quinta-feira, fevereiro 23

Por trás daquela janela

Por trás daquela janela há uma mesa de tampo de latão. Há a luz da cidade que pinga nos cortinados a imitar renda. Há os teus dedos esquecidos no cabedal do sofá. Há um tempo que cresce por entre os móveis e o cheiro a óleo de cedro. Um tempo que não se coa de impurezas, as memórias constroem-se assim, de luz e sombras.Há música aos domingos de manhã, e os teus dedos, longos e brancos que seguram no preto do vinil. Não sabia eu, que a musica que punhas viria um dia a ser as letras daquilo que escrevo. Por trás daquela janela  eu cresci no quarto de paredes cor de rosa. Ficavas à porta e não gostavas que ouvisse Zeca, lembras-te? Abriam-te feridas de uma guerra de que só ouviste falar. Demorei tantos círculos de tempo para compreendê-las. Foi o que pensei, hoje enquanto me tentava lembrar se gostavas de cravos brancos.




p.s Hoje a confeitaria não tem estórias de comer. Só retalhos de memória.

3 comentários:

Laura Ferreira disse...

Belíssimo.

© Piedade Araújo Sol disse...

e é tanto....

beij

Mané disse...

também estou a pensar fazer um post onde tenha Zeca (este poema e música são muito bonitas)
Vejo que as tuas memórias são...