sexta-feira, março 30

Mendelssohn




No terceiro andar vivia uma mulher com dois filhos. Um rosto quase bonito, quase sem idade que emoldurava uma voz quase doce. Que se arrastava num quase murmúrio pelos lances de escadas, deixando o perfume caro a impregnar as paredes cobertas de minúsculos vidros coloridos. Estas paredes parecem de papel, ouve-se tudo, dizia se alguma conversa de vizinhança se prolongava entre os andares. Os vizinhos encolhiam os ombros com ironia, e perguntavam-lhe pelo marido que nunca viam, só ouviam às sextas-feiras à noite. Trabalha no Porto, coitado. Só pode vir a casa ao fim de semana, respondia mesmo sabendo que eles lhe ouviam os gritos e os choros de domingo de madrugada e lhe olhavam para as mãos sem aliança. É uma canseira, esta vida, dizia enquanto pousava os sacos das compras de onde rebolavam sempre maracujás engelhados e castanhos. Ele adora maracujá. É a única fruta que come. Os vizinhos sorriam de novo e ela repetia em tom de justificação. Mas estas paredes são de papel. Ouve-se tudo. Depois pegava nos sacos e os vizinhos ficavam a ouvir a porta do terceiro a andar abrir-se. A mesma que se fechava abruptamente todos os domingos de madrugada depois dos gritos, deixando um rasto de maracujá e soluços atrás dos passos. Que desciam as escadas de dois em dois degraus, assobiando uma marcha nupcial que nunca acontecia.


Tartes  de maracujá



1 receita de massa quebrada ou uma embalagem de massa quebrada
350 g de polpa de marcujá
1 lata de leite condensado
3 gemas
Açucar mascavado

Forre forminhas de tarte com a massa quebrada. Leve a forno pré-aquecido a 180º, cobertas por papel vegetal e grão de bico ( ou contas de porcelana) , durante 15 minutos. Entretanto leve ao lume o leite condensado com a polpa de maracujá  e as gemas até fazer ponto de estrada. Deite sobre as tartes já arrefecidas. Quando o recheio estiver frio, polvilhe com o açúcar mascavado e queime com um maçarico ou ferro de leite creme.

14 comentários:

Susana disse...

Eu não sei se acontece só a mim, mas sempre que venho aqui fico sem palavras. Nem sei como me exprimir com tanta beleza! As histórias complementam as receitas e as imagens... adoro ;) Parabens

Beijinhos

Luisa Alexandra disse...

Adorei a fotografia, tão linda!

Teresa disse...

Uma vida agridoce como os maracujás.
Bjs

mfc disse...

Uma vida que se tornava real à custa de uma repetição descolorida e cruel!
Ouvia-se sim... mas ninguém ouvia aquele choro interior que a sufocava.

Beijos,

Pipas disse...

Adoro sempre as histórias.
A foto está mesmo linda:)
Bjocas e bom fim de semana

Maria disse...

Cristina, a tarte está um "must".
Gostei imenso da sugestão. Obrigada por a partilhares.
Beijo
Maria

Nilson Barcelli disse...

Coitada da senhora. Já deve deitar maracujás pelos olhos...
Nos apartamentos não há grande privacidade. Mas nos casos de violência doméstica sempre dá para denunciar...
Cristina, boa Páscoa.
Beijos.

Blondewithaphd disse...

Entre fazer a massa quebrada e comprá-la já feita, está bem de ver o que eu escolho:)
Devem ser deliciosas as tartes!!

Sam Seaborn disse...

Belo texto, a vida pode ser dura às vezes… quanto à receita que me chamou mesmo muito á atenção… fiquei com vontade de correr para a cozinha e tentar fazer a tarde (risos)
Bom domingo.

maria madeira disse...

Uma delícia, o blog, o texto, a foto da tarte. E todos os outos posts. Gostei muito.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Uma receita agridoce a condizer com a protagonista da história

Aproveito para lhe dizer que criei esta semana um novo blog só de crónicas. Terei muito prazer em recebê-la por lá.
Aqui fica o endereço
http://cronicasontherocks.blogspot.pt/

Blondewithaphd disse...

Mas que header fabuloso!!!!!!!!!!!!

Pammy Sami disse...

Mais uma belíssima historia esta... A triste realidade encoberta por muitos...
A tarte, uma beleza, como eu gosto de maracujás, lembram o Verao!

Desafio Receita disse...

Deve ser uma delícia :)
http://desafioreceita.blogspot.pt