sexta-feira, setembro 23

Santo Amaro


Ficava sempre até ao fecho da biblioteca. Entrava devagar para que não ouvissem os seus passos sobre as velhas tábuas corridas. Sentava-se ao fundo, sempre na mesma mesa tentando diluir-se no cheiro a pó e na luz que entrava das janelas do primeiro andar. E lia, lia até que fosse o último a sair e serem horas de descer a rua até ao quarto que alugara perto da Rua da Junqueira. Não telefonas aos teus pais? Ele esquivava o olhar e respondia à senhoria, que andara na escola primária com mãe, não, hoje tenho de estudar.  Ela, atirando o pano da louça por cima do ombro, dizia. A tua mãe mandou-te mais estes pães-de-ló. Tenho de estudar, repetia, fugindo da náusea que o cheiro adocicado dos ovos lhe causava. Ficava sempre até ao fecho da biblioteca, na esperança de não voltar. Aos pomares de maceiras raquíticas do pai. Ao cheiro dos pães de ló cozidos de madrugada para vender aos turistas de São Martinho. Aos sábados, quando a biblioteca fechava mais cedo, esperava os fins de tarde no miradouro, com a capela por trás de si, apertando os livros contra o peito. E ficava ali de olhos escorrendo pela ponte que fugia para sul, onde começavam as terras das laranjas. Não ligas aos teus pais? Não. Talvez amanhã. Hoje tenho de estudar.



Pães de ló cremosos  





Ingredientes ( para aproximadamente 12)

10 gemas + 2 ovos inteiros
12 colheres de sopa de açúcar
5 colheres de sopa de farinha
1 colher de chá de fermento em pó


Pré aqueça o forno a 225º. Bata as gemas e os ovos inteiros com açúcar durante 10 minutos até obter um creme muito leve e espumoso. Junte a farinha peneirada e misturada com o fermento e envolva cuidadosamente.
Unte com manteiga e forre 12 ramequins, com papel vegetal. Deite o preparado em cada um dos ramequins e leve ao forno durante 4 minutos ( ou mal a parte de cima dos bolos fique dourada). Deixe arrefecer se desenforme-os.



6 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

que angustia me tocou...

Claudia Sousa Dias disse...

isto está bom...e cheira-me que mais dia menos dia, sai um livro à la Joanne harris para as bancas...

mfc disse...

Uma angústia enorme perpassa por todo este mini conto!
Chega a doer...!

Maria disse...

Manténs-te fiel ao teu estilo de escrita. Às vezes angustiante, outras apenas triste, mas sempre em 'suspenso'. Hoje nem os pães de ló me adoçaram a boca...

Beijo
(e vou ler-te para trás!)

Luis Eme disse...

boa, Cristina, estou a gostar muito das tuas "guloseimas".

Mena Lopes disse...

Bem sei que este post é antigo, mas eu ainda nao o tinha visto!
E tive mesmo que vir!! É a maravilha!!
E estes vao pra minha mesa de Páscoa!! Pra matar saudades!!
Um beijinho,
Mena.