quinta-feira, outubro 4

Da memória das letras


Tinha uma drogaria no rés do chão de um  prédio de dois andares. Um prédio velho de varandas absurdamente estreitas com  grades torneadas.  Era uma pequena loja impregnada de cheiro a tintas e benzina. Também vendia sabonetes e pó de talco, embrulhados  no mesmo  papel manteiga onde colocava as dúzias de pregos e meadas de arame. Sentava-se atrás do balcão de madeira com um caderno de folhas brancas e um lápis afiado com navalha, e enquanto desjejuava com uns biscoitos de canela que comprava na mercearia em frente, tentava lembrar-se. Porque o que ele queria ser era um grande escritor, daqueles que escrevem livros de lombadas largas e com edições de capa rija. Mas as ideias, as histórias só vinham de noite, naqueles breves instantes que antecedem o adormecer. Histórias formidáveis que eram varridas de manhã. Sempre tivera uma memória fraca, e uma imaginação lavada pela benzina. Por isso ele ficava ali, atrás do balcão, todas as manhãs, na esperança que lhe pingassem palavras do bico do lápis. Mas nada. Em cima do caderno, só as migalhas dos biscoitos. Depois a sineta da porta, que era uma velha sineta de escola, anunciava um cliente. Ele punha o caderno de lado,  sacudia os restos de canela  das camisa coçada, aviava os pedidos no pequenos embrulho de papel manteiga e depois pedia-lhes que fizessem as contas num canto de papel. Sorria meio envergonhado, enquanto ajeitava as latas de tinta na prateleira. Tiraram-me da escola antes de aprender a juntar as letras. Diziam que eu não tinha cabeça para os estudos. De lá só consegui roubar o sino.

Bolachas de canela com doce de maçã



200g de açúcar em pó
200g de  manteiga sem sal
400g de farinha sem fermento
2 colheres de chá de canela
1 ovo inteiro + 1 gema
Pitada de sal fino
Passas
Doce de maçã para rechear

Bata o açúcar com a manteiga até obter um creme. Junte a canela, o sal e depois os ovos, batendo sempre.  No fim adicione a farinha. Faça uma bola com a massa e leve ao frio durante 1 hora, embrulhada em película aderente. Estenda a massa numa superfície polvilhada com farinha e corte com um cortador à sua escolha. Depois coloque uma passa em metade das bolachas e leve ao forno pré-aquecido a 180º até ficarem com as bordas ligeiramente douradas. Retire do forno e deixe arrefecer completamente. Depois coloque uma colher de doce de maça numa bolacha e cubra com uma das que tenha levado passa.


4 comentários:

Susana Figueiredo disse...

Escreves maravilhosamente. Beijinho

Gisela disse...

Lindas as tuas bolachinhas, e que aspecto delicioso têm
Um beijo e bom fim de semana

Lume Brando disse...

Olá CNS! Que bolachas e história deliciosas :)
Fico à espera do post relativo à foto que publicou hoje no fb e me pareceu um strudel...

Um beijinho
Teresa

Claudia Sousa Dias disse...

Trincava-as já com chá de maçã e canela!