ovos
250g de farinha
1 colher de chá de fermento
125g de manteiga derretida
Raspa e sumo de 2 limões
1 chávena de lemon curd

Para a calda
100ml de sumo de limão
100 ml de água
175g de açúcar

Para a glace

4 colheres de sopa de açúcar em pó
2-3 colheres de sopa de limoncello


Pré-aqueça o forno a 180º. Bata os ovos inteiros com o açúcar. Junte o sumo e a raspa. Deite a manteiga derretida e bata bem. Envolva no fim, a farinha, com o fermento. Leve ao forno numa forma untada com manteiga e polvilhada com farinha, durante cerca de 30 minutos ( ou até que, espetando um palito no bolo, este saia limpo). Retire o bolo do forno e deixe arrefecer.
Leve o sumo de limão, a água e o açúcar ao lume e deixe ferver em lume brando por 10 minutos.
Corte o bolo ao meio e verta a calda sobre as duas metades. Recheie com o lemon curd.
Misture o açúcar em pó com o limocello cubra o topo do bolo com este glace.


quarta-feira, março 6

Da Caligrafia.




Mesmo quando passou a entregar o correio de mota, continuou a levar-lhe os postais de bicicleta. Um por mês. Nos meses de chuva, dois, que a chuva  recorda-nos as saudades dos outros.  Empurrava a cancela de madeira que nunca tivera fecho, o velho vinha à janela, entra que tenho o café ao lume. Sentavam-se na mesa da cozinha. O velho punha os óculos descaídos no nariz e lia  em voz alta as doze, que por vezes eram sete, linhas de letra miúda, escritas por detrás de gravuras avulsas. Depois  deixava os óculos em cima do tampo da mesa  e enquanto lhe servia o café, dizia, diz qualquer dia volta, que sente a minha falta. O carteiro sorria enquanto aquecia  as mãos na caneca de café quente. Diz que não te esquece. Eu também não esqueço os olhos cor de caramelo dela, disse o carteiro naquele dia de chuvas de Março. Não eram cor de caramelo, disse o velho.  Eram daquele castanho igual a toda a gente. E a letra dela tinha o redondo de quem nunca escreve. Pôs-lhe a mão no ombro.  Ainda não a consegues fazer igual.

Panna cota de caramelo



(para 6)

500ml de natas
250 ml de leite
1 vagem de baunilha
1 colher de flor de sal
250g de açucar
125 ml de água
5 folhas de gelatina

Demolhe as folhas de gelatina em água fria. Leve as natas, o leite , as sementes da vagem de baunilha, e a flor de sal num tachinho ao lume até levantar fervura. Retire do lume.
Leve o açúcar e a água ao lume até fazer um caramelo dourado. Retire do lume. Junte cuidadosamente a mistura de leite e natas e misture bem.  Adicione as folhas de gelatina e leve em tacinhas, ou copos ao frigorifico durante umas horas.

Receita adaptada de masterchef australia




sexta-feira, março 1

Bolerish



Que música é essa, perguntou-lhe ela, faz-me lembrar Satie.  Não conheço, mas parece-me mais Ravel, disse ele e abriu a janela para entrar a manhã.  A luz empalidecida pelo cedo das horas , azulou  as sombras que se espreguiçavam no soalho. Para te aqueceres, disse-lhe enquanto ela se enrolava sobre si com frio.  Faz-me lembrar Satie, repetiu ela.  Não conheço, repetiu ele enquanto acendia um cigarro debruçado na varanda. Ela suspirou contrariada. A primeira vez que nos vimos foi num concerto de Satie,  então se insistes que não conheces, então provavelmente nunca nos teremos visto. Ele pôs a mão do cigarro em concha sobre a testa e franziu os olhos para se habituar à sombra antes dela. Isso não passa de um silogismo de algibeira.



Crepes de chocolate com doce de ovos e framboesas
(receita porque sim)



30g de manteiga
50 g de chocolate em barra
250 ml de leite
2 ovos
2 colheres de sopa de açúcar
150g de farinha
Framboesas

Leve o leite, a manteiga e o chocolate ao lume até derreter por completo o chocolate.  Bata os ovos com o açúcar e junte a mistura de chocolate. Peneire a farinha e envolva bem. Deixe repousar uns 20 minutos.
Deite colheradas numa frigideira de forma a cobrir o fundo com uma camada fina de massa.  Deixe cozinhar até se soltarem dos lados. Volte o crepe e deixe cozinhar mais um pouco.
Sirva-os cobertos com um pouco de doce de ovos e framboesas abundantes.

Receita de crepes de chocolate adaptada de Laura Calder.



terça-feira, fevereiro 26

O Dono da Tabacaria - (Tabacaria III)




