quarta-feira, setembro 14

Vinte e dois quilates

Apesar de ter as orelhas furadas, nunca usava brincos. Fora avó quem as furara com uma agulha, deixando duas argolinhas de linha branca. Assim a menina já pode usar as contas de ouro no baptismo, dissera enquanto queimava a ponta da agulha no bico do fogão. Nunca usava brincos, ainda que a avó lhe fosse dando aos pares de ouro, todos os aniversários. Ouro e virtude são os tesouros de uma mulher, dizia-lhe. Guardava-os na gaveta da mesa-de-cabeceira dentro de uma caixa de lata juntamente com as fotografias da avó pintadas de cor. Que tinha uma lata como aquela sempre cheia de bolachas de aveia. Uma receita que a vizinha emigrada na América lhe dera e para a qual todos os anos em Agosto lhe trazia caixas de flocos com rótulos escritos em estrangeiro. Nunca usava brincos e acreditava mesmo que os furos já tivessem fechado. O último par, herdara-o com a morte da avó. Um par de arrecadas de Viana. Ouro e virtude. Pagou o café e olhou para o letreiro verde do outro lado da rua. Antes de sair, a empregada do café trouxe-lhe à porta o saco de papel. Esqueceu-se disto na cadeira. Do outro lado a vitrina com a faixa verde. Suspirou e espertou na esquina que a rua ficasse vazia. Quando lhe entregou as notas de cem, tantas quanto precisava para a renda, o homem da loja da vitrina verde perguntou-lhe, olhando para as orelhas furadas vazias. Também não lhe fazem falta, pois não?


Bolachas de aveia




Ingredientes:

200g de manteiga sem sal
225g de farinha sem fermento
125 de açúcar mascavado
100g de flocos de aveia
1 colher de chá de baunilha
1 colher de café de sal fino

Bata a manteiga com o açúcar até obter um creme fofo e esbranquiçado. Junte os flocos de aveia, a farinha, o sal e a baunilha. Faça um rolo com a massa e envolva-o em película aderente e leve ao frigorífico durante pelo menos 1hora. Pré-aqueça o forno a 200ºc. Corte bolachas com cerca de 0,5 cm de espessura e leve ao forno até ficarem douradas.


10 comentários:

Isabel J. disse...

Adorei Cris! :)

Há negócios que são pecado. Mas um pecado necessário...

:*

PS - Continua que estou a delirar! :D

Mateso disse...

Creio que por vezes as palavras pesam, o silêncio é de ouro. Os meus sinceros parabéns. Beijoca

Na calada do virtual já por cá tenho andado, de qualquer das formas obrigada pelo convite.

Laura Ferreira disse...

Adorei. Voltarei para me deliciar com as histórias e as receitas.

© Piedade Araújo Sol disse...

dizem que quem o vende (ouro) esconde sempre as lágrimas.

uma historia actual e com muita verdade.

um beij

mfc disse...

Os teus contos curtos são uma arte que manejas lindamente.

Leonor disse...

Vou exeprimentar as bolachas :)

Carla disse...

Cristina,
Se não bastasse o título, que é um dos meus poemas preferidos da poesia portuguesa, tinha ainda as estórias e as delicias que as acompanham. Já me fazia falta uma confeitaria assim, daquelas onde entramos e nos sentamos a ler um livro e a comer um doce a combinar. Vou passar a ser cliente.
Beijinhos

Luis Eme disse...

essas lojas verdes, amarelas, vermelhas, brancas, etc, têm tudo menos aveia.

mas ficou o amargo no doce.

beijinho Cristina

Laranjinha disse...

Adorei a história e as bolachinhas.
Um beijinho.

Maria disse...

Terrível retrato que volta, de novo, ao nosso país.

Beijo, Cristina.