domingo, setembro 4

Comboio das onze

O cheiro das velas e do perfume que a tia usava no dia da missa davam-lhe náuseas. Tantas que antes da comunhão tinha de se sentar com tonturas. E por isso começou a ficar em casa. Primeiro nos dias mais quentes. Depois até nos frios e chuvosos domingos de Inverno. Enquanto esperava que a tia regressasse da missa, sentava-se na cadeira da cozinha, junto à janela que dava para a rua empedrada a ler os livros de culinária. Os únicos, para além da bíblia, que existiam na casa de soalho empenado. No meio deles, descobriu um pequeno caderno de capa de carneira, onde a tia-avó, dona de um cursivo cheio de arabescos, registara todos os seus segredos de doçaria. E começou a servir os doces, que a partir de listas de ingredientes e procedimentos cuidadosamente desenhados a tinta azul, passavam a aromas de canela, laranja e aguardente que abafavam o cheiro a bafio que escorria das paredes da casa.  O padre,  quem todos os domingos a tia convidava para almoçar, deliciava-se especialmente com o arroz doce. Divino, dizia, enquanto limpava os cantos da boca. Talvez um pouco menos de casca de limão, atalhava a tia. Ela, sentada em frente, cerrava os olhos e imaginava-se fugindo de casa, num comboio a cheirar a canela. E foi arroz doce que deixou, junto ao bilhete de duas frases,em cima da mesa da sala. Duas taças, cheias de corações de canela. Uma para a tia, outra para o senhor padre.



Arroz Doce



Ingredientes:

1/2 chávena de arroz carolino
1 chávena de água
1 litro de leite
1 chávena de açúcar
6 gemas
1 pau de canela
1 raspa de limão
1 colher de sopa de manteiga
1 pitada de sal


Ferva o leite com a canela e o limão. Leve a lume muito brando o arroz, a água, a manteiga e o sal até abrir o arroz e a água se tenha evaporado. Depois vá adicionando aos poucos o leite, lentamente, mexendo sempre, até esgotar completamente o leite. Retire do lume e deixe arrefecer um pouco. Misture as gemas com o açúcar e adicione ao arroz, mexendo bem. Leve novamente a lume muito brando, mexendo sempre tendo cuidado para não ferver. Deite em tacinhas ou numa taça grande e decore a gosto com canela.

3 comentários:

mfc disse...

Tão simples, tão tradicional e tão bom!

... e tão difícil de fazer bem feito!

© Piedade Araújo Sol disse...

gosto muito de arroz doce.

tomei nota da receita.

beij

Luis Eme disse...

olá Cristina.

que belas guloseimas. :)