segunda-feira, setembro 17

Azul


O homem está sentado na soleira da porta, no banco de pedra alisada pelo cansaço e esboroada nos cantos pelo tempo. Está sentado e olha a curva da rua que se esvanece entre duas casas mais velhas que ele. A curva de alcatrão desbotado já estava desde o seu tempo de criança.Repousa o queixo salpicado pelo áspero da barba branca no cajado retorcido. Olha a curva. Não sopra vento, nem o vento quente das tardes de Junho. E espera, sentado no banco talhado na parede caiada. Os olhos baixam-se nas botas que pisam as manchas de pó azul.  Corta um pêssego e leva a lamina do canivete pingando até à boca. As sombras engolem lentamente quente da poeira dos caminhos. Os cheiros azulados da noite começam  a descer nas paredes caiadas. Os olhos pousam de novo no caminho. Semicerram-se e o velho escuta o som seco dos passos do filho, afastando-se na curva de alcatrão. De costas vergadas sob o peso do saco de lona azul desbotado de esperança. Dobrou a curva sem se voltar, para que os olhos do velho, resguardados pelos mãos calejadas em pala, não vissem as lágrimas envergonhadas que pingavam no rosto. As mãos do velho estão de novo em pala. Mas a curva só lhe trás sombras que crescem. E o rosto do filho da primeira vez que regressou. Soberbo na sua farda de alferes, de arma a tiracolo e livro vermelho debaixo do braço.  O filho quis que os homens da aldeia escutassem o que a cidade grande lhe tinha ensinado. E quis que escutassem a boa nova, por entre os copos de tinto que lhes pagou na taberna. E eles escutaram. O filho quis que eles se revoltassem. E eles revoltaram-se. Ensinou-lhes uma palavra nova: igualdade. Que eles repetiram em voz alta. Depois regressou à cidade grande com o saco azul desbotado cheio de promessas de regresso e a arma a tiracolo. E não regressou mais. Até àquela tarde. Que o velho vê crescer com a mesma lentidão com que a saudade se impregnou nas paredes caiadas. Cospe o caraço do pêssego para o chão, e tira o velho relógio de pulso do bolso da camisa preta. O tempo é pastoso na espera, mas ele sabe que está quase.  O cheiro da ervas secas escorre por entre as sombras empoeiradas de azul e branco. O som do carro que se aproxima. O velho levanta-se. As pernas tremem de saudade e de velhice. A mão em pala. O resto de sol que ainda lhe arde no corpo vestido de negro. O som mais próximo. O vulto do  carro azul arranhando o alcatrão gasto. O sorriso rasga-se nas rugas curtidas pelo sol. O carro pára e o filho sai.  O tempo retoma a sua toada no imenso instante do abraço. O filho estende-lhe o saco já quase sem cor, sem pretéritos nem propósitos. A noite escorre por debaixo dos passos. A nova vida já não cabe num saco de lona.
Deserto do Mundo, Maio de 2009

Tartes de Pessego com molho de amêndoa amarga


Massa:

300g de farinha
200g de manteiga
100g de açúcar em pó 
1 ovo
pitada de sal

Bata o açúcar com a manteiga, junte a farinha e o ovo. Guarde a massa no frio durante pelo menos 30 minutos. Depois, estende-a e forre formas de tarte. Leve-as de novo ao frio por 15 minutos. Pique-as e leve-as ao forno pré-aquecido a 180º durante 15 minutos. Reserve.

Recheio:

8 pêssegos
3 colheres de sopa de açúcar
1 cravinho

Descasque e fatie os pêssegos. Saltei-os com o cravinho e o açucar numa frigideira. Reserve.


Streusel

8 colheres de sopa de amêndoa moida
2 colheres de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de açucar

Misture tudo e leve ao frio. Reserve.

Molho

4 gemas
200 ml de natas frescas
70g de açúcar
30 ml de licor de amêndoa amarga


Bata as gemas com o açúcar. Leve as natas ao lume sem deixar levantar fervura. Adicione lentamente às gemas para não talhar, e junte o licor. Leve novamente ao lume até engrossar, tendo o cuidado de  não ferver.


Coloque os pêssegos dentro das tartes e esfarele o streusel. Leve de novo ao forno até dourar. Sirva frias com o molho.








88.

4 comentários:

Ana Rita disse...

Uma história bonita e uma tarte bem apetitosa!
Bjoka
RIta

Rachel disse...

Gostei muito de ler nesta minha pausa para o lanche.

Luis Eme disse...

sabe bem tarte de pêssego em Maio.

beijinhos Cristina

vera ferraz disse...

História bonita!
A tarte... nem comento :)