quinta-feira, abril 5

Violeta


Às quintas à noite levava a tábua de passar a ferro para a sala. Abria a janela e enquanto esperava que o ferro aquecesse, abria-se a janela da casa ao lado. Amami, Alfredo. Semicerrava os olhos e molhava o indicador na saliva para experimentar a temperatura do ferro. Amami, Alfredo. Passa o dia a ouvir ópera, dizia-lhe a sobrinha que fazia a limpeza da casa dele, às quartas-feiras. Senta-se no sofá, e fica ali de olhos fechados a ouvir discos atrás de discos. Diz que estudou para cantor, mas acabou numa repartição qualquer. Nem sei se é viúvo, ou solteiro. Mas é muito asseado. Ela, tirava uma camisa e imaginava-o. De olhos tão verdes como o rasto de água-de-colónia que deixava nas escadas quando passava. Cheirava a amêndoas. Dele só lhe conhecia o vulto que via pelo óculo da porta, e as camisas que a sobrinha lhe trazia para passar. Encontrara-o apenas uma vez na mercearia, mas baixara os olhos ao lhe ver a nuca no pescoço atarracado, para que não estragasse a imagem que a vinha buscar às quintas à noite. Dobrava delicadamente o cheiro da camisa lavada, imaginando a notas de colónia entranhando-se no algodão ao longo da rotina dos dias. Depois, a música parava. Ouvia-lhe os passos na varanda e o estalido surdo do isqueiro. Guardava a tábua e sentava-se de costas para o vidro da janela inspirando o cheiro de amêndoas que música lhe deixara na sala.




Torta com creme de amêndoa



Para a torta:

4 ovos inteiros
150g de açúcar
75 g de farinha com fermento

Bata os ovos inteiros com o açúcar durante 10 minutos. Envolva cuidadosamente a farinha peneirada. Leve a forno pré-aquecido a 170º ,  num tabuleiro forrado a papel vegetal ( que deve ser untado com manteiga) durante 10 minutos.

Para o creme:
6 gemas
125g de amêndoa moída
200g de açúcar
100 ml de água
1 colher de sopa de licor de amêndoa amarga
1 pau de canela

Leve o açúcar, a água e a canela num tachinho ao lume. Deixe ferver em lume brando durante 10 minutos e junte a amêndoa. Deixe arrefecer e junte as gemas eleve de novo ao lume até engrossar. Retire e adicione o licor.
Deite o creme sobre o bolo, e enrole –o. Polvilhe com açucar em pó e decore com amêndoas laminadas.





10 comentários:

mfc disse...

Há vidas que só melhoram mesmo com a ilusão do sonho...!

Teresa disse...

Ela preferia viver só com uma imagem entrevista e um aroma a amêndoas...

maria madeira disse...

Simplesmente delicioso. O texto e a receita.

Gina disse...

Acabei de conhecer seu blog e achei lindo!
Concilia texto, imagens e receitas de modo muito simpático. Parabéns!
Já estou seguindo.
Boa Páscoa!

Claudia Sousa Dias disse...

Parece um pouco o patrão de que fala o Valter em"O Apocalipse dos Trabalhadores".

Mané disse...

Obrigada pelas duas delicias (texto e papinha)
Boa Páscoa
http://obolodatiarosa.blogspot.pt/2012/04/coalhada-de-limao-com-gengibre-e-uma.html

George Sand disse...

Amanhã será dia de chocolates!!!

Uma feliz Pácoa

© Piedade Araújo Sol disse...

há ilusões que se criam e assim gostamos de criar sonhos que nem a realidade nos consegue tirar.

um bom domingo de Páscoa

beij

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Por motivos alheios à minha vontade estive forçadamente ausente da blogosfera durante dois dias mas, como o dia ainda não terminou, aqui ficam os meus votos de que tenha tido uma Páscoa Feliz.

Gisela disse...

Esta tarte está a piscar-me os olhos. Que coisa maravilhosa!!
Um beijinho e boa Páscoa