Abre a caixa de música, pintada com flores de pessegueiro por fora e forrada a veludo vermelho. Dá-lhe corda. Dez voltas. E a boneca de madeira gira ao som da música de um só tom. Debussy. Volta a placa pendurada na porta. Aberto. Atrás dele o cheiro da tinta dos jornais, e o corpo dela que um dia talvez tenha dançado numa sala de um segundo andar qualquer numa rua sem nome. Um estalido por cada volta da boneca na caixa. Sente-lhe o vestido castanho rasgando um espaço que se dobra sempre que ele abre aquela caixa de música. Bom dia. É o professor de música, de rosto esquálido e olhos mortiços. Fuma cachimbo e irá morrer de desgosto de amor, pensa. Outro estalido. Outro círculo. Fecha-lhe a carteira de tabaco. Cheira a cânfora e a memória (Será uma memória?), volta. O tempo, o real e o que corre atrás dos olhos, é circular. Definido por algum axioma que o engenheiro da mansarda poderá explicar. Bom dia. É a pequena dos chocolates, que será sempre pequena, mesmo quando tiver cabelos brancos. Leva-os, os chocolates, aos pares e fica ali, olhando para a mansarda, procurando os porquês que não encontra na sua rua tão igual a tantas outras. A boneca parou, com o seu braço descascado de tinta, imóvel no espaço de todos os dias. Dez voltas. Boa tarde (Já?). Não conhece o rosto. Leva cigarrilhas das caras. O Dono da Tabacaria não espreita o carro que arranca. É um homem rico. Deita um pouco de licor num copo que guarda por debaixo do balcão, que lhe desce viscoso e quente para dentro da memória. Talvez ela tivesse olhos azuis e dedos longos. Outro estalido. Olá Esteves, é o jornal? Vive atormentado com a morte dos outros, o Esteves. Sai à porta e sorri para o engenheiro da mansarda. O dia termina. Fecha a caixa de música e perde as memórias. Nada persiste. Só a certeza de que ao sétimo dia não descansará.

Cristina Nobre Soares   
(Março 2012)


Trufas de chocolate, Vinho do Porto e Praliné de Amêndoa




200g de chocolate em tablete
100ml de natas
2 colheres de sopa de vinho do porto

para o praliné

200g de açúcar
75ml de água
100 g de amêndoa pelada



Derreta o chocolate em banho maria, juntamente com as natas. Retire do lume e junte o vinho porto. Leve ao frigorifico durante umas horas para endurecer.

Leve o açúcar e a água ao lume até fazer ponto de caramelo ( não muito escuro). Junte as amêndoas e deite sobre papel vegetal. Deixe arrefecer completamente e pique.

Tenda bolinhas com a massa de chocolate e envolva-as no praliné.



segunda-feira, fevereiro 25

O Esteves sem metafísica - Tabacaria (II)


Comprava o jornal todos os Domingos. O Dono da Tabacaria não fechava ao sétimo dia. Vens comigo à missa? Perguntava-lhe a mulher. Não. Vou buscar o jornal. Ela ficava ali, de véu quase branco rolando entre as mãos. Fazia-te bem homem. Quando morrer ajusto as minhas contas com Ele. E o véu rolando entre as mãos era guardado na mala com um suspiro. Fazia-te bem homem. Não gostava de ler. As letras miúdas do jornal ardiam-lhe na vista a pedir óculos há muito. Por isso não havia livros em casa. Só a Bíblia, que a mulher lia todas as noites antes de dormir. Depois, pousava-a na mesa-de-cabeceira, benzia-se duas vezes, três se visse que ele estava com ardores e punha o lenço de cambraia para não estragar o apanhado de cabelo, sempre impecável. Tenho saudade de te ver com o cabelo caído, dizia-lhe ele quase sorrindo. Ela nem levantava os olhos do terço que corria lesto e rotineiro por entre os dedos ásperos da cinza. Não gostava de ler. É o jornal, Esteves? O Dono da Tabacaria guardava-lho por debaixo do balcão. À porta estava a rapariga dos chocolates, sem nome e olhos vagos. Ficava ali, à porta, a olhar para a Mansarda. Deixou a moeda no balcão. Só lia a página dos mortos. Para saber quem ia e quem ficava. Sempre que podia ia aos funerais, mesmo que não conhecesse o defunto. Mais triste que a solidão em vida, é a solidão da morte. Por isso cumprimentava toda a gente. Talvez assim não se esquecessem do seu enterro. O pai, que morrera fulminado por um ataque de fúria, não tivera ninguém para além dele e da mãe. Que o coveiro e o padre não contam. Por isso ia a todos os enterros que podia. Devias ter ido hoje comigo, dizia-lhe a mulher sentada à beira da cama enquanto atava o lenço. Foi bonito o sermão. Ele olhava-a. Tenho saudades do teu cabelo. Fazia-te bem homem. Ele aconchegava-se na cama. Foi alguém a enterrar hoje? Perguntava-lhe a mulher. Foi. As pessoas eram tantas que ficaram à porta do cemitério. Ela suspirou. Um homem de Deus. Não, retorquia ele enquanto apagava o candeeiro a petróleo. Um homem de bem.


Tarte de dois chocolates com molho de café



4 gemas
7 claras
1 tablete de chocolate preto
1 tablete de chocolate branco
125g de açúcar
75g de manteiga
100 ml de natas
6 folhas de gelatina
200g de bolachas de chocolate
80 g de manteiga derretida.

Demolhe as folhas de gelatina em água fria.Derreta o chocolate preto com a manteiga, em banho maria, junte a esta mistura metade das folhas de gelatina e envolva bem. Bata as gemas com o açúcar e misture o chocolate derretido. Bata as claras em castelo e adicione à mistura, metade das claras, envolvendo cuidadosamente. Leve ao frio para prender um pouco.
Derreta o chocolate branco com as natas em banho maria, junte as restantes folhas de gelatina e envolva as restantes claras.
Pique as bolachas de chocolate e junte a manteiga até obter uma pasta areada. Forre o fundo de uma forma de mola com esta mistura. Deite por cima a mousse de chocolate preto e depois a mousse de chocolate branco. Leve ao frio por umas horas.

Molho de café

300ml de café expresso forte
100ml de água
100g de açúcar

Leve o café, a água e o açúcar num tachinho ao lume e deixe ferver em lume brando até reduzir para 1/3 do inicial.


Sirva a tarte com o molho de café